BLOG – Oncologia Veterinária: menos assustadora, mais desafiadora!

15 de fevereiro de 2021

Neoplasias em cães ultrapassam estatísticas dos humanos

*Por Profª. Dra. Samanta Rios Melo*

 

Em 4 de fevereiro, foi lembrado o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Embora, na Medicina Veterinária, ainda não tenhamos em uso uma plataforma única de dados que reúnam todos os casos de câncer diagnosticados, sabemos por meio de publicações científicas e bases de dados de outros países que os casos de câncer em animais têm aumentado significativamente.

E quais seriam as explicações para esse aumento?

Temos basicamente três grandes motivos:

  1. Maior e melhor diagnóstico para a doença. Tutores e veterinários estão hoje mais informados e cientes dos indícios de câncer em animais e agem de maneira mais apropriada.
  2. O fato de que os animais de companhia, por terem uma relação muito próxima com os humanos, ganharam, assim como nós, mais tempo e mais qualidade de vida ao longo dos anos. Quanto maior a longevidade, e menor a morte por outras doenças, maior é a chance do animal desenvolver câncer, visto que a maioria dos casos de pacientes oncológicos é de animais mais idosos.
  3. De acordo com a literatura científica, a vivência dos animais no mesmo ambiente que os humanos tem levantado questões quanto à associação entre a poluição ambiental e os herbicidas como organofosforados e a maior incidência de casos de linfoma e carcinomas (orais e vesicais) nessas espécies.

Incidências

Quando falamos em cães, vemos mais comumente neoplasias mamárias (cerca de 50% das neoplasias são em cães), neoplasias de pele (cerca de 30%, sendo o mastocitoma e o carcinoma os tipos principais entre eles), linfomas e osteossarcomas.

Cães são afetados com neoplasias de pele cerca de 35 vezes mais que os humanos, 4 vezes mais em neoplasias mamárias e 8 vezes mais em neoplasias ósseas como o osteossarcoma, e duas vezes mais em casos de leucemias e linfomas.

Já nos gatos, os tipos mais comuns reportados são linfomas, sarcomas e neoplasias mamárias.

Assim como na Medicina humana, para qualquer tipo de câncer, o diagnóstico precoce é fundamental para um tratamento mais ágil, podendo em muitos casos salvar vidas.

Há cerca de 10 anos, muitos colegas acreditavam que o câncer poderia ser um diagnóstico final. Entretanto, nós que vimos trabalhando com Oncologia durante este tempo, conseguimos provar que essa doença não é o fim da linha para muitos animais: o tratamento precoce, bem direcionado e estabelecido salva muitas vidas. Dessa forma, o estigma do câncer é hoje algo menos assustador, e cada vez mais desafiador.

A área de Oncologia na Medicina Veterinária tem evoluído muito — a Medicina Veterinária como um todo deu saltos significativos nos últimos 10 anos. E não foi diferente com a Oncologia Veterinária, especialmente por termos observado um aumento no número de casos de animais com câncer.

Obviamente, fora do Brasil temos ainda mais investimento (privado, especialmente) na área da pesquisa e, portanto, alguns medicamentos e novas opções terapêuticas não são ainda disponíveis facilmente em âmbito nacional. No entanto, acredito que a velocidade com que essas atualizações têm chegado ao nosso país também esteja mudando, e assim esperamos! Temos tutores e veterinários cada vez mais empenhados e dispostos a dar a melhor qualidade de vida e o melhor tratamento.

Vivemos um momento em que o pet é membro da família… parte significativa da rotina e do enlace familiar. Essa nova relação traz consequências emocionais que não podem ser negligenciadas, e especialmente no caso da Oncologia não podemos parar de estudar, investir e buscar novas alternativas para nossos pacientes.

 

*Profª. Dra. Samanta Rios Melo é professora do Departamento de Cirurgia da FMVZ-USP, diretora do Centro Oncológico Amo Patas e colaboradora do Vetsapiens

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