BLOG - Osteoartrite canina: por que o diagnóstico e tratamento precoce precisam ser prioridade clínica - Vetsapiens

BLOG – Osteoartrite canina: por que o diagnóstico e tratamento precoce precisam ser prioridade clínica

23 de outubro de 2025

 Por M.V. Alessandra Novak Bentes

Médica Veterinária Pós‑graduada em Dor, Reabilitação Física e Medicina Veterinária Regenerativa Coordenadora de Serviços Técnicos de Animais de Companhia da Zoetis 

A osteoartrite (OA) canina é uma condição altamente prevalente, progressiva e dolorosa, que afeta cerca de 38% da população geral de cães, segundo revisão sistemática publicada na Frontiers in Veterinary Science. Apesar disso, muitos médicos veterinários ainda subestimam sua presença, tratam-na tardiamente ou a consideram uma consequência natural do envelhecimento — o que compromete gravemente o bem-estar animal.

A OA não é apenas uma doença articular. Ela é uma síndrome dolorosa crônica que afeta o comportamento, a cognição, o sono, o apetite e a interação social dos cães. A dor persistente leva à sensibilização central, um fenômeno neurofisiológico que amplifica a percepção da dor e dificulta seu controle. Em muitos casos, a ausência de diagnóstico precoce e de tratamento adequado culmina em eutanásia por dor refratária, não por falência orgânica.

O desafio do diagnóstico precoce

A OA frequentemente se inicia de forma silenciosa, com sinais sutis como relutância em subir escadas, dificuldade para levantar-se, menor disposição para brincar ou caminhar, e alterações comportamentais. Esses sinais são facilmente atribuídos ao envelhecimento, mas representam indicadores precoces de dor crônica.

Ferramentas como o Checklist de Dor de Osteoartrite (acesso em www.librela.com.br), baseado em observações comportamentais e funcionais, permitem identificar esses sinais antes que a doença se torne incapacitante. O uso sistemático desse checklist durante consultas de rotina pode transformar a prática clínica, promovendo diagnóstico precoce e intervenção eficaz.

A importância da abordagem multimodal

O tratamento da OA deve ser individualizado e multimodal, combinando terapias farmacológicas e não farmacológicas. As diretrizes internacionais, como as do grupo COAST (Canine OsteoArthritis Staging Tool), WSAVA e AHAA recomendam protocolos baseados em evidências e adaptados ao estágio da doença e respostas individuais.

Terapias farmacológicas:

Os AINEs e anticorpos monoclonais anti-NGF (mAbs) são recomendados como terapia farmacológica de primeira linha segundo as diretrizes do American Animal Hospital Association (AAHA) de 2022 e do World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) de 2022 por oferecerem a melhor combinação de eficácia analgésica, segurança e evidência científica para o controle sustentado da dor da OA. Em pacientes com contraindicações ao uso de AINEs, como segunda e terceira linha de tratamento, as diretrizes propõem a utilização de analgésicos adjuvantes — como gabapentina, amantadina ou opioides — de forma individualizada, sempre dentro de um plano multimodal. O uso de corticosteroides é reservado apenas a situações específicas, nunca em associação com AINEs. Esse modelo terapêutico reflete uma mudança de paradigma: controlar a dor de forma proativa e contínua, com base em reavaliação clínica periódica e monitoramento laboratorial adequado.

Terapias não farmacológicas:

Terapias não farmacológicas são pilares no manejo da osteoartrite canina, pois reduzem a dor, melhoram a função e potencializam a eficácia dos fármacos. Por sua vez, o controle da dor com fármacos aumenta a participação do paciente em programas de reabilitação. Podemos citar como exemplos:

  • Fisioterapia e reabilitação: exercícios terapêuticos, hidroterapia, eletroestimulação e laserterapia são recomendados para preservar massa muscular, melhorar a amplitude de movimento e reduzir a dor. A AAHA recomenda a inclusão dessas modalidades como parte do plano terapêutico desde os estágios iniciais da OA.
  • Controle de peso: a obesidade é um dos principais fatores agravantes da OA. A redução de peso pode diminuir a carga articular e a inflamação sistêmica.
  • Suplementação nutricional: ácidos graxos ômega-3 têm efeito anti-inflamatório leve. Embora os resultados variem, seu uso é considerado seguro e pode ser benéfico como parte de uma abordagem integrativa.
  • Modificações ambientais: pisos antiderrapantes, rampas, elevação de comedouros e camas ortopédicas ajudam a reduzir o esforço articular e o risco de quedas, promovendo conforto e segurança.

O papel do médico-veterinário

Osteoartrite não se resolve apenas com prescrição de AINEs. Exige atenção contínua, educação do tutor e manejo da dor de forma proativa. Cada sinal precoce ignorado é uma oportunidade perdida de melhorar a qualidade de vida do paciente. O veterinário é o protagonista na prevenção, diagnóstico e controle da dor — e a abordagem multimodal é o caminho para que o sofrimento silencioso seja minimizado antes que seja tarde.

Conclusão

A osteoartrite canina não é inevitável. Ela é detectável, tratável e gerenciável — desde que seja reconhecida precocemente e abordada com responsabilidade. É o momento de transformar a forma como vemos a OA. Não como uma consequência do envelhecimento, mas como uma doença que merece atenção, ciência e compaixão.

 

 

 

 

 

 

Comentar esta notícia

Você precisa estar logado para comentar as notícias.

©2026 Vetsapiens. Todos os direitos reservados.
Proibida reprodução total ou parcial deste website sem autorização prévia.