Lorazepam pode reduzir a recorrência da obstrução uretral em gatos? Novo estudo traz resultados promissores.

A obstrução uretral é uma das emergências mais frequentes e desafiadoras na clínica de felinos. Além do risco de morte quando não tratada rapidamente, um dos maiores desafios para o médico-veterinário é a elevada taxa de recorrência nas semanas seguintes à desobstrução. Mesmo após um tratamento adequado, muitos gatos retornam à clínica com um novo episódio de obstrução, aumentando o sofrimento do paciente, a preocupação dos tutores e os custos do tratamento.
Um estudo recentemente publicado investigou uma estratégia inovadora para reduzir esse problema: o uso de lorazepam, um benzodiazepínico amplamente conhecido por suas propriedades ansiolíticas e relaxantes musculares. Os resultados sugerem que o medicamento pode representar uma nova ferramenta terapêutica no manejo pós-obstrução de gatos machos.
Por que investigar o lorazepam?
A maioria dos episódios de obstrução uretral felina está relacionada à Doença do Trato Urinário Inferior dos Felinos (DTUIF), especialmente nos casos de cistite idiopática felina. Diversos fatores contribuem para a obstrução, incluindo:
- espasmo da uretra;
- inflamação da mucosa uretral;
- formação de plugs uretrais;
- estresse ambiental;
- dor.
Embora o tratamento hospitalar geralmente seja eficaz para restabelecer o fluxo urinário, prevenir novas obstruções continua sendo um desafio clínico. Atualmente, medidas como analgesia, enriquecimento ambiental, aumento da ingestão hídrica e dieta terapêutica são amplamente recomendadas, mas nenhuma terapia farmacológica demonstrou benefícios consistentes na prevenção da recorrência.
Nesse contexto, os pesquisadores levantaram a hipótese de que o lorazepam, por promover relaxamento muscular e reduzir a ansiedade, poderia diminuir tanto o espasmo uretral quanto os fatores relacionados ao estresse, reduzindo o risco de novos episódios.
Como o estudo foi realizado?
O trabalho foi conduzido entre 2021 e 2025 em um hospital universitário veterinário.
Foram incluídos no estudo 80 gatos machos, que foram atendidos por um primeiro episódio de obstrução uretral.
Os pesquisadores excluíram animais cuja obstrução era causada por:
- urólitos;
- infecção urinária.
O estudo foi desenhado com elevado rigor científico, sendo:
- prospectivo;
- randomizado;
- duplo-cego;
- controlado por placebo.
Após a alta hospitalar, os gatos foram divididos em dois grupos:
- 41 gatos receberam lorazepam, durante 30 dias;
- 39 gatos receberam placebo, pelo mesmo período.
Ao final, 64 animais completaram o protocolo, sendo acompanhados quanto à recorrência da obstrução, sinais clínicos urinários e possíveis efeitos adversos.
Os principais resultados
Os achados chamam atenção.
Redução da recorrência
Durante o período de acompanhamento:
- Nenhum gato tratado com lorazepam apresentou nova obstrução uretral.
- No grupo placebo, 15,7% dos gatos desenvolveram recorrência.
Essa diferença foi estatisticamente significativa, sugerindo um potencial efeito protetor do medicamento.
Na prática, isso significa que, nesta população estudada, o uso do lorazepam esteve associado à eliminação das recorrências observadas durante o primeiro mês após a alta.
Menos sinais do trato urinário inferior
Além da prevenção da obstrução, os gatos tratados também apresentaram menor frequência de sinais urinários, como:
- disúria;
- estrangúria;
- polaciúria;
- desconforto ao urinar.
A redução foi observada principalmente entre:
- dias 8 e 15 após a alta;
- dias 16 e 30 de acompanhamento.
Esse resultado sugere que o medicamento pode contribuir para uma recuperação clínica mais confortável.
O medicamento foi seguro?
Os autores avaliaram cuidadosamente os efeitos adversos.
O principal efeito observado foi:
- ataxia, presente em cerca de 13% dos gatos tratados.
Outros efeitos relatados incluíram:
- leve sedação;
- aumento do apetite;
- vocalização.
Nenhum desses efeitos foi considerado grave, e os pesquisadores concluíram que o uso do lorazepam foi seguro nas condições avaliadas.
O que esse estudo significa para a prática clínica?
Os resultados são particularmente interessantes porque representam uma das primeiras evidências robustas de que um medicamento pode reduzir a recorrência da obstrução uretral após a desobstrução.
Embora o mecanismo exato ainda não esteja completamente esclarecido, é provável que diferentes fatores atuem em conjunto:
- relaxamento da musculatura uretral;
- redução da ansiedade;
- diminuição do estresse;
- menor espasmo uretral durante o período de recuperação.
Caso esses resultados sejam confirmados por novos estudos multicêntricos, o lorazepam poderá integrar os protocolos pós-alta para gatos com primeiro episódio de obstrução uretral, sempre associado às medidas já consagradas, como:
- manejo ambiental;
- controle da dor;
- incentivo à ingestão hídrica;
- dieta específica;
- monitoramento clínico.
Pontos fortes do estudo
Entre os aspectos que aumentam a confiabilidade dos resultados destacam-se:
- desenho prospectivo;
- randomização;
- duplo-cego;
- grupo placebo;
- acompanhamento clínico padronizado.
Essas características reduzem vieses e fortalecem as conclusões obtidas.
Apesar dos resultados promissores, algumas questões devem ser consideradas.
O número de animais ainda foi relativamente pequeno, e apenas gatos com primeiro episódio de obstrução foram incluídos. Além disso, foram excluídos pacientes com urólitos e infecção urinária, de modo que os resultados não podem ser extrapolados para todas as causas de obstrução uretral.
Também permanece desconhecido se os benefícios persistem após a suspensão do medicamento ou se seriam observados em protocolos de tratamento mais prolongados.
Conclusão
A prevenção da recorrência da obstrução uretral continua sendo um dos maiores desafios na medicina felina. Este estudo oferece evidências consistentes de que o lorazepam, administrado durante 30 dias após a desobstrução, pode reduzir significativamente tanto a recorrência da obstrução quanto os sinais do trato urinário inferior, apresentando um perfil de segurança favorável.
Embora ainda sejam necessários estudos adicionais para confirmar esses achados em diferentes populações e contextos clínicos, os resultados representam um avanço importante e abrem novas perspectivas para o manejo pós-obstrução em gatos machos.
Como toda nova evidência, a incorporação do lorazepam à rotina clínica deve ser feita com critério, considerando a seleção adequada dos pacientes, as possíveis contraindicações e o acompanhamento próximo durante o tratamento.
Fonte: Madden AM, et al. Efficacy of Lorazepam in Preventing Recurrent Urethral Obstruction in Male Cats: A Prospective, Randomized, Double-Blinded, Placebo-Controlled Clinical Trial. Journal of the American Veterinary Medical Association (JAVMA). 2025.
