Um em cada quatro filhotes no Reino Unido são adquiridos antes da idade mínima recomendada.

7 de agosto de 2020

Um em cada quatro filhotes no Reino Unido pode estar sendo adquirido antes da idade mínima recomendada – um número consideravelmente superior ao que foi relatado anteriormente – sugere pesquisa publicada na última edição do Vet Record.

Separar um filhote da mãe muito cedo pode ter consequências a longo prazo no desenvolvimento fisiológico e comportamental do animal, causando alterações que podem afetar seu comportamento quando adulto, sendo essa uma  das principais razões pelas quais os cães são abandonados, alerta o autor do estudo.

No Reino Unido, muitas organizações de assistência social e veterinária, como a Animal Welfare Foundation, Blue Cross, PDSA e Dogs Trust, recomendam que os filhotes não sejam separados de suas mães até que tenham pelo menos 8 semanas (56 dias).

Existem inclusive restrições legais à venda de um filhote abaixo desta idade naquele país, que inclusive recomendam que os possíveis compradores vejam o filhote com sua mãe.

Nesta investigação, os pesquisadores queriam descobrir se alterações específicas estavam associados à aquisição de filhotes com menos de 8 semanas de idade e sem ver a mãe do filhote.

Eles avaliaram dados de 2392 filhotes, coletados entre maio de 2016 e fevereiro de 2019 como parte do ‘Generation Pup’, um estudo de longo prazo do Reino Unido sobre saúde, comportamento e bem-estar dos cães.

Os dados foram obtidos de três questionários, com detalhes sobre o processo de aquisição, compra, respondidos pelos proprietários antes ou depois da aquisição do filhote. Ao todo, 1844 filhotes foram elegíveis para inclusão na análise final.

As respostas mostraram que 1 em cada 4 (461) filhotes haviam sido adquirido antes das 8 semanas de idade, proporção consideravelmente superior à relatada anteriormente. Cerca de 1 em cada 12 (149; pouco mais de 8%) foi adquirido sem terem visto a mãe do filhote. E apenas 30 (pouco mais de 1,5%) foram adquiridos com menos de 8 semanas de idade e sem ver a mãe.

Cinco fatores foram associados à aquisição de filhotes com menos de 8 semanas:

Os proprietários que visitaram seu filhote pelo menos uma vez antes de levá-lo para casa tinham maior probabilidade de adquirir o animal antes das 8 semanas de idade. Isso pode ser porque eles não aguentariam sair sem levar o filhote para casa ou porque sentiram que o filhote tinha idade suficiente, sugerem os pesquisadores, a título de explicação.

Os proprietários que pretendiam utilizar o cão para trabalho, como pastorear animais, controle pragas, trabalhar na polícia ou nas forças armadas, como cão de busca e salvamento ou como um cão de guarda também tinham maior probabilidade de adquirir seu filhote antes das 8 semanas.  Isso pode ser porque eles queriam começar a treinar o filhote o mais rápido possível, dizem os pesquisadores.

A análise também revelou que as chances de aquisição antecipada aumentavam se já existia cães na casa da pessoa e se o cão era um cão SRD (sem raça definida).

No outro extremo do espectro, a probabilidade de adquirir um filhote abaixo da idade recomendada caiu à medida que o nível de renda familiar anual aumentava.

Da mesma forma, os proprietários que visitaram seu filhote antes de levá-lo para casa, ou compraram um filhote registrado no Kennel Club, ou que viram o pai do filhote e/ ou buscavam o filhote na casa do criador, tinham chances mais baixas de adquirir um filhote sem ver a mãe.

Os pesquisadores sugerem que os possíveis donos podem estar mais cientes das recomendações para ver a mãe do filhote do que as recomendações relacionadas a idade mínima recomendada.

Estas descobertas podem ajudar a conscientizar os proprietários específicos, com campanhas educacionais ou de mídia que possam diminuir a proporção do número de filhotes adquiridos dessa maneira no futuro, concluem.

Em um comentário, o veterinário Dr. Federica Pirrone, da Universidade de Milão, Itália, enfatizou a importância das orientações aos proprietários e dos regulamentos.

“A separação precoce de um filhote da mãe e dos companheiros de ninhada é uma estratégia errada que pode aumentar as chances de o animal exibir comportamentos potencialmente problemáticos quando adulto”, alerta ela.

“A ocorrência de problemas comportamentais é a principal razão responsável pelos abandonos de cães ou por eutanásias, em países onde é permitido”

A separação precoce prejudica o desenvolvimento inicial do cérebro, o que restringe a capacidade dos filhotes de se adaptarem a novos estímulos e de desenvolver boas habilidades sociais quando adultos. Eles são altamente propensos a exibir comportamentos relacionados ao medo e à ansiedade quando adultos, que geralmente são percebidos de forma negativa pelos proprietários, explica ela.

Da mesma forma, ela enfatiza: “Conhecer a mãe antes de comprar um filhote permite que o possível proprietário verifique se ela não está estressada e se esta livre de problemas comportamentais, o que, por sua vez, ajuda a prever se o filhote vai ou não desenvolver problemas comportamentais mais tarde na vida”.

“Portanto, é essencial incentivar os futuros tutores a estarem bem informados sobre o comportamento do cão e a terem consciência da importância de uma socialização correta”, diz ela.

Daniella dos Santos, Presidente da Associação Veterinária Britânica (BVA), comentou: “Existem boas razões para deixarmos os filhotes junto com a mãe e irmãos até pelo menos 8 semanas de vida. Adquiri-los a partir dessa idade, significa que os filhotes já estarão desmamados e ficaram com a mãe no período de desenvolvimento inicial, período esse que desempenha um papel vital no desenvolvimento social e comportamental”

“Os compradores de filhotes devem sempre pedir para vê-los ao lado de suas mães e é altamente recomendável utilizar um termo, um contrato, para garantir que eles estejam recebendo um animal feliz, saudável e bem socializado de um criador ou centro de realojamento respeitável”.

Fonte: BMJ. “1 in 4 UK puppies may be being acquired before minimum recommended age: Separating a puppy from its mother before 8 weeks risks health and behavioural problems.” ScienceDaily. ScienceDaily, 6 August 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/08/200806203703.htm>.

Referência do trabalho citado na matéria:

  1. Rachel H Kinsman, Rachel A Casey, Toby G Knowles, Séverine Tasker, Michelle S Lord, Rosa E P Da Costa, Joshua L Woodward, Jane K Murray. Puppy acquisition: factors associated with acquiring a puppy under eight weeks of age and without viewing the motherVeterinary Record, 2020; 187 (3): 112 DOI: 10.1136/vr.105789

 

 

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