BLOG – Você conhece a Medicina Veterinária de Abrigos ou Medicina Veterinária do Coletivo?

11 de setembro de 2022

Antes do início dos anos 2000, centenas de veterinários nos Estados Unidos e dezenas de veterinários no Brasil trabalhavam em abrigos de animais e centros de controle de zoonoses e enfrentavam muitos desafios, pois todo o conhecimento aprendido por eles em sala de aula era voltado para o atendimento de cães e gatos em uma situação de consultório. Naquela época, as disciplinas de clínica médica, doenças infecciosas, cirurgia eram úteis para os casos individuais, mas nem sempre eram úteis para lidar com aquilo que comumente chamamos de “saúde coletiva” ou “saúde do rebanho”.

Poucos cursos ou treinamentos formais existiam para o manejo populacional de cães e gatos, para o manejo coletivo de animais em abrigos, e nenhuma aula específica para medicina de abrigos era oferecida nas escolas de veterinária americanas, européias ou brasileiras, muito menos estágios, residências ou conferências nacionais e internacionais.

Nos Estados Unidos, o pais com maior numero de cães e gatos albergados em abrigos,  uma mudança começou em 1999, quando o Dr. Jan Scarlett, um epidemiologista veterinário, ministrou a primeira disciplina eletiva de medicina de abrigos na Universidade de Cornell. Dois anos depois, nascia a Association of Shelter Veterinarians (ASV), e a Dra. Kate Hurley completa a primeira residência médica em abrigos do mundo na Universidade da Califórnia, Davis. Em seguida, os livros didáticos “Shelter Medicine for Veterinarians and Staff” e “Infectious Disease Management in Animal Shelters” foram publicados em 2004 e 2009, respectivamente.

Em 2005, a mesma ASV inicia um movimento para que a American Veterinary Medical Association (AVMA) desse o reconhecimento formal da área como uma especialidade, mas só em 2014 ela é reconhecida oficialmente, tendo seu primeiro exame para especialistas em 2015.

Quando a especialidade foi reconhecida nos EUA, definiu-se que a sua abrangência incluía as seguintes áreas temáticas:  controle e prevenção de doenças infecciosas; projeto de instalações e limpeza e desinfecção de abrigos; castração em massa de cães e gatos; investigação acerca da crueldade animal; perícia veterinária; além de comportamento animal, enriquecimento ambiental para abrigos e bem-estar animal.

No Brasil, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, os profissionais que trabalham na medicina de abrigos também costumam desempenhar um papel preponderante na comunidade, trabalhando com educação em guarda responsável, como gestores públicos que criam e coordenam políticas de manejo populacional de cães e gatos, como agentes fundamentais na Saúde Única.

No Brasil, a medicina de abrigos é conhecida como Medicina Veterinária do coletivo (MVC) e os avanços nesta área também surgiram na mesma época dos EUA, mas o reconhecimento oficial da especialidade somente se deu em 2021.

Em 2011 nascia a primeira disciplina de Medicina Veterinária do Coletivo no Brasil, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenada pelo Prof. Alexander W. Biondo com auxílio do Prof. Fabiano Montiani. A residência em Medicina Veterinária do Coletivo na UFPR, em parceria com a Prefeitura de São José dos Pinhais também iniciou em 2011 com a coordenação do Prof. Alexander Biondo.

Atualmente a residência em MVC conta com 10 vagas na área com atuação em municípios parceiros no estado do Paraná. Também na UFPR, foram abertas as primeiras vagas para docência em Medicina Veterinária do Coletivo em 2013/2014. A Universidade Estadual do Ceará (UECE) inicia disciplina de MVC em 2019 sob a coordenação do Prof. Claudio Henrique Couto do Carmo. E hoje diversas universidades já apresentam disciplinas eletivas e opcionais sobre o tema.

E em abril de 2022,  Universidade Federal do Paraná (UFPR) inaugurou na o Centro de Medicina Veterinária do Coletivo, com o objetivo de agregar os serviços já prestados à comunidade, criando oportunidades para ensino, pesquisa e extensão. A nova unidade funciona no Setor de Ciências Agrárias da UFPR e oferece atendimento médico veterinário social e castrações para animais de famílias em situação de vulnerabilidade e animais abandonados cuidados por protetores independentes; perícia de animais vivos e curso de banho e tosa para jovens em situação de vulnerabilidade recebendo alunos e pós graduandos.

Muitas oportunidades educacionais relacionadas a especialidade estão disponíveis dentro e fora do Brasil para aqueles que desejam se envolver na medicina de abrigos, ou medicina veterinária do coletivo.

A Associação de Veterinários de Abrigo (ASV) americana, fundada em 2001, conta atualmente tem mais de 750 membros, bem como estudantes associados em 28 faculdades veterinárias norte-americanas.

De acordo com o Veterinary Internship and Residency Matching Program (VIRMP), são oferecidos 5 estágios de medicina de abrigo de um ano e 5 programas de residência em medicina de abrigo (atualmente na Universidade da Califórnia, Davis, Universidade da Flórida, Universidade Estadual do Mississippi, Universidade Cornell e Oregon Humane Society) para alunos americanos e de outros países.

Além desses programas de treinamento para novos graduados em veterinária, bolsas de estudo, educação continuada e programas de certificação – incluindo muitas opções online à distancia – estão cada vez mais disponíveis para qualquer veterinário com interesse em medicina de abrigos.

As oportunidades de participar em conferencias são inúmeras, como as conferencias americanas – Conferência de Medicina de Abrigo da ASPCA/Cornell Maddie, realizada a cada verão na Universidade de Cornell e a Conferência anual de Medicina de Abrigo da Maddie, realizadas na Universidade da Flórida – EUA.

No Brasil, a cada dois anos temos a conferencia internacional de medicina veterinária do coletivo, organizadas pelo IMVC – Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo – https://institutomvc.org.br ,  que nasceu em 2005, como Instituto Técnico de Educação e Controle

Animal (ITEC) com o principal objetivo de promover o manejo populacional de cães e gatos (MPCG) de forma ética e sustentável, além da proposta educativa e de capacitação de profissionais na área de medicina e manejo de animais em abrigos e centros de controle de zoonoses. Nesse mesmo ano, começaram os Cursos de Formação de Oficiais de Controle Animal – Cursos FOCA, inicialmente em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. A partir de 2006, o curso passou a ser referência para a humanização dos serviços de controle animal, manejo populacional de cães e gatos e controle de zoonoses transmitidas pelos animais de companhia, capacitando profissionais de serviços de controle de zoonoses. Com as demandas sociais, o Curso FOCA foi atualizado e passou a ser Curso de Medicina Veterinária do Coletivo e de Formação de Oficiais de Controle Animal, capacitando mais de 3.500 profissionais até o momento.

O IMVC obteve reconhecimento internacional, com diretores participando de comissões nacionais e internacionais sobre o MPCG e é hoje o centro de referencia para estudo, treinamento e aperfeiçoamento da medicina veterinária do coletivo.

 

Nova especialidade dentro da veterinária

A Medicina Veterinária do Coletivo (MVC), foi reconhecida recentemente como especialidade pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) – por meio da Resolução nº 1.394, de 13 de maio de 2021 – e tem o objetivo de consolidar a Saúde Única – conceito que traduz a união indissociável entre a saúde animal, humana e ambiental, e engloba a Saúde Coletiva, a Medicina de Abrigos e a Medicina Veterinária Legal com todos os seus desdobramentos. Com ações que contemplam a saúde coletiva e o bem-estar de todos, não apenas dos animais, pode-se dizer que a MVC é uma área do conhecimento com foco preventivo.

O IMVC foi designado para ser responsável pela prova de titulação que deverá ocorrer em 2023. O instituto junto com a UFPR também é responsável pelo 1º curso de especialização em medicina veterinária do coletivo.

Para as novas gerações de profissionais veterinários que buscam o campo da medicina de abrigos o MVC, o céu é o limite. Faculdades veterinárias, programas de pós-graduação e programas de aperfeiçoamento oferecem treinamento e muitas vezes celebram parceria com órgãos municipais e/ou abrigos de animais. Alguns alunos enxergam a experiencia com bons olhos, outros ainda acham desafiador trabalhar com grande numero de animais e questões realizadas a saúde publica, bem-estar animal etc.de casos e o ambiente único, enquanto outros que podem não ter percebido os desafios e as recompensas de trabalhar em um abrigo de animais desenvolvem um novo interesse.

Ainda que nova, se formos comparar com outras áreas dentro da medicina veterinária, a medicina veterinária do coletivo já alcançou vôos altos e cada vez mais vemos mais profissionais  trabalhando nas mais diversas áreas que abrange esta especialidade.

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