Uma Só Saúde: Trichuris vulpis nos canídeos domésticos

11 de abril de 2022
Noticia tricuris
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Liliana Vaz de Carvalho, Autoridade Sanitária em Portugal Veterinária Concelhia de Braga

O Município de Braga procura a defesa da saúde animal e da saúde pública por diversos meios, estratégias e iniciativas. Assim, a participação em estudos académicos e de investigação fazem parte dessa estratégia municipal. No seguimento de uma colaboração com a Dra. Patrícia Lopes, médica veterinária, estudante de PhD do Centre for Ecology, Evolution and Environmental Changes (cE3c) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi detetada a presença de Trichuris spp, no exame coprológico de canídeos errantes que tinham acabado de dar entrada no Centro de Recolha Oficial (CRO) de Braga e aos quais foi feita esta análise antes da aplicação do protocolo interno de desparasitação. No que diz respeito aos animais já alojados no CRO de Braga e, sujeitos ao protocolo interno de desparasitação, todos os resultados foram negativos, o que revela a eficácia quer da desparasitação interna dos animais, quer as medidas de higiene e limpeza.

Os parasitas do género Trichuris compreendem um conjunto de parasitas nemátodes que afetam animais de estimação, animais de produção e outros hospedeiros, incluindo seres humanos, provocando-lhes uma infeção no intestino grosso, conhecida por tricuríase, que pode ter consequências graves. Estes parasitas são chamados pelos ingleses por “whipworm” porque o seu corpo faz lembrar um chicote, por apresentarem a extremidade cefálica longa e delgada e a extremidade posterior mais curta e larga. 

Trichuris vulpis, com especificidade para os canídeos, e Trichuris trichiura, com especificidade para os seres humanos, são as espécies mais importantes na medicina veterinária e humana. Embora os canídeos, nomeadamente os cães, sejam em geral os hospedeiros preferenciais para T. vulpis, a sua capacidade zoonótica (i.e., capacidade de uma doença nos animais ser transmitida aos seres humanos) é controversa. 

O parasita

Os adultos de T. vulpis habitam o intestino grosso de canídeos domésticos e selvagens, por exemplo, cães e raposas. São parasitas com cerca de 4,5 a 7,5 cm de comprimento, em que a cauda grossa corresponde a cerca de um quarto do seu comprimento total corporal (Figura 1). Os adultos vivem com a extremidade cefálica longa e filiforme implantada na mucosa do ceco e do cólon (que fazem parte do intestino grosso) do hospedeiro infetado, enquanto a extremidade posterior encontra-se livre no lúmen intestinal. Após o acasalamento, as fêmeas libertam os ovos não embrionados (Figura 2) juntamente com as fezes e, dependendo das condições de humidade e temperatura, os ovos, que são extremamente resistentes, embrionam no solo e desenvolvem-se até conterem uma larva com capacidade infetante no seu interior. Após os ovos com a larva infetante serem ingeridos por um hospedeiro adequado, os ovos eclodem e a larva com capacidade infetante (L1) é libertada. No ceco e no cólon as larvas L1 passam por quatro mudas até atingirem a forma adulta, reproduzirem-se e começarem um novo ciclo.

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Figura 1. Espécime adulto de Trichuris spp. (Patrícia Lopes, 2014)

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     Figura 2. Ovo de Trichuris spp. detetado nas fezes de um canídeo (Patrícia Lopes, 2021)

Zoonótico ou não zoonótico, esta é a questão

O carácter zoonótico de T. vulpis tem sido debatido na literatura. No passado, T. vulpis tem sido reportado como agente causador da síndrome da larva migrans visceral (LMV) e de infeções intestinais nos seres humanos, embora estes parasitas não sejam geralmente incluídos no grupo de nematodes zoonóticos dos animais de companhia. Globalmente, foram descritos poucos casos de presumível infeção por T. vulpis nos seres humanos, sendo que a maioria dos diagnósticos de infeção por T. vulpis em humanos baseou-se exclusivamente na análise das dimensões dos ovos, sem uma análise morfológica ou molecular completa de exemplares do parasita adultos. Acresce ainda que os ovos de T. vulpis têm normalmente o dobro das dimensões dos ovos de T. trichiura, no entanto já foi documentado infeções por T. trichiura em que os ovos produzidos pelas fêmeas tinham um tamanho similar aos produzidos pelas fêmeas de T. vulpis e, portanto, a realização de um diagnóstico tendo por base unicamente como critério a dimensão dos ovos pode levar a um diagnóstico errado de tricuríase por T. vulpis. Assim, o potencial dos tricurídeos dos canídeos (T. vulpis) de produzir infeções em humanos, neste momento, ainda é incerto e continua a necessidade de que seja mais bem esclarecido.

Já no que se refere à capacidade de T. vulpis causar a síndrome da LMV a história pode ser diferente, tendo sido reportados nos anos 80, no Japão, três casos de LMV provocada por T. vulpis. Nos dois primeiros casos não foi observada evidência de um exemplar de T. vulpis e o diagnóstico foi feito com base exclusivamente num teste serológico positivo para T. vulpis que apresenta sempre limitações de especificidade e na recuperação dos pacientes após tratamento com tiabendazol. No terceiro caso reportado, durante uma radiografia pulmonar a uma idosa assintomática foi encontrada uma sombra que após biópsia se verificou serem fragmentos de um tricurídeo. Apesar da paciente não apresentar um nível elevado de anticorpos da classe imunoglobulina E (IgE) e eosinófilos (um tipo de glóbulos brancos importantes na defesa contra parasitas e durante reações alérgicas), foi serologicamente positiva para T. vulpis e foi, assim, diagnosticada com uma massa pulmonar devido à síndrome da LMV provocada por tricurídeos dos canídeos.

Em suma, ainda não existem evidências suficientemente sólidas para acrescentar o tricurídeo dos canídeos (T. vulpis) às causas de infeções intestinais e/ou síndromes de LMV nos seres humanos. Até que sejam fornecidas mais provas consistentes, possivelmente através da identificação molecular inequívoca da presença deste parasita em amostras de tecidos de seres humanos e na ausência de outras causas, o tricurídeo dos canídeos não poderá ser ainda incluído atualmente entre os parasitas dos canídeos com carácter zoonótico.

Impacto epidemiológico na saúde pública e animal

T. vulpis encontra-se distribuído mundialmente com uma elevada prevalência. Nas últimas décadas, foi realizada uma multiplicidade de estudos em diferentes países sobre a epidemiologia dos parasitas nos canídeos, que também forneceram dados sobre a disseminação de tricurídeos dos canídeos. A grande maioria dos dados provém de estudos globais sobre a presença de parasitas intestinais em cães pertencentes a particulares, de canis e errantes num grande número de países com diferentes ambientes. No entanto, nos últimos anos, não foram realizados estudos epidemiológicos extensivos centrados nos tricurídeos dos canídeos. Como tal, os dados disponíveis sobre a distribuição de T. vulpis em diferentes países no mundo são marcadamente heterogéneos sob diversos pontos de vista relacionados com os fatores que influenciam a sua disseminação (por exemplo, habitat, origem e raça dos animais, estação do ano, risco de exposição a parasitas, estilo de vida, faixa etária e condições socioeconómicas das pessoas que convivem com os animais).

De uma forma geral, o tricurídeo dos canídeos é um parasita ubiquitário (i.e., parasita omnipresente com capacidade para se adaptar facilmente a diferentes meios), com elevadas prevalências de infeção em animais de canil, animais de companhia e cães errantes. Por exemplo, as prevalências de infeção por T. vulpis em cães de canil podem atingir 5 a 30% como foi, por exemplo, registado nos EUA, Bélgica e Holanda, enquanto a prevalência em cães de companhia pode variar desde as baixas prevalências detetadas no passado na Grã-Bretanha e Grécia, nomeadamente, aproximadamente 2,6 a 3% até prevalências mais elevadas detetadas recentemente de, aproximadamente, 10 a 30% na Grécia, Argentina e França. Os níveis de infeção em cães de particulares podem ser surpreendentes, uma vez que, em teoria, os animais de estimação vivem em boas condições sanitárias. Os cães domésticos podem ser infetados, contudo, através dos seus passeios em áreas de elevado risco de infeção, como por exemplo, em locais públicos, como jardins e parques infantis. Esta situação pode ser provocada por cães errantes, que podem ter uma prevalência de infeção de até 60%.

Em Portugal, num rastreio de parasitas gastrointestinais realizado em 2011 por Ferreira et al. no distrito de Évora, não foi detetada a ocorrência de parasitismo por Trichuris spp. em animais de companhia e, em animais de canil, a prevalência encontrada foi de 2%. Já em Cantanhede, no distrito de Coimbra, num trabalho realizado por Cardoso et al., publicado em 2013, foi encontrada uma prevalência de Trichuris spp. de 29,9% em cães que vivem em zonas rurais em explorações de pequenos ruminantes. Em 2014, num estudo realizado por Mateus et al. na região de Ponte de Lima, um município na região norte de Portugal, maioritariamente caracterizado por um ambiente rural, foi encontrada uma prevalência de Trichuris spp. de 34,46% em amostras de cães colhidas do solo, de 32,82% em cães que vivem em quintas e 49,50% em cães de caça. Mais recentemente, em 2016, num rastreio feito a canídeos selvagens, realizado por Figueiredo et al. numa região a sul do rio Douro localizada no centro litoral do país, foi encontrada uma prevalência de T. vulpis de 7,14% em raposas vermelhas e, no mesmo estudo, não foi detetada a ocorrência de tricurídeos em amostras fecais de lobo ibérico.

Partindo do pressuposto que T. vulpis pode infetar seres humanos, o potencial perigo para a saúde pública decorre do contacto próximo dos seres humanos com animais de companhia e/ou de ambientes contaminados por ovos. Portanto, as pessoas que têm cães devem estar conscientes da possibilidade dos seus animais poderem estar infetados com parasitas zoonóticos, nomeadamente parasitas gastrointestinais como T. vulpis, mas também, por exemplo, Toxocara spp., parasitas vulgarmente chamados de lombrigas dos cães, que podem ser transmitidos aos seres humanos, mas que podem facilmente ser controlados com um tratamento anti-helmíntico adequado. Segundo as recomendações mais recentes do Conselho Europeu para o Controlo das Parasitoses em Animais de Companhia (ESCCAP), os cães devem ser desparasitados internamente pelo menos quatro vezes por ano ou realizar periodicamente, num centro de atendimento médico-veterinário, análises coprológicas (i.e., às fezes), devendo depois os animais ser tratados com base nos resultados obtidos nas análises. Esta última medida é, nomeadamente, uma medida aconselhada para evitar ou detetar o aparecimento de resistências aos anti-helmínticos, que pode ser definida como a capacidade dos parasitas de sobreviverem a doses de medicamentos que normalmente matariam os parasitas da mesma espécie e no mesmo estadio de vida. Além de um protocolo de desparasitação interna eficaz, é fundamental boas práticas de higiene para quebrar o ciclo de transmissão deste parasita.

Independentemente do caracter zoonótico ou não de T. vulpis, este parasita deve ser sempre incluído no grupo dos agentes patogénicos a serem considerados como uma possível causa de infeções intestinais em cães domésticos. Dado o período pré-patente (i.e., período que medeia o momento que o parasita penetra no hospedeiro na forma original até aquele em que se descobre por métodos laboratoriais que o animal foi infetado) relativamente longo de 2,5 a 3 meses de T. vulpis, é muito importante que o canídeo seja examinado e desparasitado internamente antes de entrar no ambiente familiar e que esse tratamento continue nos primeiros três meses no seu novo lar. Esta prática é ainda mais importante porque estes parasitas podem levar ao aparecimento de sintomas decorrentes da sua implantação na mucosa do intestino grosso, antes mesmo de serem detetados ovos nas fezes e porque os ovos são expelidos nas fezes dos canídeos de forma intermitente. Uma vez que os cães adultos são mais suscetíveis de estarem parasitados com T. vulpis e da elevada probabilidade de os animais ingerirem ovos em ambientes contaminados, mais uma vez se reforça a necessidade de que os cães domésticos sejam rastreados regularmente para T. vulpis e um tratamento anti-helmíntico apropriado e eficaz para limitar o impacto epidemiológico deste parasita em cães e, possivelmente, nos seres humanos.

Importância clínica em medicina veterinária

O impacto de T. vulpis em cães varia com o animal afetado. Podemos ter animais com uma elevada carga parasitária, mas sem sinais clínicos de doença evidentes ou animais com inflamação aguda ou crónica na mucosa do ceco e, por vezes, do cólon, com fezes com muito muco e estrias de sangue em natureza que, em casos muito graves, pode conduzir à morte do animal. Geralmente, as infeções ligeiras nos cães são subclínicas. 

Os cachorros afetados podem apresentar atraso de crescimento e magreza decorrentes da infeção intestinal e a infeção pode potenciar o aparecimento de outras infeções parasitárias por enfraquecimento do sistema imunitário do animal.

Bibliografia:

  • Cardoso, A. S., Costa, I. M. H., Figueiredo, C., Castro, A., & Conceição, M. A. P. (2014). The occurrence of zoonotic parasites in rural dog populations from northern Portugal. Journal of helminthology88(2), 203-209.
  • European Scientific Counsel Companion Animal Parasites [ESCCAP], 2021. ESCCAP Guideline 01 Sixth Edition: Worm Control in Dogs and Cats. https://www.esccap.org/uploads/docs/ubs8uae7_0778_ESCCAP_GL1_v15_1p.pdf.
  • Ferreira, F. S., Pereira-Baltasar, P., Parreira, R., Padre, L., Vilhena, M., Tavira, L. T., … & Centeno-Lima, S. (2011). Intestinal parasites in dogs and cats from the district of Évora, Portugal. Veterinary Parasitology179(1-3), 242-245.
  • Figueiredo, A., Oliveira, L., de Carvalho, L. M., Fonseca, C., & Torres, R. T. (2016). Parasite species of the endangered Iberian wolf (Canis lupus signatus) and a sympatric widespread carnivore. International Journal for Parasitology: Parasites and Wildlife5(2), 164-167.
  • Mateus, T. L., Castro, A., Ribeiro, J. N., & Vieira-Pinto, M. (2014). Multiple zoonotic parasites identified in dog feces collected in Ponte de Lima, Portugal—a potential threat to human health. International journal of environmental research and public health11(9), 9050-9067.
  • Traversa, D. (2011). Are we paying too much attention to cardio-pulmonary nematodes and neglecting old-fashioned worms like Trichuris vulpis?. Parasites & Vectors4(1), 1-11.

 

(Fotografias gentilmente cedidas pela Dra. Patrícia Lopes)

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