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BLOG – Por que associações veterinárias mundiais já se posicionaram contra a criação de raças com braquicefalia severa?

22 de junho de 2023

Por M.V. Rosangela Gebara

 

Nas últimas décadas vimos um boom na criação e venda de determinadas raças braquicefálicas de cães e gatos, principalmente aqueles que apresentam braquicefalia severa como os Pugs, Shih tzus, Lhasas apsos, Bulldogs ingleses, franceses, gatos Persas entre outros.

 

Desde 2007, o Kennel Club do Reino Unido relatou um aumento de 3.104% nos registros de Buldogues Franceses, um aumento de 193% nos registros de Pugs e um aumento de 96% nos registros de Bulldogs Ingleses.

 

Em um estudo, publicado em 2020*, pesquisadores entrevistaram 2.200 tutores de cães braquicefálicos e obtiveram resultados que explicam a perpetuação dessa demanda – 93% disseram que escolheriam a mesma raça novamente no futuro e 65% recomendariam a raça de seus cães a outras pessoas.

 

*https://vetsapiens.com/artigos/come-for-the-looks-stay-for-the-personality-a-mixed-methods-investigation-of-reacquisition-and-owner-recommendation-of-bulldogs-french-bulldogs-and-pugs

 

Todas estas raças possuem traços semelhantes como: focinho achatado, olhos grandes, face arredondada e estudos recentes demonstraram que a maioria das pessoas opta por estas raças por acharem, pelas características acima mencionadas, mesmo que de maneira inconsciente, parecidas com um bebê humano.

Figura 1- Conformação do crânio de diferentes raças

Mas infelizmente sabemos que tais padrões vieram através de décadas e décadas de seleção artificial, realizadas sem um cuidado com aspectos relacionados ao bem-estar do animal e sim, foram guiadas por um apelo estético e mercadológico, em uma demanda do mercado.

 

Hoje sabemos que estes cães e gatos sofrem muito com esta condição, sofrem de problemas oculares e respiratórios e diversos países estão tentando regulamentar a criação destes animais braquicefálicos, proibindo sua criação ou impondo limites em suas características morfológicas, a exemplo da Holanda que proíbe desde 2014 a criação e venda de cães que tenham o focinho mais curto que 1/3 do comprimento do crânio.

Figura 2 – Diferentes graus de braquicefalia e suas conformações craniais

 

O conselho do Reino Unido para o Bem-estar de animais de companhia (UK Companion Animal Welfare Council – CAWC) já em 2006 se posicionou a respeito do tema:

 

  “Problemas genéticos relacionados a criação de raças puras têm afetado seriamente o bem-estar animal e merece a nossa atenção porque:

  • Afetam um número enorme de animais
  • Os efeitos destes problemas genéticos perpetuam de geração para geração
  • A qualidade e quantidade de vida dos animais são severamente reduzidas
  • E esses efeitos causam sofrimento durante toda a vida do animal “

 

Em um estudo do kennel club do Reino Unido, com 180 Bulldogs, chegaram a conclusão que a expectativa de vida média nessa raça é 6,25 anos e alertaram que essa raça sofre de mais de 50 alterações relacionadas a raça e a seleção artificial que passou nas ultimas décadas.

 

Figura 3 – Bulldog inglês na exposição de raças em 1915 (foto da esquerda) e atualmente (foto da direita)

 

Muitos animais braquicefálicos sofrem durante toda a vida com dificuldade para respirar, e muitos apresentam a “Síndrome da obstrução das vias aéreas dos braquicefálicos” ( (BOAS, do inglês Brachycephalic obstructive airway syndrome) provenientes de suas narinas estreitas, palato mole alongado, sáculos laríngeos evertidos, colapso laríngeo e traqueal, hipoplasia traqueal e fenda palatina. Muitos apresentam problemas oftalmológicos, por conta do globo ocular mais exposto, como ceratoconjuntivite seca (olho seco) culminando com ulcerações da córnea, que causa muita dor e até pode levar a cegueira. Estes animais também podem sofrer com mais facilidade de hipertermia e têm maior facilidade de desenvolvimento de doenças periodontais em decorrência do estreitamento dos dentes.

 

A AVMA (Associação Médico Veterinária Americana) em 2017 lançou um pronunciamento a respeito dos problemas relacionados a algumas raças, dizendo que encorajava estudos sobre as doenças relacionadas e encoraja os veterinários norte americanos a educarem os criadores e tutores sobre os mesmos, e também acerca das responsabilidades que todos tem sobre esta questão.

 

A BVA (Associação Veterinária Britânica) em 2006 já falava que existia uma necessidade urgente de revisão dos padrões das raças, para parar o sofrimento desnecessário e já advogavam que os veterinários deveriam aconselhar tutores a não comprarem cães e gatos braquicéfalos e que deveriam escolher raças mais saudáveis, reforçando que cães braquicefálicos “não deveriam ser vistos como fofos ou desejáveis, ao contrário, os veterinários deveriam explicar que estes cães são predispostos a uma vida doente e com baixo nível de bem-estar”.

 

O CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) através de sua resolução 1238/2018 estabelece que “realizar ou incentivar acasalamentos que tenham elevado risco de problemas congênitos/hereditários e que afetem a saúde da prole e/ou progenitora, ou que perpetuem problemas de saúde pré-existentes dos progenitores” é maus-tratos.

 

A solução indicada por muitos especialistas da área, para diminuir a ocorrência da Síndrome BOAS e seu impacto, está em pararmos de reproduzir estes cães com braquicefalia severa e exigirmos as melhores práticas de seleção genética e criação animal.

 

Os animais não devem ser procriados como mercadorias, com objetivos puramente mercadológicos. As criações animais e a seleção genética envolvida devem ser responsáveis e visarem somente a o bem-estar animal. Animais com braquicefalia severa devem ser retirados da reprodução e não deveriam podem gerar mais filhotes.

 

As associações de criadores deveriam ser contra este tipo de criação exigindo uma triagem compulsória de cães para distúrbios relacionados à raça antes de serem usados para reprodução.

 

O registro dos filhotes deveria ser realizado de acordo com uma triagem sanitária dos pais, com certificação apropriada vinculada à microchipagem (obrigatório para venda). As associações e criadores deveriam mudar as exigências de padrões de raça que não priorizem a saúde e o bem-estar dos animais, ou seja, os critérios de seleção de cães para reprodução devem ser somente a saúde e o bem-estar e nunca critérios meramente estéticos ou funcionais.

 

A pesquisadora Rowena Packer, professora de comportamento animal no Royal Veterinary College, afirma que dados sobre a prevalência de doenças podem ser usados para melhor direcionar e orientar os potenciais tutores de cães.

 

Ela acredita e defende que veterinários e outros profissionais possam usar dessas informações “para dissuadir potenciais tutores de comprar um cão braquicefálico, abrindo seus olhos para os muitos problemas associados à compra e criação dessas raças, conforme identificados pelas pessoas que as amam e cuidam delas.”

 

Todos nós, veterinários, deveríamos conhecer os principais problemas genéticos relacionados às raças e seus impactos, a fim de melhor aconselhar os tutores sobre estes problemas.

 

Além do que, somos peças-chaves, e podemos através de nossa expertise advogar por mudanças nos padrões raciais junto aos Kennels Clubs, e ainda no desenvolvimento de pesquisas sobre melhores métodos de melhoramento genético. Como veterinários deveríamos não participar ou endossar eventos que priorizem características deletérias e ainda denunciar práticas que coloque os animais em risco.

 

As associações veterinárias deveriam apoiar modelos de notificação para que os veterinários possam reportar todos os problemas relacionados as seleções artificiais, a fim de obtermos informações relevantes sobre a prevalência dessas alterações, como é realizado no Reino Unido, que exige a notificação de todas as cirurgias relacionadas a problemas de conformação e cesáreas em cães e gatos de raça pura.

 

https://www.bva.co.uk/resources-support/ethical-guidance/reporting-conformational-changes-and-caesareans-to-the-kennel-club-guidance/

 

Portanto, como veterinários, devemos trabalhar na prevenção de enfermidades e alterações que são prejudiciais à sua saúde, bem-estar e a qualidade da vida do animal.

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