Dermatite Atópica: Diagnóstico e tratamentos

9 de setembro de 2021
dermatite atópica

A dermatite atópica canina é uma das doenças dermatológicas mais comuns em cães. O aparecimento da dermatologia é associado a questões genéticas, sendo ela caracterizada por inflamações crônicas, recorrentes e muito pruriginosas. Os animais que apresentam a condição se tornam sensíveis a agentes antígenos presentes no ambiente, tais como a poeira doméstica, ácaros e o pólen de flores. 

“A dermatite atópica influencia muito a qualidade de vida do animal e da família inteira. É uma das enfermidades mais pruriginosas que acomete os cães”, afirma a Dra. Rita Carmona, mestra em ciência com ênfase em dermatologia veterinária. “Contudo, não são apenas os fatores genéticos que participam, fatores ambientais e modo de criação dos animais têm sido associados a uma maior ocorrência da enfermidade, isso que se chama epigenética”, completa.

Devido ao seu caráter genético, não existe uma cura para a doença, mas sim tratamentos que visam fornecer uma melhor qualidade de vida tanto para o animal quanto também para os seus tutores.  

 

Como é feito o diagnóstico da dermatite atópica? 

 

Muitas das doenças cutâneas que acometem os cães têm origem bacteriana, imunopática, endócrina e parasitária. Portanto o diagnóstico da dermatite atópica deve ser realizado através da exclusão de outras enfermidades pruriginosas como a escabiose e outras ectoparasitoses como a pulicose. Para isso, é de extrema importância o uso correto da ectoparasiticidas, com a posologia indicada pelo fabricante. 

Também nesse primeiro momento, deve-se observar a possível ocorrência de infecções bacterianas (piodermite) e ou infecções fúngicas (malasseziose) e instituir o tratamento adequado, como o uso de xampus antibacterianos ou antifúngicos e, quando necessária, a utilização de antibióticos sistêmicos. 

Caso não haja resposta terapêutica e diante da persistência do quadro, inicia-se a investigação de alergia alimentar, com o uso de dieta de exclusão baseada em dieta caseira com proteína e fonte de carboidrato inéditos (não usuais) ou dieta comercial preferencialmente com proteína hidrolisada por 8 semanas. Se o paciente apresentar uma boa resposta à dieta, com redução completa ou parcial do prurido, são adicionados à dieta novos componentes com o intuito de verificar o retorno ou piora dos sintomas. 

“O objetivo da dieta provocativa é verificar qual o componente da dieta está associado ao desencadeamento do quadro alérgico”, explica a Dra. Rita Carmona. “Cada alimento deve ser introduzido por 7 a 14 dias ou até que surjam os primeiros sinais de prurido”. 

Ao fim da dieta de eliminação, mediante a persistência dos sintomas, é possível afirmar que o paciente sofre de dermatite atópica. 

 

Como se dá o tratamento da dermatite atópica? 

 

O tratamento da dermatite atópica canina é realizado de forma multimodal, passando pelo controle de infecções secundárias muito comuns a esse tipo de enfermidade, através da reconstituição de barreira cutânea com uso de xampus emolientes e hidratantes.

Ainda hoje, o uso de medicações sistêmicas com objetivo de redução da inflamação e prurido é preconizado na maioria dos pacientes. “Os corticoides, há muito utilizados no controle da DA, atualmente são preconizados como forma de controle de crises e devem ser usados com cautela por apresentarem efeitos adversos”, adverte a Dra. Rita Carmona. “Quando da instituição do mesmo, optamos por corticoides que tenham menor potência, e portanto, menos efeitos adversos” 

Entre os medicamentos mais utilizados está a prednisolona, em doses que variam de 0,5 a 1mg/kg a cada 24h, com tempo de uso determinado de acordo com o quadro clínico do paciente. É necessário um cuidado extra no uso desse medicamento para o caso de pacientes que apresentem comorbidades. 

Outra excelente opção para o controle da doença é a ciclosporina, um fármaco com ação imunossupressora, anti-inflamatória e antipruriginosa, uma vez que ele diminui a transcrição de interleucinas inflamatórias produzidas pelos linfócitos. A dose utilizada para o tratamento da dermatite atópica é de 5 a 10mg por quilo a cada 24 horas. 

“Contudo é preciso atenção a possíveis efeitos adversos gastrointestinais como vômito e diarréia, especialmente nas primeiras semanas que podem ser minimizados com uso de antieméticos”, recomenda a Dra. Carmona. “Destaca-se ainda que é um fármaco muito seguro para uso em cães a despeito de ser um imunossupressor”. 

Na maioria dos casos, os efeitos da ciclosporina passam a ser sentidos de 2 a 4 semanas. Durante o uso, os pacientes devem ser monitorados com realização de exames complementares, ao menos uma vez ao ano.

Dois dos mais recentes tratamentos disponíveis no Brasil estão associados ao uso da oclacitinib e do lokivetmab.

A oclacitinib está na classe dos inibidores seletivos de janus quinase (JAK). O oclacitinib tem efeito na inibição da ação de algumas interleucinas, especialmente IL 4, IL13 e IL31, muito importantes no desencadeamento da inflamação e prurido da DA. 

“A ação do oclacitinib é rápida, cerca de 2 horas após a administração, e pode perdurar por 12 a 20 horas”, explica a Dra. Carmona, “a posologia inicial é de 0,4 a 0,6mg por quilo a cada 12 horas por 14 dias e depois deve ser mantida a mesma dose a cada 24 horas”. 

Alguns pacientes tendem a apresentar uma ligeira piora do prurido quando há diminuição da frequência de administração do oclacitinib, o que deve ser bem avaliado pelo veterinário. 

Já o lokivetmab é um anticorpo monoclonal, de uso injetável, anti IL 31. A interleucina 31 foi como muito importante no desencadeamento do prurido, mas também como participante da inflamação e defeitos de barreira cutânea no cão com DA. 

O efeito terapêutico é rápido e pode ser mantido por um período de 30 a 60 dias dependendo do perfil do paciente. Não existe necessidade de realização de exames complementares para monitoração de possíveis efeitos adversos. 

“A medicação deve ser utilizada apenas com a supervisão do médico veterinário, pois pode desencadear efeitos de hipersensibilidade tipo I, como urticária, angioedema e até possível anafilaxia”, completa a Dra. Carmona.  

Ainda, como forma de controle da enfermidade, está preconizado em alguns casos a imunoterapia com alérgenos ou imunoterapia alérgeno específica. Essa é a única forma de terapia que com capacidade de mudar o curso da doença, baseando-se na administração de alérgenos no formato de extratos e de forma escalonada. A resposta terapêutica pode ser observada após 6 meses a 1 ano de uso e quando existe boa resposta, deve ser mantida por, pelo menos, 3 a 5 anos. 

“Muitos pacientes irão depender da terapia pela vida toda”, salienta a Dra. Rita Carmona

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