Como reduzir erros na prescrição de medicamentos aos nossos pacientes veterinários

13 de setembro de 2021

Todos os dias atendemos pacientes acompanhados de seus responsáveis. Muitas consultas resultam em prescrições de medicamentos veterinários, ou até mesmo fármacos de uso humano ou de manipulação.

Mas será que os tutores saem da consulta sabendo como tratar de seu animal de forma correta?  Será que estamos usando o tempo necessário para revisar nossas prescrições? Estamos nos empenhando em explicar como dar o medicamento para evitar erros e falhas na terapia?

Milhares de pessoas tomam medicações de forma errada todos os anos no mundo e isso acontece também em Medicina Veterinária, levando a quadros de intoxicação ou falhas no tratamento devido ao mal uso dos fármacos ou de não seguir as orientações prescritas. Infelizmente, somam-se aos erros dos tutores, os inúmeros casos de erros médicos, onde o veterinário ou um de seus assistentes, trocam receitas, ou prescrevem medicamentos inapropriados, ou até mesmo realizam cálculos equivocados, prescrevendo doses excessivas que podem causar efeitos adversos graves, intoxicação e até morte do paciente.

Já vimos casos de pacientes caninos com sobredose de 5 a 10 vezes que a dose correta de opioides. Já vimos caso de gatos desenvolverem insuficiência renal aguda, que receberam anti-inflamatórios em quantidades que são comumente prescritas para cães grandes, ou até mesmo casos graves de má interpretação de receitas, onde ao gato que deveria receber azitromicina, administrou-se azatioprina (que é extremamente tóxica para gatos e pode causar anemia, fraqueza, supressão da medula óssea), devido a erro de interpretação da receita por parte do farmacêutico.

Todos nós estamos sujeitos a erros. Errar é humano, e ainda mais trabalhando em ambientes complexos, sob intenso stress, como nas emergências, clínicas e hospitais veterinários, com muitos colegas e muitos pacientes sendo atendidos mesmo tempo. Temos que ter em mente que erros podem acontecer! Mas ao lidarmos com vidas, temos que criar mecanismos que diminuam ao máximo as chances de equívocos. O objetivo final é sempre zerar os erros!

E como podemos ser mais efetivos e garantirmos uma maior segurança na terapia implementada ou prescrita?

  1. Procure sempre pesar o seu paciente, não estime o peso somente na observação, pois isso pode resultar em erros perigosos na dose final do medicamento que vai ser prescrito. Tenha balanças de diferentes tamanhos para animais de diferentes portes. Para cães e gatos recém nascidos e filhotes, utilizar balanças pediátricas.
  2. Use sempre uma calculadora para calcular a dose certa. Evite cálculos de cabeça que podem gerar erros.
  3. Revise sempre duas vezes o resultado, a dose e a quantidade final a aplicada ou a ser prescrita e revise também a frequência e a duração a ser dada. Se houver dúvidas quanto a dose do medicamento para aquela espécie, consulte sempre um compêndio de sua confiança ou nosso bulário – https://vetsapiens.com/bularios
  4. Revise com cuidado a prescrição (receita) – revise-a pelo menos duas vezes, antes de entregá-la ao tutor – revise os dados do paciente, o nome do tutor, se o nome do medicamento está legível, se a concentração está correta, se a quantidade, a frequência e a duração estão corretas e legíveis.

Em Medicina, muitos hospitais utilizam um sistema de averiguação chamado 6 Cs (“certos”) na prescrição de medicamentos e o ideal é que seja realizada uma tripla verificação ou uma revisão feita por duas pessoas.

Os 6 Cs são:

  1. PACIENTE CERTO
  2. MEDICAÇÃO CERTA
  3. DOSE CERTA
  4. VIA de ADMINISTRAÇÃO CERTA
  5. FREQUÊNCIA e DURAÇÃO CERTAS
  6. RECEITA CERTA (legível)

 

5. Uma parte muito importante no processo de prescrição é a explicação adequada da receita ao tutor. Certifique-se que ele tenha entendido todas as partes da receita – os nomes dos remédios, a quantidade, a via de administração, a frequência e a duração do tratamento.

Observar que alguns tutores têm dificuldade de entender frações – se a receita indica 1/2 comprimido, ¼ ou 1/8, procure desenhar ao lado o que significa ¼, 1/8.

Lembre-se! – A efetividade do tratamento depende da adesão e da compreensão do tutor acerca da importância do tratamento e de como este se dará. Não adianta simplesmente entregar a receita na mão do tutor e se despedir, devemos sempre explicar calmamente o tratamento/a terapia, item a item, fármaco a fármaco.

6. Explicar também como administrar a medicação, seja ela oral, tópica, etc. – Por exemplo, explicar como dar um comprimido a um cão ou gato, como pingar as gotas, como administrar a solução. É muito comum vermos tutores utilizarem produtos tópicos em soluções orais, ou vice-versa. Sabemos que existem verdadeiros desafios ao tentarmos dar medicamento oral para gatos, como é o caso clássico da prescrição de DipironaÒ gotas para felinos. Se não levarmos em conta que estas espécies não toleram soluções amargas e muitas vezes espumam e salivam em abundância após a ingestão desta substância, e não explicarmos como dar, após a 1ª tentativa, o tutor desistirá de administrar qualquer medicação ao seu gato. Lembrar sempre de explicar as melhores técnicas para dar um comprimido ao seu paciente felino!

7. Idealmente as equipes veterinárias devem prescrever as receitas em um local separado, calmo e não devem ser interrompidas durante este processo. Fazer 3 coisas ao mesmo tempo e ser interrompido durante uma prescrição, aumentam as chances de erro.

8.Procure imprimir as prescrições, evitando assim erros graves causados pela má interpretação de farmacêuticos na venda e dispensação de medicamentes veterinários e humanos advindas de letras ilegíveis. Explique de forma clara e com letras maiúsculas a via de administração – se o medicamento será dado via oral, via tópica etc.

Já houve relatos de veterinários prescreverem produtos tópicos para banhos a base de sabonetes hipoalergênicos como Dermacyd® e o farmacêutico liberar Deltacid®, a base de deltametrina e indicado no tratamento e profilaxia da pediculose, da escabiose e das infestações por carrapatos em geral, que pode ser extremamente tóxico para cães e gatos.

9.No caso de medicamentos aplicados na própria clínica/hospital – evite erros na administração através de uma informação clara do dispensário/almoxarifado– se houver medicamentos e seringas muitos parecidas, coloque-as em caixas diferentes e com adesivos de cor laranja ou vermelha indicando qual medicamento e os cuidados a serem tomados.

Por exemplo – ampolas de cloreto de potássio que sejam parecidas com ampolas de glicose ou de NACL 0,9%. Muitos acidentes acontecem por conta de embalagens parecidas de fármacos de emergência.

Outro exemplo: armazene separadamente as SERINGAS 100, 40 e de 10 unidades.

Identifique as insulinas diferentes (U-100/U-40) de forma MUITO CLARA e NÃO armazene as diferentes insulinas na mesma caixa do refrigerador.

Outro exemplo -os medicamentos Convenia® e Cerenia® possuem nomes muito semelhantes, vêm em frascos de tamanhos próximos e costumam ser armazenados juntos no refrigerador.  Portanto, é importante identificar de forma bem clara as caixas dessas substâncias na geladeira e deixá-las em local separados.

A principal mensagem é que devemos sempre procurar evitar os erros, criando mecanismos que nos ajudem neste objetivo como melhorar a identificação de fármacos com etiquetas de cores diferentes. Acondicionar substâncias que possam causar efeitos colaterais sérios em locais separados e fechados, melhorar a comunicação com enfermeiros e com os tutores, fazê-la de forma mais clara, compreensível e simples. Inserir sistema de averiguação tripla de receitas e prescrições, procurar imprimir as prescrições em folhas grandes (A4) e com letras grandes e legíveis, minimizando erros de interpretação por letras pequenas e cursivas que podem ser ilegíveis, entre outras.

É um dever de todos a segurança de nossos pacientes, mesmo que este já não esteja dentro de nossa clínica. Crie sistemas de boas práticas dentro de sua clínica/hospital e converse com todos os seus colaboradores sobre a importância de se evitar erros na prescrição de medicamentos.

Medidas simples como estas podem salvar vidas!

M.V. MSc. Rosangela Gebara

Referencias:

https://vetidealist.com/reducing-veterinary-medication-errors/

https://www.fda.gov/drugs/information-consumers-and-patients-drugs/working-reduce-medication-errors

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/documento_referencia_programa_nacional_seguranca.pdf

https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-1.330-de-16-de-junho-de-2020-263183132

 

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