A ozonioterapia na Veterinária

19 de novembro de 2020

Por MSc. M.V. Reimy Kawahara

A ozonioterapia faz parte das chamadas terapias complementares e tem um papel importantíssimo na Medicina Veterinária Integrativa. Na definição da Dra. Cideli Coelho, renomada homeopata veterinária: “A Medicina Integrativa aborda toda a gama de influências físicas, emocionais, mentais, sociais e ambientais que afetam a saúde do animal. Dessa forma, cada indivíduo é analisado em sua totalidade. Em uma avaliação rápida, algumas vantagens da Medicina Integrativa são: paciente, tutor e médico veterinário são parceiros no processo de cura; todos os fatores que influenciam a saúde, o bem-estar e a doença são levados em consideração, incluindo comportamento, manejo e corpo; intervenções eficazes, naturais e menos invasivas devem ser usadas sempre que possível. A Medicina Integrativa não rejeita a Medicina convencional nem aceita as ‘terapias alternativas’ sem o devido senso crítico”. Nesse contexto, a ozonioterapia se encaixa justamente como uma intervenção eficaz, natural e muito pouco invasiva.

Como terapia complementar e entendendo-se o mecanismo de ação do ozônio envolvido na ozonioterapia, que, na verdade, refere-se a uma mistura gasosa composta por 95% de oxigênio medicinal puro e 5% de ozônio, sua utilização pode auxiliar em qualquer área da Medicina Veterinária. Deve-se ressaltar que, devido à longevidade dos nossos pacientes, associada às doenças crônico-degenerativas e câncer, a terapia com ozônio, em muitas situações, pode ser a alternativa mais indicada nos cuidados paliativos.

 

 

Quando falamos em ozonioterapia, temos de ter em mente qual a relação entre Balanço Redox, estresse oxidativo e cada uma das doenças apresentadas pelos nossos pacientes. Se pensarmos nas doenças como danos celulares, as principais causas são: privação de oxigênio (hipoxia ou anoxia), isquemia, agressões por agentes físicos, químicos (que incluem os fármacos que utilizamos nos tratamentos) ou infecciosos, reações imunológicas, defeitos genéticos e alterações nutricionais. Tais fatores levam a lesões celulares por depleção de ATP, lesão mitocondrial, influxo de cálcio para o citosol com perda de sua homeostase, acúmulo de radicais livres do oxigênio e defeitos na permeabilidade das membranas. A modulação do Balanço Redox é uma das bases dos efeitos benéficos promovidos pelo ozônio, ou seja, reduzir ou bloquear as lesões celulares.

 

 

 

As espécies reativas — as de oxigênio radicalares e não radicalares e as de nitrogênio — podem promover efeitos fisiológicos ou patológicos, dependendo do Balanço Redox numa determinada situação. Portanto a presença de radicais livres não é sinônimo de doença e não deve simplesmente ter sua ação bloqueada pelo uso indiscriminado de antioxidantes exógenos.

 

 

Pensemos: por que a ciência e a medicina convencional enfatizam tanto o uso de antioxidantes em várias patologias como câncer, doenças imunomediadas, doenças degenerativas etc.? Porque pensam no estresse oxidativo (sistema de redução e oxidação), mas não como uma balança dinâmica. Um único tipo de antioxidante não surtirá o melhor efeito desejado, visto ser necessário um equilíbrio do sistema oxidante e antioxidante enzimático e não enzimático em relação ao tipo, quantidade e requerimento relacionados à doença apresentada pelo paciente.

 

Benefícios comprovados

A compreensão dos benefícios promovidos pela ozonioterapia tem relação intrínseca com dois fatores. Primeiro com os conhecimentos de Clínica Médica, que é a base de toda a Medicina, Veterinária ou não e suas especialidades, e segundo com o entendimento dos processos fundamentais da ação do ozônio: uma reação imediata com a formação de espécies reativas de oxigênio (ROS) e uma reação tardia de peroxidação lipídica com a formação de peróxido de hidrogênio (H2O2) e vários aldeídos (LOPs). Essas reações ocorrem nos fluidos corpóreos, principalmente no plasma sanguíneo, e as ROS e os LOPs passam a atuar como “mensageiros” sobre várias células-alvos, promovendo as alterações funcionais, bioquímicas, imunológicas e genômicas endógenas desejadas para o tratamento.

 

 

Contraindicações
Cada um desses efeitos do ozônio no organismo vai ao encontro da tentativa de bloqueio ou modulação dos mecanismos de lesões celulares, que é a base de qualquer tipo de patologia. Por exemplo, inúmeros trabalhos comprovam o benefício indiscutível da ozonioterapia na cicatrização de úlceras crônicas e complexas, como em pacientes humanos portadores dos chamados “pés diabéticos” e úlceras varicosas há dezenas de anos. Da mesma forma, na Medicina Veterinária, existem vários artigos comprovando sua eficácia nos processos de cicatrização devido ao aumento da oxigenação tecidual, estímulo dos fatores de crescimento e de células-tronco, redução das citocinas pró-inflamatórias e aumento das citocinas anti-inflamatórias.

 

 

 

 

Assim como em qualquer tipo de tratamento medicamentoso ou não, não exclusivo da ozonioterapia, a primeira e mais grave contraindicação é a iatrogenia. Portanto há que se estudar e dominar a técnica, utilizar materiais compatíveis com o ozônio e equipamentos aprovados pela Anvisa, bem como saber sobre a patologia em que se pretende fazer uso da terapia, analisando as indicações e contraindicações em cada paciente, e não apenas em cada doença. Afinal, tratamos o paciente, e não a doença. Portanto, em uma mesma patologia, podemos utilizar “protocolos” diferentes para cada animal e a cada sessão.

Existem contraindicações absolutas e relativas. Está totalmente contraindicado inalar o ozônio, visto que o sistema respiratório é um dos que têm a menor quantidade de fluidos dispersos pela camada do filme aquoso dos alvéolos. Dessa forma, o gás não se difunde adequadamente e se acumula nas vias aéreas e pulmões, causando uma reação de oxidação com consequente tosse, dispneia, edema pulmonar agudo e óbito em curto espaço de tempo. Outra contraindicação relevante refere-se à aplicação direta do gás por via intravenosa. Nesse caso, o “vilão da história” não é o ozônio, mas o oxigênio. Lembrando que trabalhamos com uma mistura gasosa composta por 95% de oxigênio (O2) e 5% de ozônio (O3) e que o O3 se difunde 10 vezes mais rápido que o O2 na água, então o risco de causar uma embolia gasosa pelo O2 é muito grande.As contraindicações relativas são em animais gestantes, com hipertireoidismo e cardiopatia descompensada, em crises convulsivas, com hemorragias e anemia severa.

 

 

 

Casos de sucesso

Atualmente, temos uma gama enorme de pacientes, com as mais variadas enfermidades, tratados com sucesso com a ozonioterapia. Daria ênfase àquelas doenças em que as terapias convencionais trazem resultados positivos pobres aos olhos do tutor e do médico veterinário. Por exemplo, nas doenças virais felinas, como FIV e FeLV, temos pacientes cujas cargas virais se tornam indetectáveis através de controle com RT-PCR quantitativo acompanhado da remissão dos sintomas apresentados e das alterações laboratoriais. Não existe a cura desses pacientes, mas o controle da doença, sem o uso das terapias convencionais e seus inúmeros efeitos colaterais e elevados custos financeiros. Nesses casos, a ozonioterapia promove uma imunomodulação de forma a estimular o próprio organismo a inibir a replicação viral, e não por uma ação direta sobre o vírus.

 

 

 

A ozonioterapia ontem, hoje e no futuro

Ao estudar a história da ozonioterapia médica, encontramos citações que datam de 1785, portanto, não é uma terapia nova. Mas, a partir dos anos 1900 em diante, seu desenvolvimento foi ficando mais evidente. E nos anos 2000 em diante, encontramos os artigos que considero mais elucidativos sobre os mecanismos de ação do ozônio medicinal. Em 2015, a Federação Internacional de Ozonioterapia (WFOT) publicou uma revisão com centenas de trabalhos relacionados à Ozonioterapia Baseada em Evidências.

Hoje, parece haver uma divisão clara na classe veterinária em relação à ozonioterapia: aqueles médicos veterinários que a conhecem, fazem uso dela e comprovam seus efeitos benéficos, e por isso aprofundam seus conhecimentos e os compartilham com outros colegas; aqueles que não conhecem a terapia, mas querem entendê-la melhor e pesquisam artigos científicos para veterinários e outras fontes da comunidade científica; e aqueles que pensam que se trata simplesmente de acreditar ou não, como se fosse algo sem qualquer fundamento técnico-científico, alegando que não existem publicações comprovando sua eficácia.

Existem ainda outros que confundem o ozônio utilizado como marcador de poluição como sendo a mesma coisa que o usado na ozonioterapia medicinal. Para estes, ozônio sempre é sinônimo de gás tóxico. O O3 se liga a vários tipos de poluentes como clorofluorcarbono, óxido nítrico, dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono, metano etc., então, por uma questão de praticidade técnica, é mais simples medir os níveis de ozônio como forma indireta de saber qual o grau de poluição atmosférica do que medir cada poluente individualmente. Os danos ocasionados são por esses poluentes e não simplesmente pelo O3. Mais uma vez, a falta de informação leva a achismos que denigrem o que pode ser, às vezes, a única opção para dar alento a um paciente grave e desenganado pela Medicina Convencional.

Mas tivemos a grata satisfação de ter a regulamentação da ozonioterapia veterinária junto ao CFMV a partir de 3 de novembro de 2020, após serem demonstradas as fundamentações e comprovações técnico-científicas envolvidas na terapia. Dessa forma, acredito que em breve teremos muitos profissionais se capacitando e, consequentemente, mais pacientes beneficiados pela técnica.

Como incorporar a ozonioterapia na rotina clínica

Como clínica geral e cirurgiã de pequenos animais, atualmente considero que a ozonioterapia possa ser utilizada como terapia complementar em quase todas as áreas da Medicina Veterinária e cuidado com os animais, como dito anteriormente. É, portanto, uma prática intrínseca à rotina clínica e cirúrgica diária, pelo menos no meu caso. Mas sempre ressaltando a importância do discernimento e conhecimento claro de quando e como usá-la.

* Reimy Kawahara é médica veterinária pela FMVZ-USP, Mestre em Clínica Veterinária pelo Departamento de Clínica Médica da FMVZ-USP e Proprietária da Clínica Veterinária Reimy Kawahara.

 

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