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BLOG – Uso de antibióticos no pós-operatório em cadelas com piometra: Será que sempre devemos prescrever?

5 de maio de 2026

A piometra é uma das condições mais frequentes e potencialmente fatais em cadelas não castradas. Geralmente causada por Escherichia coli, pode evoluir rapidamente para sepse e morte se não tratada de forma adequada.

Sabemos que o tratamento padrão é a ovariohisterectomia — associada ao suporte intensivo. Tradicionalmente, o uso de antibióticos no pós-operatório sempre foi considerado rotina. Mas a pergunta que vem ganhando força na medicina veterinária baseada em evidências é:

Será que todos os casos realmente precisam de antibiótico após a cirurgia?

O que dizem as evidências mais recentes?

Um estudo clínico finlandês, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo (padrão ouro), publicado recentemente – Placebo is non-inferior to postoperative antimicrobial treatment in uncomplicated canine pyometra – a double-blinded randomized controlled trial,” trouxe um dado importante:

“Antibióticos utilizados no pós-operatórios NÃO reduziram as complicações em cadelas com piometra não complicada”

Neste ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, 152 cadelas com piometra não complicada receberam uma única administração perioperatória de sulfadoxina-trimetoprima (SXT, 30 mg/kg IV) seguida de placebo oral (grupo placebo) ou SXT (19 mg/kg VO) a cada 12 horas durante 5 dias no pós-operatório (grupo SXT). Foram avaliadas tanto a incidência pós-operatória de infecções do sítio cirúrgico (ISC) em 30 dias quanto a de infecções do trato urinário (ITU) clínicas em 12 dias.

Apesar da presença de bacteriúria perioperatória em 48 cadelas (grupo placebo, 22; grupo SXT, 26), nenhuma cadela no grupo placebo (0%) e 2 cadelas no grupo SXT (3,9%) desenvolveram ITU clínica nos 12 dias de acompanhamento. Da mesma forma, infecções do local cirúrgico (ISC) desenvolveram-se em 2,7% dos cães do grupo placebo e em 7,8% dos cães do grupo SXT, o que está de acordo com as taxas de ISC relatadas anteriormente para cirurgias limpas-contaminadas. No geral, um curso pós-operatório de 5 dias de SXT não reduziu a incidência de infecções do trato urinário (ITU) clínicas ou ISC em cadelas submetidas à cirurgia para piometra não complicada, e a maioria das cadelas com bacteriúria não desenvolveu ITU clínica. Esses achados apoiam que a omissão do uso de antimicrobianos no pós-operatórios em cadelas com piometra não complicada e que recebem antimicrobianos perioperatórios, podem reduzir potencialmente a resistência antimicrobiana, os custos para os tutores e os efeitos adversos dos medicamentos.

Resumindo:

  • Não houve nenhuma redução na taxa de infecção urinária clínica no grupo ATB.
  • Não houve nenhuma redução na taxa de infecção da ferida cirúrgica no grupo ATB.
  • Houve baixa incidência de complicações em ambos os grupos (grupo placebo e grupo ATB)
  • Mesmo com bacteriúria, a maioria dos cães não desenvolveu doença clínica.

Ou seja, a simples presença de bactéria não significa necessidade de antibiótico.

Por que então sempre utilizávamos antibiótico?

Historicamente, o raciocínio era: Piometra = infecção grave

Cirurgia contaminada – Risco de:

  • Infecção de ferida
  • Infecção urinária
  • Sepse

Além disso, cerca de 1/3 dos cães pode apresentar bacteriúria no perioperatório e isso levou ao uso rotineiro de antibióticos por vários dias após a cirurgia.

 O que está mudando na prática clínica?

As evidências atuais sugerem um ponto crucial: Antibiótico PERIOPERATÓRIO é suficiente na maioria dos casos simples

Ou seja:

Dose antes ou durante a cirurgia → sim

Manter por vários dias após → nem sempre necessário

Quando NÃO usar antibiótico no pós-operatório ?

Casos de piometra não complicada, com:

  • Paciente estável
  • Sem sepse
  • Sem peritonite
  • Cirurgia limpa (sem ruptura uterina)
  • Recuperação adequada

Nesses casos, o uso prolongado pode ser evitado.

Quando o antibiótico ainda é indicado?

Aqui está o ponto crítico — não é “nunca usar”, e sim usar com critério clínico.

Indicações mais aceitas:

  • Sepse ou instabilidade sistêmica
  • Ruptura uterina / peritonite
  • Infecção abdominal confirmada
  • Paciente criticamente doente
  • Achados intraoperatórios preocupantes
  • Complicações pós-operatórias

Estudos retrospectivos mostram que antibióticos são mais utilizados em cães com pior condição clínica — o que faz sentido do ponto de vista médico

O papel da resistência antimicrobiana

Esse é um dos pontos mais importantes hoje, pois o uso indiscriminado de antibióticos está diretamente ligado a:

  • Resistência bacteriana
  • Falha terapêutica futura
  • Impacto em saúde pública (One Health)

Reduzir uso desnecessário não é apenas economia — é uma responsabilidade médica e sanitária.

Outro ponto importante do artigo, se formos utilizar ATB:

  • Preferir antibióticos de espectro mais estreito
  • Evitar fluoroquinolonas sem indicação clara
  • Sulfonamidas potenciadas (ex: trimetoprim-sulfa) são eficazes em muitos casos

Essa evidência nos leva a um modelo mais moderno, de uma medicina veterinária individualizada e baseada em risco, ou seja, em vez de:

“Todo caso recebe antibiótico”

Passamos para:

“Esse paciente específico precisa de ATB nesse momento?”

Conclusão

A piometra continua sendo uma emergência médica grave, mas seu manejo pós-operatório está evoluindo.

Nem toda cadela com piometra precisa de antibiótico após a cirurgia e o uso deve ser sempre baseado em avaliação clínica, direcionado e justificado.

Reflita sempre:

“Será que ainda estamos usando antibióticos por hábito — ou por evidência?”

Fonte: Ylhäinen A, Rantala M, Thomson K, et al. Placebo is non-inferior to postoperative antimicrobial treatment in uncomplicated canine pyometra – a double-blinded randomized controlled trial. Vet J. 2025;314:10

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