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BLOG – Clamidiose felina: o que é importante sabermos sobre essa doença?

18 de dezembro de 2022
gato com sintomas de clamidiose felina na região do olho

Em quase todas as regiões brasileiras, um dos atendimentos mais comuns quando se trata de filhotes de gatos, é o atendimento de casos de conjuntivites acompanhados ou não de sintomas respiratórios como espirros e secreção nasal.

Vários são os agentes que podem estar envolvidos nestes quadros, sendo um deles a bactéria intracelular gram-negativa chamada Chlamydia felis, que causa a famosa Clamidiose felina.

Muitas vezes ficamos na dúvida de qual agente estamos diante e como diagnosticar, já que tanto herpesvírus, como calicivírus e outras bactérias como Bordetella bronquiseptica e Mycoplasma spp. podem causar quadros semelhantes.

Então como saber se é Clamidiose?

Em primeiro lugar, uma boa anamnese já vai nos trazer dicas, pois a clamidiose é mais prevalente em gatos filhotes ou jovens adultos (<1 ano), não vacinados e que tenham contato com outros gatos ou que vivam em locais com grande número de animais.

Locais como abrigos, centros de zoonoses, casas com muitos gatos, casas de acumuladores, colônias de gatos de vida livre, etc podem ter mais chances de ocorrer surtos.

Geralmente os primeiros sinais da doença aparecem de 3 a 5 dias após a infecção e começam com uma secreção ocular serosa unilateral, hiperemia e edema de conjuntiva que depois evolui para uma secreção mucosa e edema conjuntival em ambos os olhos, em poucos dias.

Foto 1: Filhote acometido com C. felis, apresentando secreção serosa em olho esquerdo, edema palpebral e edema e hiperemia em membrana nictante (3a pálpebra).

A maioria dos filhotes que não recebem tratamento acabam evoluindo para uma conjuntivite bilateral purulenta, com edema e hiperemia de conjuntiva palpebral e ocular, quemose, blefaroespasmo, edema da membrana nictante (3ª pálpebra), epífora, podendo evoluir para uma ceratoconjuntivite.

O envolvimento da córnea, com a formação de úlceras, é mais comum quando há coinfecção com herpesvírus (FHV-1), pois só a infecção por Chlamydia felis, sozinha, não tem tanto potencial de afetar a córnea.

Alguns animais apresentam sintomas de infecção do sistema respiratório superior, como espirros, secreção nasal serosa, mucosa ou purulenta e hiporexia.

Quadros de pneumonia somente por Clamídia são bem raros e podem estar associados à imunossupressão e a coinfecção com outros agentes virais e/ou bacterianos.

Além do histórico e do exame físico e ocular minucioso, existem testes laboratoriais confirmatórios para a Clamidiose felina.

Diagnóstico laboratorial da Clamidiose Felina

O melhor teste para confirmar a infecção pela C. felis é o teste de PCR, que é considerado o teste padrão-ouro pois consegue detectar pequenas quantidades do DNA da bactéria, sem a necessidade de manipulação de organismos viáveis.

O PCR é capaz de detectar DNA de C. felis em amostras biológicas (swabs conjuntivais ou de secreção faríngea) de gatos com sinais clínicos, bem como em gatos sem qualquer sinal clínico da doença.

Atualmente muitos laboratórios disponibilizam testes de PCR em forma de painéis, testando vários patógenos em único teste, incluindo o teste para detecção de clamídia.

Existem outras formas de diagnóstico para Clamidiose, como cultivo celular, citologia (onde é possível ver a inclusão citoplasmática em células epiteliais conjuntivais juntamente com o aumento das células inflamatórias).

Isso, além de testes sorológicos, como as reações de imunofluorêscencia indireta (RIFI), fixação do complemento (RFC) e ensaios imunoenzimáticos (ELISA).

Mas é importante frisar que alguns testes sorológicos têm um valor limitado, pois a IgM geralmente tem elevação inconsistente na infecção por clamídia; e os resultados não podem diferenciar entre exposição ao agente e infecção ativa.

E ainda existe o problema de que a vacinação pode interferir na interpretação dos resultados dos testes baseados em anticorpos.

E como tratar gatinhos com clamídia e aliviar seus sintomas?

Felizmente o tratamento da clamidiose felina não é complexo, mas quanto mais precoce for instituído, melhor e mais rápido será o alívio dos sintomas. Importante frisar que os antibióticos tópicos ajudam, mas não devem ser instituídos como único tratamento.

Há necessidade de antibiótico sistêmico, com drogas que consigam penetração intracelular, como doxiciclina, amoxicilina-clavulanato, pradofloxacina etc.

A antibioticoterapia deve ser por no mínimo 28 dias, mas em alguns casos em que há comorbidades ou infecção crônica por até 6-8 semanas.

Além dos antibióticos sistêmicos, as conjuntivites devem ser tratadas com limpeza das secreções, lubrificação da córnea, e ATB tópicos em forma de colírios ou pomadas oftalmológicas.

A droga tópica de escolha é a pomada oftálmica de Oxitetraciclina aplicada a cada 6-8 horas por um período mínimo de 3-4 semanas, ou se não for possível, as pomadas de eritromicina, cloranfenicol ou de alguma fluoroquinolona.

Lembrar que a C. felis geralmente se mostra resistente a formulações com bacitracina, neomicina e gentamicina.

Qualquer sintoma respiratório ou dificuldade de deglutir deve ser tratado com inalação, nebulização, alimento pastoso etc.

Abaixo uma tabela com as principais doses e recomendações:

DROGA DOSE FREQUÊNCIA/PERÍODO
Doxiciclina 5 mg/kg PO a cada 12 horas ou 10-15 mg/kg PO a cada 24 horas Por no mínimo 28 dias
Amoxicilina-clavulanato 12,5-25 mg/kg PO a cada 12 horas Por no mínimo 28 dias
Pradofloxacina 5 mg/kg PO a cada 24 horas Por 3 a 6 semanas
Oxitetraciclina pomada oftálmica A cada 6 a 8 horas Por 2-4 semanas

Como prevenir a clamidiose em felinos?

Por ser uma doença altamente transmissível através de contato com as secreções de um gato infectado, a clamidiose se torna um problema em gatos, abrigos e locais com muitos gatos e a melhor maneira de preveni-la é através da vacinação e da gestão do ambiente.

Principalmente com boas práticas de manejo, higiene e evitando a superpopulação de gatos em um ambiente fechado.

A vacina contra a clamídia não é considerada uma vacina essencial no calendário de vacinação felino, publicado pela American Association of Feline Practitioners (AAFP).

Mas são recomendadas para gatos que vivem em ambientes de alto risco, por exemplo, casas ou abrigos com muitos gatos, locais com entrada de muitos gatos novos, muitos filhotes, e locais de superlotação de gatos com múltiplos casos confirmados.

É muito importante a orientação aos tutores quanto à vacinação como forma de prevenção, mas sempre lembrar de explicar que as vacinas polivalentes que contêm ação preventiva para C. felis não previnem totalmente a infecção.

A colonização das mucosas pelos organismos, no entanto, ajuda a minimizar a replicação, consequentemente reduzindo os sinais clínicos.

Essas vacinas polivalentes podem ser administradas a filhotes a partir da 8ª ou 9ª   semana de idade sendo a segunda dose administrada após 3-4 semanas, repetindo-a anualmente.

E em relação aos abrigos de gatos e protetores que possuem e resgatam muitos animais, o desafio de prevenção em relação à clamidiose se torna ainda maior.

Importante destacar que os surtos de conjuntivite ocasionados pela C. felis nestes locais geralmente são associadas às dificuldades no manejo, sendo imprescindível a gestão ambiental e sanitária, além da boa higiene, quarentena e desinfecção apropriada.

Para saber mais informações sobre a Clamidiose felina e outras doenças, acesse a plataforma Vetsapiens.

 

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