Urolitíase, Cálculos de Estruvita em felinos

Dra. Paola Lazaretti

Ultima atualização: 24 MAR DE 2020

Sinônimos

Urólito de fosfato de amônio e magnésio, urólito de triplo fosfato, urólito de fosfato amônio magnesiano hexaidratado.

Nome em Inglês

Struvite calculi, Magnesium ammonium phosphate stones, Triple phosphate stones, urease calculi.

Descrição da doença

Presença de urólitos compostos de fosfato amônio magnesiano hexahidratado no trato urinário de felinos que ocorre mais frequentemente na bexiga e na uretra.  Menos de 5% dos urólitos são encontrados em trato urinário superior (rins e ureteres).

Fisiopatologia

Em gatos, a maioria dos urólitos de estruvita não está associada a infecções do trato urinário e é considerada estéril, diferentemente dos cálculos de estruvita em cães que na sua maioria são causados por Infecção do trato urinário (ITU) por microorganismos produtores de urease.

Gatos acima de 10 anos apresentam maior risco de infecções do trato urinário e podem ser mais propensos aos urólitos de estruvita, que são induzidos por infecção.

Etiologia

A etiologia exata da formação de urólitos de estruvita estéreis em gatos não está completamente estabelecida.

Alguns fatores envolvidos:

  • Urina alcalina; 
  • Altos níveis de magnésio e fósforo na urina; 
  • Urina altamente concentrada; 
  • História familiar de urólitos de estruvita; 
  • Acidose tubular renal distal;
  • Diminuição nos glicosaminoglicanos locais.

Os cálculos de estruvita associados a presença de infecções do trato urinário são decorrentes de infecções causadas por bactérias produtoras de urease, enzima esta que transforma a uréia presente na urina em amônio e bicarbonato, o amônio se combina ao magnésio e fosfato presentes e produzem cristais de hexahidrato de fosfato de magnésio (estruvita).

Bactérias envolvidas: 

  • Staphylococcus spp são os microorganismos mais comuns causadores de urolitíase estruvita, 
  • Proteus spp.
  • Pseudomonas spp.
  • Klebsiella spp.
  • Corynebacterium urealyticum
  • Ureaplasma/Mycoplasma spp.

Maior ocorrência

Os cálculos de estruvita estéreis ocorrem mais frequente em gatos machos castrados, com idade média entre 4 anos e 7 anos.

Em gatos acima de 10 anos observa-se maior ocorrência de cálculos de estruvita associados a infecção urinária.

Raças comumente afetadas são "gato doméstico pelo curto", Ragdoll, Oriental de pêlo curto, Himalaio e Chartreux.

Achados de anamnese

Alguns animais podem ser assintomáticos.

Quando sintomáticos, os tutores relatam: hematúria, polaciúria, disúria, urina fora da caixinha ou em lugar inadequado. 

Em alguns casos pode-se observar sintomas sistêmicos, como vômito, letargia e dor abdominal, decorrentes de obstrução do trato urinário ou infecção ascendente e pielonefrite.

Manifestações clínicas

Geralmente o exame físico não apresenta anormalidades.

Mas quando as anormalidades estão presentes pode-se observar:

  • Hematúria, presença de sangue em região perineal;
  • Dor a palpação da bexiga;
  • Cálculo palpável em bexiga ou uretra;
  • Distensão da vesícula urinária em caso de obstrução uretral.

Procedimentos diagnósticos

Hemograma: geralmente nada digno de nota.

Bioquímica sérica: geralmente nada digno de nota a não ser na presença de obstrução uretral, quando observa-se  azotemia pós renal, hiperpotassemia, etc (ver obstrução uretral)

Urinálise: pH alcalino, hematúria pode ou não estar presente,  presença de cristais de estruvita (com formato de tampa de caixão) são frequentemente (mas não sempre) encontrados.

Cultura de urina: A cultura de urina é sempre recomendada, principalmente em gatos acima de 10 anos de idade. 

Radiografia Abdominal / Ultrassonografia: Os urólitos de estruvita são radiopacos. geralmente arredondados e de superfície lisa. Pode ser um único urolito ou múltiplos, Geralmente estão presentes em bexiga mas ocasionalmente são achados na uretra,  ureteres e rins.

A ultrassonografia pode auxiliar no diagnóstico da presença de hidronefrose ou pielonefrite. 

Cistoscopia: A cistoscopia pode ser usada para visualizar urólitos de estruvita no trato urinário inferior.

Análise Mineral do Urólito: Quando os urólitos são removidos cirurgicamente, ou expelidos na urina, é importante que estes sejam enviados para análise quantitativa para confirmar a sua composição mineral. Os urólitos não devem ser colocados em formol quando transportados para laboratórios, pois isso pode levar ao diagnóstico errôneo de sua  composição.

Cultura do urólito: Idealmente os urólitos também devem ser enviados para cultura, principalmente em casos com cultura de urina negativa em caso com suspeita de infecção. 

Diagnósticos diferenciais

  • Infecção do trato urinário;
  • Cistite idiopática felina;
  • Outros tipos de urólitos;
  • Neoplasia do trato urinário;
  • Trauma do trato urinário.

 

Terapia inicial

Em casos onde há obstrução do trato urinário a desobstrução deve ser imediata. 

A dissolução médica dos urólitos pode ser recomendada em casos onde não há não obstrução.

Na presença de infecção urinária o tratamento com antibiótico deve ser instituído com base no resultado da cultura e antibiograma e o antibiótico deve ser mantido até completa dissolução do urólito. 

Exames de Urina tipo I e cultura urinária devem ser repetidos depois de 5-7 dias do início do antibiótico e espera-se que a urina apresente um pH< 7, densidade urinária entre 1,010-1,020 e cultura negativa. 

Uma dieta calculolítica formulada para dissolver urólitos de estruvita deve ser oferecida em adição à terapia antimicrobiana quando infecção está presente, ou isoladamente quando os urólitos são estéreis.

Os principais componentes das dietas calculolíticas incluem a restrição de magnésio e fósforo; capacidade de acidificar a urina; diminuição dos níveis de proteína e capacidade de estimular a diurese.

O tempo médio de dissolução varia de 2 - 3 meses. 

Deve-se continuar a terapia de dissolução por pelo menos 1 mês após a resolução radiográfica dos urólitos. 

Durante o processo de dissolução, urólitos pequenos podem causar obstrução principalmente em gatos machos. Deve-se sempre estar atento e alertar tutores para os possíveis sintomas. 

Remoção Física de Urólitos 

  • Urohidropropulsão, pode ser utilizada para remoção de urólitos pequenos, e deve ser evitada em gatos machos. 
  • Remoção assistida por cistoscopia.
  • Litotripsia
  • Cistotomia
  • Uretrostomia

Para informação mais detalhada consulte a "ACVIM Small Animal Consensus Recommendations on the Treatment and Prevention of Uroliths in Dogs and Cats"

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5032870/

Terapia de suporte e manutenção

  • Sempre tentar controlar os fatores que possam estar predispondo a infecções do trato urinário (diabetes, hiperadrenocorticismo etc).
  • Estimular o consumo hídrico (oferecer alimentação úmida, adicionar água ao alimento, oferecer água corrente) para promover diluição da urina. 
  • Utilizar uma dieta medicamentosa adequada para a dissolução e ou prevenção de cálculos de estruvita. 
  • Raramente a utilização de acidificadores de urina se faz necessária.
  • Avalie a urina a 5-7 dias após início da terapia de dissolução e certifique-se que:
    • pH se mantém entre 6,5 e 7;
    • gatos apresentam densidade urinária entre 1,030-1,040;
    • ausência de cristais de estruvita e de bactéria
  • Durante a terapia de dissolução reavalie radiografias a cada 2-4 semanas e certifique-se que os urólitos estão apresentando redução em tamanho ou redução em número.
  • Caso nenhuma alteração tenha sido notada após 4-8 semanas de tratamento, a remoção mecânica deve ser indicada.
  • Atenção pois algumas dietas para dissolução de cálculos de estruvita podem predispor a formação de urólitos de oxalato de cálcio.

Prognóstico

  • O prognóstico para dissolução de urólitos de estruvita é bom.
  • Mas os índices de recorrência de cálculos de estruvita são altos. 

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