Indústria 4.0 chega à Amazônia: projeto quer salvar a floresta levando tecnologia de ponta

20 de fevereiro de 2020

por  em 13 Fevereiro 2020 |

  • Esquivando-se da tradicional oposição entre conservar a floresta virgem e desmatá-la para exploração econômica, cientistas brasileiros idealizaram a Terceira Via Amazônica, uma forma de preservar a biodiversidade da Amazônia gerando produtos de valor agregado e proporcionando crescimento econômico às comunidades locais.
  • No segundo semestre deste ano, três comunidades do Pará receberão os primeiros Laboratórios Criativos: unidades móveis que levarão tecnologias da Indústria 4.0 à cadeia produtiva do cacau e do cupuaçu. Os sistemas incluem drones, sensores digitais e inteligência artificial. Futuros laboratórios terão como foco castanha-do-brasil, açaí, óleos essenciais e outros produtos.
  • O projeto Amazônia 4.0 contará também com a ajuda de aceleradoras de negócios da floresta, para criar startups de bioeconomia, e a criação da Rainforest Business School, que oferecerá cursos voltados à capacitação de diversos profissionais nessa nova visão de desenvolvimento.
Planta do Laboratório Criativo Cupuaçu-Cacau, unidade móvel que levará inteligência artificial, sensores digitais, impressoras 3D e drones a comunidades ribeirinhas do Pará. Imagem: Projeto Amazônia 4.0

O uso da terra na Amazônia desde sempre esteve dividido em duas vertentes: uma orientada à preservação legal de grandes extensões da floresta para a conservação da biodiversidade; outra destinada à exploração intensiva dos recursos naturais, incluindo atividades como extração de madeira, mineração e agropecuária. Buscando um novo modelo para a região, um grupo de cientistas brasileiros idealizou a Terceira Via Amazônica, que une ciência, tecnologia avançada, inovação e planejamento estratégico para gerar uma bioeconomia da floresta em pé baseada em produtos com valor agregado e crescimento socioeconômico para os povos locais.

“Produzir bens de consumo com valor agregado no interior da Amazônia exige quebrar paradigmas”, diz Ismael Nobre, um dos idealizadores da Terceira Via Amazônica. O biólogo e doutor em Dimensões Humanas dos Recursos Naturais pela Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos, enfatiza a necessidade de uma mudança de percepção, em que a Amazônia deixe de ser vista como território para exploração de commodities e passe a ter sua riqueza e biodiversidade valorizadas com o uso das tecnologias da Indústria 4.0.

Mas, como levar a Quarta Revolução Industrial, que conta com inteligência artificial, sensores avançados, blockchain e Internet das Coisas (IoT) para o interior da floresta? “Quando pensamos na Amazônia, não devemos imaginar apenas as dificuldades, os  desafios de infraestrutura e logística e as grandes distâncias que caracterizam a região. O robô Opportunity tem tecnologias para chegar em Marte, fazer experimentos, comunicar resultados e até fazer selfies”, responde Nobre, referindo-se ao robô enviado pela Nasa que explorou a superfície do planeta por quase 15 anos. “A Amazônia fica bem mais perto! Toda a tecnologia usada na missão espacial está também disponível para facilitar uma nova economia da floresta em pé.”

Para implantar a Terceira Via Amazônica, foi concebido o projeto Amazônia 4.0, que entrará em vigor até o final deste ano em três comunidades do Pará por meio dos chamados Laboratórios Criativos. Trata-se de unidades móveis de campo que podem ser instaladas em tendas ou plataformas flutuantes e, posteriormente, desmontadas e transportadas em contêineres aeronáuticos para alcançar outras localidades em caminhão, barco ou avião. Os laboratórios têm como objetivo aliar conhecimentos tradicionais locais, dados científicos e aparato tecnológico para instrumentalizar as comunidades, valorizando o potencial da biodiversidade e gerando produtos de maior valor, além de mais leves para o transporte, um dos gargalos da região.

Enquanto commodities exigem logística complexa e causam grande impacto ambiental, amêndoas de cacau, por exemplo, dispensam cascas e resíduos quando são transformadas em barras de chocolate. Óleos essenciais são ainda mais eficazes, pois o que antes eram folhas e troncos pesados tornam-se pequenos frascos de alto valor econômico.

Para esses produtos mais leves, o projeto Amazônia 4.0 considera a utilização de drones, possivelmente com a implementação de postos de troca e recarga de baterias em pontos estratégicos da floresta para dar conta de cobrir os longos trajetos amazônicos – isso, por si, já poderia representar novas oportunidades de negócios locais. Os drones já são realidade em operações experimentais de logística em outros países, desde o envio de medicamentos para povoados isolados na África até a entrega de pacotes em domicílio pela empresa de remessa expressa FedEx, nos Estados Unidos.

O projeto analisa também opções para a modernização de motores de barco, veículo de grande relevância na logística da região. “O transporte por barcos movidos a óleo diesel, mais comuns na Amazônia, é muito caro. Mas já existem motores elétricos, movidos a hidrogênio, que utilizam as células de combustível como vemos em carros da Honda e da Toyota”, diz Nobre. O combustível, segundo ele, poderia ser fabricado em instalações produtivas nas próprias comunidades amazônicas. “Estamos, neste momento, buscando estabelecer parcerias com fabricantes e usinas de hidrogênio para desenvolvermos um modelo de transporte fluvial de alta tecnologia e baixo impacto, adaptado para a Amazônia”, acrescenta.

Investir em produtos da floresta é, também, uma forma de resolver questões de logística: mais leves do que as commodities, frutos e óleos são mais fáceis de transportar pelos rios amazônicos. Foto: Marizilda Cruppe/Projeto Gosto da Amazônia

Sensores digitais para a produção de chocolate

O primeiro Laboratório Criativo, que iniciará operação este ano, é dedicado ao cacau e ao cupuaçu. Ambos são nativos da Amazônia e podem ser utilizados como matéria-prima para dezenas de produtos derivados, sendo os mais famosos o chocolate e o cupulate (doce obtido das amêndoas do cupuaçu). O cacaueiro, por ser uma árvore que depende de sombra para frutificar, pode inclusive dividir espaço com outras espécies em lavouras mistas, formando agroflorestas. Os chamados sistemas agroflorestais (SAFs) são soluções para restauração de áreas já degradadas e pastagens improdutivas, gerando renda para o agricultor e restabelecendo boa parte dos serviços que uma floresta nativa presta para os sistemas hídricos, o clima e a biodiversidade.

O design do Laboratório Criativo Cupuaçu-Cacau já foi concluído, isto é, toda a cadeia produtiva foi mapeada para incrementar uma produção local de qualidade e para facilitar o acesso a mercados consumidores. A fase seguinte, de operacionalização, ocorrerá ao longo de 2020 e abrange a construção do laboratório, que envolve a parte física propriamente e a incorporação das novas tecnologias de controle, automação, rastreamento digital e adaptação de equipamentos tecnológicos para possibilitar os processos de inteligência e interconectividade.  Haverá também uma parte didática, com a criação de um programa de ensino específico voltado à capacitação das comunidades.

O laboratório será instalado inicialmente em comunidades do Pará que já têm atividades ligadas à produção de cacau ou cupuaçu, ou mesmo iniciativas de agregação de valor aos produtos dessas cadeias. As três primeiras serão uma associação de mulheres rurais do município de Belterra, uma comunidade quilombola no município de Moju e uma comunidade de ribeirinhos no Rio Acará, no município de Barcarena. A unidade móvel deve ficar por dois meses nessas comunidades e depois percorrer outros estados amazônicos. A ideia, segundo Nobre, é que, ao mostrar resultados enquanto estiver operando, o laboratório atraia investidores para implantá-lo de modo definitivo na comunidade.

Cada laboratório é equipado com um software que permite o rastreamento de ponta a ponta das etapas da cadeia produtiva, além de outros equipamentos tecnológicos que ajudam a controlar processos como o ponto de maturação correto do fruto colhido, o tempo de fermentação e a secagem das amêndoas, essenciais para um produto final de boa qualidade.

Para exemplificar, os aparatos tecnológicos dos laboratórios incluem um sensor digital que enviará, em tempo real, parâmetros sobre a temperatura da fermentação diretamente para uma plataforma digital, que pode estar em um smartphone ou tablet pessoal, usando a chamada Internet das Coisas. Na torra, fornos equipados com sensores para detectar umidade e temperatura, além de dotados de microprocessador, poderão gerar calor de forma escalonada, causando diferentes efeitos de aroma e sabor no produto final – isso permitirá a produção de chocolates autorais. Além disso, scanners e impressoras 3D poderão criar e imprimir fôrmas com design exclusivo para o chocolate produzido em cada comunidade, possibilitando expressar nas barras traços da arte e da cultura local.

A tecnologia incentiva também a prática do chamado bean to bar (da amêndoa à barra), o controle total do processo que vai da colheita do fruto à produção do chocolate. Essa prática propicia ainda a valorização da biodiversidade amazônica com o acréscimo de ingredientes locais ao produto final, como é o caso do camu-camu, fruta nativa que, de acordo com a Embrapa, contém teor 20 vezes maior de vitamina C do que a acerola e 60 vezes maior do que o limão. É o chamado  “chocolate nutracêutico”.

Investir em produtos da floresta é, também, uma forma de resolver questões de logística: mais leves do que as commodities, frutos e óleos são mais fáceis de transportar pelos rios amazônicos. Foto: Marizilda Cruppe/Projeto Gosto da Amazônia

Startups na floresta

A capacitação das comunidades que receberão os laboratórios será feita por um especialista da cadeia produtiva e por outro em negócios em ambientes de inovação. A expectativa dos idealizadores do Amazônia 4.0 é de que, vendo o funcionamento dos laboratórios, poderes públicos, iniciativa privada e outras entidades do terceiro setor assumam protagonismo em ações subsequentes que ajudem a perpetuar as novas práticas nas comunidades.

Segundo Nobre, já existem alguns programas na região que buscam ativamente identificar potenciais empreendedores para ajudá-los a desenvolver suas ideias e negócios, tornando-os startups e acelerando o desenvolvimento empresarial. Nessa linha, atuam a Incubadora de Empresas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexus)  e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA).

Também para colaborar com a consolidação dessa nova visão de desenvolvimento, o Amazônia 4.0 contará com a Rainforest Business School (Escola de Negócios Sustentáveis), que iniciará sua atividade este ano em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio de cursos que capacitarão profissionais de diversos setores nas cadeias produtivas da floresta. Em cinco anos, a escola pretende lançar um MBA focado em bioeconomia.

Para concretizar este ano a construção do Laboratório Criativo Cupuaçu-Cacau e fazer a primeira rodada de capacitação local, o projeto Amazônia 4.0 já obteve financiamento da maior parte dos recursos. Na medida em que conseguir novos apoiadores, poderá ampliar sua atuação junto a essa cadeia produtiva e também dar continuidade a outros laboratórios, que se encontram em diferentes fases de desenvolvimento, como é o caso da cadeia produtiva da castanha-do-brasil e do mapeamento genômico das espécies locais, já mais adiantados. Na sequência, virão óleos gourmet e essenciais, açaí, borracha e cosméticos, entre outros em estudo.

Ismael Nobre considera como diferencial do Amazônia 4.0 a vocação para criar soluções de base tecnológica junto com as comunidades e o caráter de mobilidade dos Laboratórios Criativos. “A concepção do nosso projeto faz com que os processos possam ser facilmente apropriados por outras comunidades”, ele afirma. “E quando tivermos essa bioeconomia funcionando, pessoas em qualquer localidade do planeta poderão se beneficiar da biodiversidade da Amazônia e reconhecer essa inteligência da natureza com a consciência de que esses produtos vieram de uma produção altamente sustentável, social e ambientalmente.”

Nobre conclui: “Será um compartilhamento de benefícios em escala local, nacional e mundial. E, em médio e longo prazos, esperamos que isso gere um senso de valorização intrínseca da Amazônia, um reconhecimento inequívoco de que a floresta íntegra e seus povos têm o direito à existência continuada, um reconhecimento que desencadeia a força da sociedade para que isso se cumpra”.

Imagem do banner: semente de murumuru, fruto nativo da Amazônia cujo óleo é usado na indústria de cosméticos. Foto: Franz Krämer/Sociobioamazonia/CC BY-NC

Matéria publicada por 

Comentar esta notícia

Você precisa estar logado para comentar as notícias.
Desenvolvido por logo-crowd
Bitnami