BLOG – Emprego do Tramadol em Cães e Gatos

Por Dra. Patrícia Flor
O tramadol é um analgésico sintético de ação central, classificado como um agonista opioide fraco dos receptores μ-opioides. Seu mecanismo de ação combina dupla atividade: modulação opioide e inibição da recaptação de serotonina e noradrenalina, o que ajuda a explicar sua manutenção de efeito analgésico mesmo após a administração de naloxona, um antagonista opioide puro. Essa característica o torna eficaz no controle da dor aguda e crônica, inclusive em quadros com componente neuropático.
Após administração, o tramadol é metabolizado principalmente no fígado, sendo convertido no metabólito ativo O-desmetiltramadol (M1), responsável por parte significativa do efeito analgésico, especialmente em humanos e gatos. Nos cães, a produção desse metabólito é menos expressiva, o que gera controvérsias sobre sua eficácia isolada nessa espécie. Ainda assim, diversos estudos clínicos relatam analgesia eficaz em cães, especialmente quando associado a outros fármacos como AINEs ou dipirona. Em gatos, a farmacocinética favorece maior produção de M1, resultando em analgesia mais previsível e duradoura. A via oral (VO) é bem absorvida, e o início da ação geralmente ocorre em 30 a 60 minutos, com duração entre 6 a 8 horas.
Em cães, mostrou-se eficaz no controle da dor após a ovariohisterectomia com efetiva modulação da concentração de cortisol sérico o qual teve o mesmo resultado do grupo de animais tratados com morfina. Quando associado ao cetoprofeno em cães com osteoartrose (OA), incrementou efetivamente a analgesia dos animais. Ainda, em cães com diferentes tipos de câncer a associação com dipirona e meloxicam ou carprofeno também foi eficaz no controle álgico dos animais. Outros estudos de pós-operatório de reconstrução do ligamento cruzado em cão também mostraram que o tramadol tem ação analgésica nos cães e pode ser utilizado com sucesso nos animais com dor de origem neurológica como nos quadros de dor crônica em coluna entre outros. Nestes quadros onde a dor é moderada o tramadol associado a dipirona e a um AINE controla de maneira adequada a dor. Nos casos em que existe a presença de componente neuropático, e o controle da dor não se mostra tão efetivo, a associação com os adjuvantes será a melhor opção.
Nos casos de dor moderada crônica ou neurológica, a combinação com dipirona e AINEs é considerada eficaz. Quando há componente neuropático relevante, recomenda-se a associação com adjuvantes analgésicos para maximizar o efeito.
Em casos de vômito, deve-se ficar atento a associação entre ondansetrona e tramadol, pois devido ao seu mecanismo de ação, o tramadol pode ter sua eficácia reduzida quando associado à ondansetrona. Uma meta-análise publicada em 2015 relatou essa interação, sugerindo ajuste posológico do opioide nas primeiras 24 horas de pós-operatório. No entanto, estudos mais recentes apontam que essa interferência pode não ser clinicamente relevante, e a influência da ondansetrona tende a diminuir progressivamente.
Quanto à associação com a amitriptilina, embora exista o risco teórico de síndrome serotoninérgica devido ao aumento combinado da serotonina sináptica, estudos demonstraram que a utilização conjunta em doses reduzidas (2-4 mg/kg para tramadol e 0,5–1 mg/kg para amitriptilina) é segura e não ocasiona tal efeito adverso, o que é corroborado por relatos clínicos.
Entre os efeitos adversos do tramadol, destaca-se a ocorrência de náuseas, que pode prejudicar a avaliação comportamental e o bem-estar do paciente, sendo necessária intervenção medicamentosa em alguns casos.
Conclui-se que o tramadol representa uma estratégia farmacológica valiosa no manejo da dor em cães e gatos, especialmente quando utilizada em protocolos multimodais. Sua eficácia, embora variável entre as espécies devido as suas diferenças metabólicas, pode ser significativamente potencializada por meio de associações com outros analgésicos e adjuvantes, sobretudo em quadros de dor moderada a crônica ou com componente neuropático. Apesar de apresentar alguns efeitos adversos e interações medicamentosas potenciais, o uso criterioso e individualizado do tramadol pode proporcionar alívio efetivo da dor e contribuir para o bem-estar dos nossos pacientes.
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