BLOG – Os desafios da medicina veterinária no Brasil e no mundo pós-pandemia

15 de novembro de 2022

A nossa profissão vem enfrentando diferentes desafios ao longo das décadas, e nos últimos anos, com a pandemia, nos deparamos com a necessidade de navegar em um mundo cada vez mais virtual e menos presencial.

Embora a pandemia tenha prejudicado os atendimentos em muitos lugares, a nossa profissão e o setor Pet como um todo, superou e se adaptou de uma forma surpreendentemente boa.

Nos Estados Unidos a procura por profissionais médicos veterinários deve crescer 16% na próxima década, e os recém graduados irão ganhar mais que os seus antecessores.

Apesar da inserção de ferramentas de telemedicina, as medidas de distanciamento social mudaram as interações com nossos clientes e um dos grandes desafios enfrentado pelos profissionais que trabalham em alguns mercados é como se adaptar à crescente digitalização da medicina veterinária.

Já em 2020, a plataforma de telemedicina americana Medici registrou um aumento de 48% nos registros e um aumento de 170% nas consultas de telemedicina para animais de estimação.

Quase todos os países do mundo estão enfrentando o desafio nas relações veterinário-cliente-paciente (RVCP).

Embora tenha havido um aumento substancial na demanda por telemedicina nos últimos 2 anos, algumas pesquisas mostraram que os veterinários não têm ainda o conhecimento suficiente de como utilizarem a telemedicina a seu favor. E não sabem orientar seus tutores usarem melhor este sistema. Alguns veterinários também estão enfrentando dificuldade para realizar as consultas remotas de forma correta, pois muitas vezes as regras em seus países não estão bem claras.

A ascensão da telemedicina mudou as políticas sobre consultas presenciais e o que pode ou não ser feito virtualmente em muitos conselhos profissionais.

Tanto o Royal College of Veterinary Surgeons (RCVS) na Inglaterra, como a American Veterinary Medical Association (AVMA) nos Estados Unidos e o Conselho Federal de Med. Veterinaria (CFMV) no Brasil revisaram ou criaram políticas para regrarem a telemedicina veterinária em seus países.

Mas, por enquanto, muitos colégios veterinários permanecem fundamentalmente contrários ao uso gratuito e indiscriminado dessa tecnologia, defendendo a “sacralidade” da relação pessoal entre Veterinário-Cliente-Paciente.

O aumento da telemedicina em muitos países também trouxe uma mudança nas expectativas dos proprietários. Em uma pesquisa do YouGov, em 2021, 70% dos tutores acreditavam na época da pesquisa, que os serviços veterinários poderiam ser realizados de forma on-line, 61% disseram que ficariam felizes em usar esses serviços e 58% teriam maior probabilidade de fazê-lo em relação ao consultas presenciais.

E dados compilados também no Reino Unido, com a análise de 38.449 consultas veterinárias remotas, demonstraram que 80% das consultas online puderam ser concluídas completamente de forma remota. Apenas um terço dos pacientes necessitaram de acompanhamento e cuidados presenciais posteriores e 12% não necessitaram de nenhum acompanhamento.

Isso indica uma mudança na demanda do cliente, onde 53% dos consumidores acreditam que as experiências online são mais importantes do que as pessoais, apontando para um movimento crescente e sem volta.

Desta forma, alguns analistas acreditam que práticas veterinárias que não conseguem se adaptar e aproveitar essa onda digital correm o risco de perder terreno para a concorrência.

Outro desafio que vem sendo enfrentado por muitos profissionais ao redor do mundo é o impacto na saúde mental e no bem-estar.

As estatísticas sobre saúde mental na medicina veterinária são chocantes. Veterinárias são 2,4 vezes mais propensas a cometer suicídio em comparação com a população em geral, enquanto, que os veterinários do sexo masculino são 1,6 mais propensos a comete-lo.

Além disso, em uma pesquisa com 11.000 veterinários nos EUA, em 2021, 9% dos participantes alegaram ter enfrentado altos níveis de estresse com repercussão fisiológica; 31% tiveram um episódio de depressão e 17% sofreram de pensamentos suicidas ao longo de um ano.

E uma constatação surpreende – Veterinários com clientes altamente satisfeitos são mais propensos a ter problemas psicológicos, enquanto veterinários mais felizes são mais propensos a ter clientes insatisfeitos.

Essas estatísticas destacam uma tendência crescente dentro da medicina veterinária, de suprir as necessidades dos clientes em detrimento a própria saúde mental.

Embora nossa profissão sempre tenha sido estressante, pois enfrenta muitos dilemas éticos diariamente, a Vetlife, uma instituição que apoia a saúde mental dos veterinários do Reino Unido, recebeu 1.136 pedidos de ajuda, nos primeiros três meses de 2020, um aumento considerável em relação aos números registrados (em média 600) nos anos anteriores.

Embora as ligações tenham aumentado nos últimos 2 anos, o aumento exponencial do 1º ano de pandemia foi indicativo de um problema crescente, que foi exacerbado por uma pandemia global e um boom na aquisição de filhotes naquele país.

Uma pesquisa realizada com mais de 1200 veterinários ingleses, em 2018, antes da pandemia, já demonstrava que quatro em cada dez veterinários estavam considerando deixar a profissão, mostrando que o impacto negativo crescente no bem-estar dos profissionais veterinários pode trazer um grande risco a nossa profissão no futuro.

Impacto da pandemia nos estudantes

Um estudo demonstrou que 97,7% dos estudantes acreditavam que a pandemia havia afetado seu desempenho acadêmico. Além disso, as restrições,  quanto ao distanciamento social,  teve um impacto muito grande na convivência acadêmica e no acesso as aulas praticas, aos estágios externos e treinamentos.

Os desafios na medicina veterinária são inevitáveis, mas os impactos são variáveis ​em diferentes realidades socioeconômicas nos diferentes países.

E no Brasil, como enfrentamos esses novos desafios? Qual foi o impacto da pandemia nos veterinários?

Um levantamento pioneiro no Brasil, realizado em 2021 pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia (CRMV-BA), mostrou que 32% dos médicos-veterinários que responderam à pesquisa tiveram Covid-19 e destes, 10% tiveram sequelas graves, mostrando o alto risco de exposição a que foram submetidos os médicos-veterinários naquele estado.

Outro ponto levantado pelo estudo, foi que a renda do médico-veterinário foi diretamente comprometida pela pandemia. E apesar de 70% dos profissionais pesquisados tenham afirmado que mantiveram suas atividades profissionais, o estudo revelou uma disparidade na relação trabalho x renda.

Enquanto 41% dos entrevistados tiveram a carga de trabalho aumentada no período, 34,3% viram a renda despencar no mesmo período, mostrando que temos ainda uma grande desvalorização do profissional médico-veterinário pelos agentes empregadores e pelos clientes/proprietários de um modo geral.

Os resultados deste estudo reforçaram a importância do planejamento e treinamento antecipado para enfrentar situações de crise sanitária, e ainda corroborou a necessidade de os médicos-veterinários adotarem melhores medidas de biossegurança em sua rotina profissional.

Fontes:
https://www.vetxinternational.com/into-the-unknown-the-challenges-facing-veterinary-medicine-in-2021/
https://www.vetxinternational.com/these-veterinary-mental-health-statistics-will-change-the-way-you-see-the-profession/
https://www.vetxinternational.com/weekly-veterinary-news-roundup-vets-at-risk-of-contracting-zoonotic-diseases/
https://caesegatos.com.br/crmv-ba-divulga-levantamento-inedito-sobre-o-impacto-da-pandemia-na-veterinaria/

Foto: Mikhail Nilov (pexels.com)

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