Incidência de suicídio entre veterinários preocupa

24 de outubro de 2019

Mariana Alvim – @marianaalvim

Da BBC News Brasil em São Paulo

Incidência de suicídio entre veterinários preocupa

Nos Estados Unidos, um estudo publicado no periódico Journal of the American Veterinary Medical Association já revelou que, de 1979 a 2015, a incidência de suicídio entre veterinários foi de 2 a 3,5 vezes maior do que na população americana em geral.

Em relação ao Brasil, a reportagem pediu dados ao Ministério da Saúde, mas não recebeu retorno até a publicação. No entanto, uma monografia apresentada em 2012 por Tatiana Guimarães, então graduanda orientada pelo sociólogo Ignacio Cano, estudou dados sobre suicídio em ocupações profissionais que, na literatura científica mundial, tendem a apresentar maior incidência, como veterinários, policiais, farmacêuticos e trabalhadores agrícolas.

A incidência de suicídios entre veterinários foi mais de duas vezes maior na comparação com a população brasileira em geral.

“Mais pesquisas estão sendo feitas para compreender melhor por que os veterinários podem ter este risco aumentado, mas uma combinação de traços de personalidade, demandas profissionais e o ambiente de aprendizado da veterinária podem contribuir”, explicou a veterinária Katherine Goldberg durante a convenção da Associação Americana de Psicologia.

 

Outras hipóteses levantadas para explicar essa propensão são ainda o contato frequente com o sacrifício de animais; o acesso a fármacos; e uma rotina intensa de trabalho, muitas vezes não acompanhada por remuneração e benefícios à altura das expectativas.

No Brasil, o médico veterinário intensivista (especializado no suporte a animais em estado crítico) Rodrigo Cardoso Rabelo vem estudando e escrevendo sobre a saúde mental da categoria – além de implementado algumas ações na clínica onde atende, a Intensivet, em Brasília.

Uma delas é a aplicação periódica de um formulário que pode detectar o burnout nesta e em outras profissões e que, segundo explica Rabelo, tem três indicadores principais: realização profissional; despersonalização (distanciamento que o profissional mantém do paciente); e esgotamento emocional.

Dos formulários aplicados, Rabelo diz acreditar que, entre os veterinários brasileiros, o esgotamento tende a pesar mais.

“O veterinário lida não só com os animais, mas com seu tutor (humano). Diferente dos europeus e americanos, nós brasileiros, latinos, temos uma relação muito mais próxima da família e dos animais. Às vezes deixamos a parte profissional e financeira de lado, de tanto que nos envolvemos emocionalmente. Isso fica difícil em uma rotina diária, considerando o volume de pacientes que a gente recebe”.

“Eu mesmo cheguei a um nível de estresse muito alto. O luto que via no consultório acabava se refletindo em um medo de perder pessoas queridas em casa. Somente neste ano, perdi amigos (veterinários) neste tipo de situação (suicídio)”.

“Hoje, reduzi o número de pacientes, inclusive para prestar um atendimento de melhor qualidade a eles e também para estar bem comigo mesmo”.

Somando a outras recomendações compartilhadas por entrevistados na reportagem, o veterinário indica alguns cuidados com a saúde mental daqueles que cuidam de animais:

  • Evitar jornadas longas de trabalho e prezar por intervalos
  • Rotatividade de funções no trabalho
  • Prática de exercícios físicos
  • Alimentação equilibrada e hidratação
  • Ter um hobby e apoio emocional, como em terapias e práticas espirituais
  • Conversar com pessoas próximas e colegas
  • Reduzir uso de celular e redes sociais

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-49287824

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