BLOG – Drogas eméticas para cães e gatos

4 de fevereiro de 2021

Por Rosangela Gebara

Os animais possuem um arsenal de habilidades especiais para a sobrevivência, dentre as quais a capacidade de vomitar e expelir conteúdos que podem causar doenças, incluindo as toxinfeções causadas por bactérias, toxinas e alergênos.

O olfato e o paladar nem sempre são eficazes na determinação da qualidade dos alimentos; portanto, náuseas, vômitos e diarreia são mecanismos adicionais de defesa do sistema gastrointestinal.

A emêse mediada humoralmente resulta na liberação de substâncias emetogênicas na circulação sanguínea que ativam a zona de gatilho quimiorreceptora (ZGQ). Que é uma área da medula oblonga que se comunica com outras estruturas no centro de vômito para iniciar o vômito.

A ZGQ está fora da barreira hematoencefálica. A mediação neural da êmese resulta da ativação de uma via neural aferente tipicamente proveniente das vísceras abdominais e sinapses em um ou mais núcleos no centro emético.

Apesar da via neural ser mais importante, ela recebe menos ênfase. E a maioria das intervenções farmacológicas acabam concentrando-se na via humoral da êmese, com base nas interações do neurotransmissor na ZGQ.

A náusea é uma experiência aversiva que geralmente acompanha a êmese; é uma percepção distinta, diferente de dor ou estresse. A náusea é mais difícil de tratar com medicamentos anti-eméticos do que a êmese em si, com medicamentos antieméticos.

Sabe-se atualmente que náuseas e vômitos são processos fisiológicos separados. A êmese induzida por movimento (cinetose) parece ter uma origem muito precoce na evolução das espécies, porque está presente na maioria dos animais.

Acredita-se que a cinetose resulte de um conflito sensorial em relação à posição do corpo no espaço, mas não existe uma teoria satisfatória sobre porque as pessoas e os animais têm esse mecanismo. Náuseas e vômitos, atuando como sistemas de defesa do trato gastrointestinal, necessariamente devem ter um baixo limiar de ativação. Os gatos são bem conhecidos por sua tendência a vomitar, principalmente quando tentam expelir bolas de pelo da garganta ou do trato gastrointestinal superior. Vômito crônico em gatos pode indicar disfunção tireoidiana, hepática ou renal subjacente e deve ser investigado. Os cães também vomitam com frequência (frequentemente após comer grama) e frequentemente comem seu próprio vômito.

Neurotransmissores associados à êmese:

A acetilcolina (receptores muscarínicos) e a substância P (receptores NK-1) atuam no centro emético. O ZGQ pode ser estimulado por dopamina (receptores D2), drogas α2-adrenérgicas (receptores NE), serotonina (receptores 5-HT3), acetilcolina (receptores M1), encefalinas e histamina (receptores H1 e H2).

Os receptores α-adrenérgicos no ZGQ são importantes na indução de vômitos em gatos, portanto, os agonistas α2-adrenérgicos (por exemplo, a xilazina) são eméticos mais potentes em gatos do que em cães.

Antagonistas 5-HT1A (por exemplo, buspirona) e antagonistas α2-adrenérgicos (por exemplo, acepromazina, ioimbina e mirtazapina) suprimem o vômito em gatos.

Já os receptores de dopamina (D2) não são tão importantes na mediação da êmese humoral em gatos quanto em cães. A apomorfina, um agonista do receptor de dopamina D2, é um emético mais confiável e potente em cães do que em gatos, e os antagonistas do receptor de dopamina D2 (por exemplo, a metoclopramida) não são medicamentos antieméticos muito eficazes em gatos.

Os receptores de histamina H1 e H2 são encontrados no ZGQ de cães, mas não em gatos. A histamina é um emético potente em cães, mas não em gatos, e os antagonistas H1 (por exemplo, a difenidramina) são ineficazes para a cinetose em gatos.

Os receptores muscarínicos M1 são encontrados no aparelho vestibular dos gatos. Portanto, antagonistas M1/ ​​M2 mistos (por exemplo, a atropina) inibem a cinetose em gatos.

A substância P liga-se aos receptores NK-1, que são encontrados no intestino e no centro emético do SNC. A substância P induz êmese, e por isso os antagonistas seletivos da substância P como o maropitant são antieméticos potentes em cães e gatos, e possuem um amplo espectro de atividade contra uma variedade de estímulos eméticos.

Drogas eméticas

Os medicamentos eméticos são geralmente administrados em situações de emergência após a ingestão de uma toxina e geralmente não conseguem remover todo o conteúdo estomacal, geralmente removem menos que 80%.

Os medicamentos eméticos mais confiáveis agem de forma central, estimulando o centro do vômito, de forma direta ou por meio do ZGQ.

Droga Cães Gatos
Apomorfina
  • 4 mg/kg, VO; 0.02 mg/kg, IV; 0.3 mg/kg, SC; 0.25 mg no saco conjuntival
 
Xilazina  
  • 0.4-0.5mg/Kg, IV ou IM
Peróxido de Hidrogênio
  • 5 – 10 ml/VO
 

A APOMORFINA é fármaco agonista dopaminérgico, derivado da morfina. É agonista receptor relativamente não-seletivo para a dopamina, tendo afinidade levemente maior por receptores D2-tipo dopamina. Portanto ele é um opióide que atua como um potente agonista central da dopamina, estimulando diretamente o ZGQ.

Ele é, portanto, menos eficaz em gatos do que em cães. Alguns estudos indicam que 94% dos cães vomitam após adm. de APOMORFINA. Pode ser administrado PO, IV ou SC; já a via IM não é tão eficaz. Também pode ser aplicado diretamente nas membranas conjuntival e gengival, utilizando a formulação em comprimido, que pode ser facilmente retirada uma vez iniciada a êmese. O vômito geralmente ocorre em 5 a 10 minutos após a administração. Embora a apomorfina estimule diretamente o ZGQ, ela tem um efeito depressor no centro emético. Portanto, se a primeira dose não induzir êmese, doses adicionais não serão úteis e não são recomendadas.

Como o aparelho vestibular também pode estar envolvido no vômito induzido pela apomorfina, animais que estão sedados ou completamente imóveis não vomitarão tão prontamente quanto animais que estejam em movimento. A excitação que resulta da apomorfina em gatos pode ser tratada com o antagonista opióide – naloxona.

Atenção –  a administração de APOMORFINA deve ser realizada preferencialmente dentro da clínica/hospital veterinário e deve-se tomar cuidado com a depressão do SNC ocasionada. Esteja sempre preparado para reverter os efeitos deletérios se for necessário, com a naloxona.

A XILAZINA é um agonista α2-adrenérgico usado principalmente por sua ação sedativa e analgésica. É um emético confiável, principalmente em gatos, no qual estimula a zona de gatilho quimiorreceptora (ZGQ). Como a xilazina pode produzir sedação e hipotensão profundas, os animais devem ser monitorados de perto após a administração, principalmente em relação a hipotensão.

GATOS –

  • DEXMEDETOMIDINAComo a xilazina, a emese com dexmedetomidina tende a ocorrer de forma rápida e seu efeito não é prolongado. Pode ser mais eficaz do que a xilazina. Podem causar depressão do SNC ou respiratória, mas podem ser revertidas com atipamezol ou ioimbina.
  • MIDAZOLAM / HIDROMORFONAUma combinação de midazolam e hidromorfona pode ser uma boa escolha, particularmente em pacientes felinos idosos ou com doença cardiovascular subjacente. São mais seguros para o sistema cardiovascular do que a xilazina e a dexmedetomadina, como também são passiveis de reversão, se necessário.

O PERÓXIDO DE HIDROGÊNIO (3%) aplicado na parte posterior da faringe estimula o vômito por meio do nono nervo craniano. Pequenas doses (5–10 ml) de peróxido de hidrogênio podem ser administradas oralmente, com cuidado, com ajuda de uma seringa colocada lateralmente na boca, até que ocorra o vômito. Deve ser administrado com cautela, especialmente em gatos, porque a aspiração de espuma de peróxido de hidrogênio pode causar pneumonia aspirativa grave. Quando pequenas quantidades são administradas, o peróxido de hidrogênio a 3% é relativamente seguro, mas concentrações mais fortes, acima de 5%, podem ser extremamente perigosas.

Outros produtos têm sido usados, mas não são recomendados para induzir vômitos em cães e gatos. O xarope de ipeca NÃO é mais recomendado para “uso doméstico” em pessoas ou animais. O ingrediente ativo é a emetina, um alcalóide tóxico, que produz vômito por atuar como irritante estomacal. Se o uso repetido não induzir vômito, a lavagem gástrica é necessária para remover a emetina para prevenir intoxicação adicional. Embora às vezes sugerido, o cloreto de sódio (sal) e a mostarda em pó não devem ser usados. A mostarda raramente é eficaz e pode ser inalada e causar danos aos pulmões, enquanto a toxicidade do sal pode ocorrer facilmente em caso de sobre dosagem e pode resultar em edema cerebral fatal.

IMPORTANTE!!!

QUANDO NÃO USAR EMÉTICOS EM CÃES E GATOS

Todos nós sabemos que induzir êmese de forma rápida e segura em um caso de uma intoxicação pode ser benéfico, mas há momentos em que NÃO é recomendado, nestes casos devemos saber aconselhar nossos clientes e colaboradores na clinica a não utilizarem eméticos.

EVITE USO DE SUBSTÂNCIAS EMÉTICAS QUANDO:

  • A substância TÓXICA ingerida vai causar mais danos ao subir pelo esôfago do que ao descer. Alguns exemplos disso seriam substâncias cáusticas, como um ácido ou base forte, ou substâncias que podem ser aspiradas como destilados de petróleo.

 

  • Se o animal de estimação tem uma comorbidade, pode ser perigoso induzir vômito ou está apresentando algum sintoma devido a intoxicação, pode ser perigoso para o animal vomitar, como por exemplo animais que estão convulsionando, com arritmias, com perda do reflexo de vômito ou com depressão.

 

  • Se o animal foi exposto ao agente toxico há muito tempo, ou se o animal já está vomitando, não há necessidade de induzir o vomito. Outra razão pela qual induzir o vômito pode não se de grande ajuda é se a exposição não for grave. Muitas vezes, o que o animal de estimação ingeriu não vai causar sinais graves de intoxicação e, portanto, o melhor a fazer é só monitorar o animal.

CUIDADO com SOBREDOSES de APOMORFINA

Geralmente, não deve se usar mais do que duas doses de apomorfina (injetável) para induzir o vômito. Se por algum motivo o animal recebeu doses a mais de APOMORFINA e se apresentar muito sedado, ou se estiver vomitando muito, utilizar naloxona, mas lembre-se que esta reverterá somente os efeitos da apomorfina no SNC, mas não reverterá os efeitos eméticos. Portanto, se necessário utilize também anti-eméticos – mas EVITAR usar ondansetron e o dolasetron devido aos seus efeitos antagonistas da serotonina e ao potencial de hipotensão pós-apomorfina. E se você administrou apomorfina subconjuntivalmente, lembre-se de enxaguar bem o olho.

SÍNCOPES 

Há muitos causas pelas quais animais podem apresentar síncopes repentinas após induzirmos êmese – pode estar relacionado a um problema de saúde subjacente (provavelmente alguma cardiopatia) ou porque estão apresentando sintomas relacionados ao agente tóxico ingerido, que pode causar arritmias, hipotensão, depressão do SNC e convulsões.

Raramente, alguns animais podem apresentar uma resposta vaso-vagal secundária ao vômito. Verifique a frequência e o ritmo cardíaco, bem como os parâmetros de perfusão. Certifique-se também de que o animal não aspirou o vomito. O tratamento correto dependerá da causa subjacente do desmaio.

ASPIRAÇÃO do VÔMITO

É muito comum o animal chegar à clínica após ter vomito e em alguns casos o animal aspirou o vomito. Se isso aconteceu, certifique-se de que o animal parou de vomitar, monitore o animal e se necessário inicie oxigenioterapia e monitoramento constante da respiração e dos sons pulmonares.

ERROS comuns dos TUTORES

Infelizmente, é muito comum os proprietários cometerem erros ao tentar induzir êmese em suas casas, e um dos erros mais comuns é o uso excessivo de peróxido de hidrogênio ou utilizá-lo em concentração errada. Se isso ocorreu, pense em tratar a esofagite/gastrite imediatamente com medicamentos – sucralfato, antagonistas H2, inibidores da bomba de prótons, etc.

Outro erro comum é o uso excessivo de cloreto de sódio (sal). Sabe-se que 0,5 colher de chá de sal de cozinha já é suficiente para causar hipernatremia em um cão de 6 kg. Se houver preocupação de que o animal de estimação possa ter recebido muito sal, pode ser necessário monitorar os níveis de sódio e iniciar fluidos intravenosos com menor teor de sódio, bem como fazer enemas com água morna. Monitorar o animal e se necessário utiliza carvão ativado.

 

 

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