BLOG – Feridas e Lesões Traumáticas em Cães e Gatos: O que a literatura nos revela?

A medicina veterinária de pequenos animais lida diariamente com uma ampla variedade de feridas e lesões traumáticas, e compreender a prevalência, origem e gravidade dessas lesões é essencial para aprimorar o manejo clínico, reduzir a mortalidade e promover melhores resultados para nossos pacientes.
Um levantamento recente, baseado em 10 artigos científicos (mostrados na lista abaixo), reuniu evidências sólidas sobre os tipos de feridas mais frequentes observadas em hospitais veterinários por todo o mundo — revelando padrões clínicos que merecem atenção.
Lista 1 – Estudos sobre feridas e leões traumáticas em cães e gatos:
- Hall et al., 2018
- Kolata et al., 1974
- Vnuk et al., 2016
- Kolata and Johnston, 1975
- Shamir et al., 2002
- Hill et al., 2006
- Fullington and Otto, 1997
- Beardsley and
- Schrader, 1995
- Kožár et al., 2018
Traumas Contundentes e Penetrantes: O Dilema da Primeira Avaliação
De acordo com o estudo de Hall et al. (2018), que incluiu mais de 20 mil animais, as feridas traumáticas em cães e gatos se dividem, de forma geral, em dois grandes grupos: traumas contundentes e traumas penetrantes. Sendo que os cães apresentam maior incidência de feridas penetrantes (52,3%), enquanto os gatos são mais acometidos por traumas contundentes (56,7%).
Feridas ou traumas penetrantes incluem mordidas (presentes em cerca de 26,7% dos casos em ambas as espécies), ferimentos por projéteis (como tiros e chumbinhos de espingardas de pressão) e lesões por cisalhamento. Já os traumas contundentes estão geralmente relacionados a quedas e atropelamentos, especialmente em gatos.
Localização Anatômica e Implicações Clínicas
Os membros, especialmente as regiões distais como tarsos e metatarsos, são os locais mais frequentemente afetados, particularmente em cães. Essas lesões, como as causadas por forças de cisalhamento, frequentemente resultam em exposição óssea e articular, instabilidade e necessidade de tratamento cirúrgico especializado.
Feridas torácicas e abdominais, comuns em ambos os animais, apresentam risco elevado de complicações e mortalidade, principalmente em cães de pequeno porte. Já as lesões em cabeça e pescoço, além de serem frequentes, envolvem alto potencial de morbidade neurológica.
É importante destacar que ferimentos em múltiplas regiões corporais foram encontrados em 25 a 36% dos casos, sendo frequentemente associados a traumas graves como atropelamentos.
Tabela 1 – Tipo de lesão/ferida e prevalência nas diferentes espécies
| Tipo de Ferida | Prevalência em Cães | Prevalência em Gatos / Características Principais |
| Trauma contuso | 47,7% (Hall et al., 2018) | 56,7% (Hall et al., 2018) Mais comum em gatos; frequentemente devido a acidentes de carro ou quedas |
| Trauma penetrante | 52,3% (Hall et al., 2018) | 43,3% (Hall et al., 2018) Mais comum em cães; inclui mordida, tiro, ferimentos por projétil |
| Mordidas | 26,7% (Kožár et al., 2018); alta frequência em Shamir et al., 2002 | 26,7% (Kožár et al., 2018); menos frequente em Shamir et al., 2002 Cães pequenos mais propensos a múltiplas lesões; mortalidade com envolvimento torácico/abdominal |
| Feridas por cisalhamento | 100% (Beardsley e Schrader, 1995) | Não encontrado Membro distal, frequentemente com exposição óssea/articular, de trauma automobilístico |
| Feridas por arma de fogo/projétil | 43% membro, 26% tórax, 11% abdômen (Fullington e Otto, 1997); 80% por chumbinho em gatos (Vnuk et al., 2016) | 80% por chumbinho em gatos (Vnuk et al., 2016) Frequentemente em múltiplas regiões; fraturas comuns nos membros |
| Deiscência/feridas antigas (reabertura ou ruptura) | 22,2% (Kožár et al., 2018) | 22,2% (Kožár et al., 2018) Complicação comum |
| Feridas abertas (não específicas) | Não encontrado | Não encontrado Alta contaminação bacteriana, especialmente multirresistente |
| Lacerações, perfurações, complicações cirúrgicas | <10% cada (Kožár et al., 2018) | <10% cada (Kožár et al., 2018) Variedade de etiologias |
Padrões por Espécie: Diferenças Marcantes
- Cães tendem a sofrer mais traumas penetrantes, especialmente mordidas e feridas por cisalhamento. Raças grandes, machos jovens e cães envolvidos em brigas ou acidentes automobilísticos formam o grupo mais acometido.
- Gatos, por outro lado, apresentam mais feridas contundentes, muitas vezes decorrentes de quedas de grandes alturas ou atropelamentos. Ferimentos por projéteis (em sua maioria chumbinhos de ar comprimido) são frequentemente descobertos incidentalmente, durante exames de imagens realizados por outros motivos.
Complicações e Desfechos Clínicos
Vários estudos relataram taxas de sobrevivência superiores a 90% para a maioria dos ferimentos, incluindo ferimentos por arma de fogo e cisalhamento, com tratamento adequado (Hall et al., 2018; Beardsley e Schrader, 1995; Fullington e Otto, 1997).
Em ferimentos envolvendo o tórax, abdômen ou múltiplas regiões estão associados a maior mortalidade (Kolata e Johnston, 1975; Shamir et al., 2002).
A contaminação bacteriana em feridas abertas, especialmente aquelas tratadas com fechamento tardio (a ferida é fechada após um período de tratamento aberto), apresentam alto risco de contaminação bacteriana, incluindo organismos multirresistentes. (Destaques selecionados, 2016; Kožár et al., 2018). Isso exige não apenas higiene rigorosa, mas também uso criterioso de antimicrobianos.
O manejo conservador (tratamento não cirúrgico) costuma ser suficiente para feridas em membros sem fraturas, mas a intervenção cirúrgica é necessária para penetração abdominal ou instabilidade grave (Fullington e Otto, 1997; Beardsley e Schrader, 1995).
E o tempo de cicatrização varia de acordo com a profundidade e a complexidade da ferida, variando de 2 a 8,7 semanas para feridas de cisalhamento (Beardsley e Schrader, 1995).
Reflexões para a Prática Clínica
Este levantamento evidencia a importância da triagem rápida e da avaliação sistemática de cães e gatos com feridas traumáticas. O reconhecimento precoce do tipo de trauma, da localização anatômica e das possíveis complicações permite uma abordagem mais eficaz, reduzindo o sofrimento animal e otimizando recursos clínicos.
Além disso, os dados reforçam a necessidade de protocolos bem definidos para o manejo de feridas, incluindo medidas de controle de infecção, desbridamento, limpeza, cuidados com os tecidos viáveis, e decisão assertiva entre tratamento conservador e intervenção cirúrgica.
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