BLOG – Seu paciente acabou de ser resgatado e não tem histórico, por onde começar?

Atender um cão ou gato recém-resgatado com histórico desconhecido é uma situação bem comum e que exige uma avaliação física e comportamental bem mais completa e minuciosa!
Antes de tudo pergunte onde e quando o animal foi encontrado e em quais condições. Isso pode lhe dar pistas importantes, sobre prováveis afecções, traumas, etc.
Após essa rápida anamnese, se o animal não estiver em uma situação de emergência, inicie a observação cuidadosa, à distância do animal para depois partir para um exame físico minucioso, que chamamos comumente de exame da “cabeça à cauda”, com foco na identificação de sinais de lesões, alterações de pele, nódulos, parasitas, se há sinais de dor em algum local, para nos auxiliar na avaliação do estado geral e da saúde.
Dada a falta completa de histórico, é crucial presumir que o cão ou gato não tenha recebido nenhuma vacina, e, portanto, pensando na Raiva, tome cuidado com mordeduras. Já adiante ao tutor que o animal vai precisar ficar isolado de outros animais da casa, por um período de 3 a 4 semanas, principalmente se houver filhotes na casa que ainda não completaram a vacinação ou adultos com vacinas desatualizadas. Este é um bom momento para lembrar o tutor da importância de manter todos os animais vacinados e solicitar para ele trazer todos para vacinação.
- Segurança Imediata e Observação Inicial
Antes de manusear o cão ou gato, palpa-lo, auscultá-lo, etc., observe-o à distância em um local tranquilo e seguro para avaliar seu temperamento e sua condição física. Se for um gato observe-os dentro da caixa de transporte e tente aborda-lo usando estratégias e técnicas pet friendly (uso de feromônios, petiscos, etc.).
- Observe os sinais de medo, agressividade, dor ou estresse elevado.
- Observe se há claudicação, rigidez cervical ou dificuldade para locomover, para se levantar, o que pode indicar dor.
- Verifique se há respiração ofegante, rápida, se há alguma dificuldade respiratória, se o animal está respirando com a boca aberta, se há cianose, tremores ou ruídos respiratórios, o que pode indicar dor, estresse ou alterações importantes do trato cardiorrespiratório.
Obs* Se perceber qualquer sinal que indique uma emergência com risco à vida, inicie o atendimento imediatamente!!!
2. Exame Físico “Prático” (Do Nariz à Cauda)
Se for seguro, se o animal não apresentar sinais de agressividade ou dor intensa, retire o animal da caixa (gatos) ou coloque o cão sobre a mesa de atendimento com cuidado e realize um exame físico completo e minucioso. Se for necessário utilize uma focinheira em cães ou uma toalha para a contenção apropriada dos gatos, mas tente conter e manejar seu paciente da maneira mais amigável possível, lembre-se ele acabou de ser resgatado e ainda não conhece ninguém. Se for possível utilize feromônios e petiscos para deixar o exame mais tranquilo.
Observar:
- Olhos: Se há secreção, opacidade ou vermelhidão. Se o animal enxerga bem e se tem catarata. Avaliar coloração da mucosa ocular e hidratação.
- Orelhas: Verifique se há aumento de volume, dor, secreção ( e sua coloração – marrom, amarela/pus ou preta), se tem odor, crostas ou parasitas (ácaros).
- Boca e Dentes: Levante os lábios para verificar a cor da gengiva, a hidratação, observe a condição dos dentes, se estão quebrados ou ausentes, a quantidade de tártaro e o odor. Observe a mucosa oral e a língua. Através dessa observação talvez seja possível presumir a idade aproximada do animal
- Pele e Pelagem: Palpe todo o corpo do animal para verificar se há nódulos, feridas, hematomas, cicatrizes ou crostas. Se há feridas compatíveis com doenças parasitológicas ou fúngicas transmissíveis (Ex: escabiose, esporotricose, etc). Procure por parasitas (Ex: pulgas, carrapatos, piolhos, miíase, berne).
- Abdômen: Palpe suavemente todo o abdômen para verificar aumento de volumes em órgãos, aumento da sensibilidade, dor, presença de líquido, prenhez, hematomas, abcessos, etc.
- Hidratação: Avalie a hidratação pela técnica de puxar a pele do dorso, e pela avaliação das mucosas.
- Mamas: Verifique se há secreção, inchaço, nódulos ou sinais de lactação recente (pele solta, mamilos aumentados).
- Área genital: avaliar se há secreções, aumento de volume, nódulos, sinais de TVT, avaliar mucosa anal, se há sinais de diarreia ou ferimentos.
- Membros/Articulações: Verifique entre os dedos se há ferimentos, carrapatos, espinhos ou pelos emaranhados.
- Auscultação cardiopulmonar: realizar a auscultação em todo o tórax, procurando por sons anormais, crepitações, abafamentos, etc
3. Outros passos essenciais no atendimento de cães e gatos recém resgatados:
- Microchip: Verificar se há um microchip no animal, passando o leitor na região da nuca, mas conferindo por todo o dorso e membros. Se encontrar uma numeração, procurar nos bancos de dados de microchip e no site do Sinpatinhas se encontra o responsável do anima. Lembrar que o animal pode ter sido abandonado, se perdido ou ter sido roubado.
- Oriente: Oriente o novo responsável para manter o animal distante dos outros animais de estimação da casa por pelo menos 3 a 4 semanas (por motivos de quarentena ou seja, para evitar a transmissão de doenças transmissíveis que pode estar no período de incubação ( Ex: cinomose, parvovirose, etc ), principalmente se os animais da casa estiverem com as vacinas atrasadas ou se tiverem filhotes.
- Vacinação e Vermifugação: Presuma sempre que o cão ou gato recém resgatado não esteja vacinado, e inicie todo o protocolo vacinal e o controle de ecto e endo parasitas.
- Check up – Exames de sangue e coproprasitológico: Faça exames de sangue de triagem (hemograma, exames de função renal e hepática, testes rápidos para Erliquiose, Anaplasmose e Dirofilariose e FIV e FELV para gatos e peça exame coproparasitologico.
- Orientação qto a castração e controle reprodutivo: Se o animal não for castrado, converse com o novo tutor sobre a importância do controle reprodutivo, os benefícios e como pode ser agendado.
4. Orientar o novo tutor sobre a regra do 3-3-3: A regra 3-3-3 explica que os 3 primeiros dias são cruciais e o animal estará ainda se adaptando a nova casa, aos novos tutores, ainda pode apresentar medo, pode defecar e urinar em local errado, enfim esses 3 dias devem ser dedicados à adaptação. Já nas 3 primeiras semanas começa o estabelecimento da rotina e somente após os 3 primeiros meses é que temos a construção da confiança estabelecida. Cada animal se adapta de forma diferente, mas a perseverança, a paciência, o amor e os cuidados veterinários adequados fazem toda a diferença.
Procure acompanhar o animal e orientar os tutores principalmente nos primeiros 3 meses, ou seja, peça retornos para avaliação do animal e se necessário indique a realização de novos exames.
Parabenize os tutores pelo resgate e os ajude nessa nova jornada 😉


