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Blog – Proteinúria em cães e gatos: um sinal de alerta que não deve ser ignorado

15 de julho de 2026

A presença de proteína na urina, conhecida como proteinúria, é um achado relativamente comum na rotina clínica veterinária. No entanto, embora possa parecer apenas uma alteração laboratorial, ela pode representar um dos primeiros sinais de doenças renais ou alterações sistêmicas importantes.

Estudos demonstram que cães e gatos com proteinúria persistente apresentam menor expectativa de vida, independentemente de já possuírem ou não insuficiência renal. Além disso, reduzir a perda proteica pela urina, por meio do tratamento adequado está associado a uma melhora na sobrevida desses pacientes.

O que é a proteinúria?

Em condições normais, os rins funcionam como um sofisticado sistema de filtragem. A barreira de filtração glomerular impede que proteínas de grande tamanho permaneçam na urina, enquanto pequenas proteínas filtradas são quase totalmente reabsorvidas pelos túbulos renais.

Quando esse sistema sofre alguma alteração, proteínas passam a ser eliminadas em quantidades acima do normal.

É importante lembrar que:

  • Em cães, pequenas quantidades de proteína podem aparecer em amostras de urina muito concentradas sem representar doença.
  • Em gatos, esse achado é muito menos comum e merece investigação mais cuidadosa.

Quando a proteinúria é considerada preocupante?

Um único exame alterado não é suficiente para fechar um diagnóstico.

A proteinúria é considerada persistente quando é detectada em pelo menos três exames de urina realizados ao longo de duas semanas ou mais.

Além disso, o exame mais utilizado para quantificar sua intensidade é a relação proteína:creatinina urinária (UPC ou UPCR), que auxilia tanto no diagnóstico quanto no acompanhamento da resposta ao tratamento.

As cinco causas mais comuns de proteinúria

  1. Inflamação do trato urinário

Esta é, provavelmente, a causa mais frequente.

Infecções urinárias, pielonefrite e cistite provocam inflamação da parede das vias urinárias, permitindo que proteínas escapem para a urina.

Nesses casos, normalmente o exame também revela:

  • aumento de leucócitos (piúria);
  • presença de bactérias;
  • sangue na urina (hematúria).

Outras doenças também podem provocar inflamação urinária, como:

  • cálculos urinários;
  • tumores;
  • prostatite;
  • piometra;
  • vaginite;
  • cistite hemorrágica.
  1. Hemorragia

Quando há sangramento em qualquer parte do trato urinário, proteínas plasmáticas e hemoglobina passam para a urina, elevando artificialmente sua concentração proteica.

As causas incluem:

  • cálculos urinários;
  • infecções;
  • neoplasias;
  • traumas;
  • distúrbios de coagulação;
  • lesões provocadas por sondagem ou cistocentese.

Após tratar a causa do sangramento, a proteinúria normalmente desaparece. Caso contrário, novas investigações são necessárias.

  1. Doença glomerular

Essa é uma das formas mais importantes de proteinúria.

O problema ocorre quando a barreira de filtração do glomérulo perde sua capacidade de reter proteínas, especialmente a albumina.

Entre as principais causas estão:

  • glomerulonefrite imunomediada;
  • amiloidose;
  • hipertensão arterial;
  • hiperadrenocorticismo;
  • doenças infecciosas, como erliquiose, doença de Lyme, FeLV, FIV e PIF;
  • neoplasias.

Curiosamente, muitos animais apresentam proteinúria importante antes mesmo do aparecimento da azotemia ou da insuficiência renal clínica.

Quando não tratada, essa perda contínua de proteínas pode levar a:

  • hipoalbuminemia;
  • síndrome nefrótica;
  • edema;
  • tromboembolismo;
  • progressão da doença renal crônica.
  1. Doença tubular

Nem toda proteinúria tem origem nos glomérulos.

Quando os túbulos renais deixam de reabsorver proteínas normalmente filtradas, ocorre a chamada proteinúria tubular, geralmente de intensidade leve.

Entre as principais causas destacam-se:

  • leptospirose;
  • intoxicação por etilenoglicol;
  • intoxicação por anti-inflamatórios não esteroidais;
  • ingestão de uvas ou passas (cães);
  • intoxicação por lírios (gatos);
  • síndrome de Fanconi

Embora costume produzir menor quantidade de proteínas na urina, também possui valor prognóstico importante, especialmente em gatos com doença renal crônica.

  1. Proteinúria por sobrecarga (overflow)

Essa forma não é causada por uma doença do rim propriamente dita.

Ela ocorre quando há excesso de pequenas proteínas circulando no sangue, ultrapassando a capacidade de reabsorção dos túbulos renais.

Os principais exemplos incluem:

  • hemoglobinúria decorrente de hemólise;
  • mioglobinúria após lesão muscular intensa;
  • proteínas de Bence Jones associadas ao mieloma múltiplo.

Nesses casos, o sedimento urinário geralmente não apresenta sinais de inflamação.

O sedimento urinário faz toda a diferença

Uma etapa frequentemente negligenciada na interpretação da proteinúria é a avaliação do sedimento urinário.

Ela ajuda a diferenciar duas situações completamente distintas:

Sedimento ativo

  • leucócitos;
  • hemácias;
  • bactérias;
  • inflamação.

Nessa situação, a proteinúria costuma ser consequência da doença inflamatória.

Sedimento inativo

  • ausência de inflamação;
  • ausência de infecção;
  • ausência de sangramento.

Quando a proteinúria persiste com sedimento inativo, aumenta significativamente a suspeita de doença glomerular ou tubular, exigindo investigação mais aprofundada.

Por que identificar a proteinúria precocemente?

A proteinúria não é apenas um marcador de doença renal: ela também contribui para a progressão da lesão dos rins.

Quanto maior a perda de proteínas, maior tende a ser o dano renal ao longo do tempo.

Por isso, identificar sua causa e iniciar o tratamento adequado pode:

  • retardar a evolução da doença renal;
  • reduzir complicações sistêmicas;
  • aumentar a qualidade de vida;
  • prolongar a sobrevida dos pacientes.

Conclusão

Encontrar proteína na urina nunca deve ser encarado como um simples detalhe do exame laboratorial. Embora infecções urinárias e hemorragias sejam causas frequentes, a proteinúria persistente pode ser o primeiro indício de doenças renais graves ou até mesmo de enfermidades sistêmicas.

Uma abordagem diagnóstica cuidadosa — incluindo urinálise completa, avaliação do sedimento urinário, mensuração da relação proteína:creatinina urinária (UPC) e investigação da causa de base — é fundamental para definir o prognóstico e instituir o tratamento mais adequado.

Na medicina veterinária moderna, reconhecer a proteinúria precocemente significa oferecer aos cães e gatos uma oportunidade real de preservar a função renal, reduzir complicações e viver por mais tempo com melhor qualidade de vida.

Fonte: Clinician’s Brief

 

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