Streptococcus sp

Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 12 FEV DE 2020

Nome em Inglês

Streptococcal Infections

Sinônimos

Estreptococoses

Estreptococcias

Definição

São infecções causadas por um complexo de bactérias que atingem diversas espécies animais. São responsáveis por infecções supurativas como pneumonia, meningite, metrite, mastite e poliartrite.

 

Etiologia e Fisiopatogenia

Os estreptococos são cocos gram-positivos aeróbicos ou anaeróbicos facultativos, que se arranjam em forma de cadeia.

Se diferem dos Staphylococcus spp. através do teste de catalase, sendo o Streptococcus spp. catalase-negativa e o Staphylococcus spp. catalase-positiva.

Os gêneros pertencentes ao grupo dos cocos catalase-negativa que possuem maior importância e são responsáveis por causar em infecção nos animais são os Streptococcus spp. e os Enterococcus spp. 

Duas espécies são as de maior importância deste gênero S. pyogenes e o S. pneumoniae (este cresce aos pares).

A classificação para os estreptococos se baseiam nas provas bioquímicas, característica da colônia e pela composição antigênica.

Sabe-se que as espécies β-hemolíticas tendem a ser mais patogênicas e são divididas em A, B, C, E, G, L e M.

Os microrganismos α-hemolítico, ou não hemolíticos e algumas espécies de Enterococcus pertencem ao grupo D.

Os estreptococos patogênicos são capazes de produzir substâncias extracelulares que os tornam ainda mais patogênicos. E alguns fatores de virulência como o fator CAMP (Christie-Atkins-Munch-Petersen), enzimas, exotoxinas, protéinas de superfície e polissacarídios capsulares também são produzidos por estas bactérias. 

Sabe-se que estas bactérias vivem na mucosa do trato respiratório superior, digestivo e urogenital inferior dos animais.

As infecções oportunistas podem ocorrer sempre que o animal esteja imunodeprimido ou secundária a outra doença concomitante. Com exceção do S. equi as outras espécies podem ser tansferidas entre os animais hígidos. 

As espécies S. pneumoniae, S. agalactiae e o S. canis, são habitantes normais dos respectivos trato respiratório superior, gastrintestinal e geniturinário de cães e as infecções endógenas ou secundárias podem ocorrer em caso de estresse e imunossupressão. 

Os estreptococos são trasmitidos por diversas formas, sendo elas por inalação, ingestão, congênitas, sexuais e por meio de fômites.

As espécies piogênicas estão relacionadas com infecções supurativas, abscessos, e septicemia. 

Devido, as substâncias produzidas extracelulares, existe destruição das células fagocitárias, e ainda algumas espécies produzem substâncias capazes de comprometer o tecido conjuntivo levando a uma extensa destruição tecidual. 

De modo geral, a doença se desenvolve independente da porta de entrada e esta relacionada na capacidade da bactéria em aderir a célula hospedeira, se livrar dos mecanismos fagocitários, em colonizar e invadir as células, ainda produzir toxinas e enzimas que favoreçam sua disseminação pelo organismo. 

Um fator de virulência importante para as espécies S. pneumoniae, a maioria de S. pyogenes e  alguns S.equi é a cápsula que protege estas bactérias da fagocitose. Tornando os microrganismos mais viáveis pois a fagocitose só conseguirá destruir aqueles que não possuem tal cápsula.

A cápsula do S. pyogenes possui ácido hialurônico que é uma substância similar a do tecido conjuntivo, sendo então, não imunogênica, ainda possui outras variabilidades antigênicas e este microrganismo é classificado em sorotipos. 

Já as exotoxinas pirogênicas induzem a produção de fator de necrose tumoral, interleucinas, macrófagos e linfócitos.

Os estreptococos em geral tem sobrevida curta fora do hospedeiro, estes são sensíveis a dessecação, uso de cloreto de sódio a 6,5%, e são inativados a temperatura baixa (10°C) e elevadas (55°C e 60°C) por 30 minutos. Porém, diversas espécies sobrevivem longos períodos em camas de animais, equipamentos de ordenha, alimentos e no solo.

As infecções que tem bom curso de cura, geralmente leva a recuperação de 1 a 2 semanas. Esta doença tende a ser localizada, causando lesões mais frequentes em pele e otites.

Quando ocorre disseminação do microrganismo, pode haver bacteremia, abscessos em diversos locais do organismo, complicações como endocardite, pneumonia, nefrite, artrite, encefalites e abortos. 

Maior ocorrência

Não há predileção por sexo, idade e estação do ano para ocorrência de infecção por estreptococos.

Todas as espécies estão susceptíveis a desenvolver doença.

E a mortalidade depende da espécie, virulência da linhagem bacteriana, do animal envolvido e do tipo de infecção.

Achados de anamnese

Dependem dos locais acometidos pelo microrganismo e estarão relacionados com as manifestações clínicas.

Manifestações Clínicas

As infecções mais comumente encontrada nos animais são as do trato respiratório superior causando linfadenite em gatos e animais jovens. Infecção respiratória e septicemia neonatal em cães filhotes.

Pneumonia e infecções não relacionadas ao trato respiratório, como as infecções do trato geniturinário. 

Tosse, febre, anorexia, prostração, dispnéia, intolerância ao exercício e descarga nasal mucopurulenta, são manifestações associadas ao quadro de pneumonia.

A pneumonia causada por S. zooepidemicus é considerada mais importante para quadros de pneumonia hemorrágica necrosante aguda em cães levando a morte súbita, e não é precedida por nenhum sintoma anterior.

Apesar de pouco prevalente, pode causar infecção em cães contaminados com o vírus da cinomose.

Animais que apresentem megaesôfago, vômitos crônicos, paralisia de laringe, ou disfunção faríngea, são predispostos a desenvolver pneumonia bacteriana por aspiração de alimento. Aqueles com bronquiopatias e que já possuem uma menor depuração mucociliar podem desenvolver infecção geralmente por Streptococcus sp. 

O sistema circulatório também pode ser acometido por infecções bacterianas.

A insuficiência valvar pode ser causada pelos Streptococcus spp. que acomete principalmente os felinos e são oriundas de uma miocardiopatia. 

Já as endocardites bacterianas são raras em cães e estão associadas a bacteremia.

Ocorre mais em cães com lesão cardíaca, fluxo anormal preexistente, danos valvares, e em animais com infecções prostáticas, com pneumonia, piodermites, infecções dentárias ou do trato urinário.

Os animais imunocomprometidos, convalescentes e com doença sistêmica intercorrente são mais predispostos.

Estes apresentam febre, taquipneia, mialgia, claudicação alternada de membros, infecção do trato urinário ou evidências de embolia. 

Em caso de choque tóxico, pode haver hipotensão, falha renal, hepática, coagulopatias, edema pulmonar, rash eritematoso cutâneo e necrose de tecidos moles.

Com relação ao trato geniturinário, as infecções ascendentes ocorrem por contaminação bacteriana da própria microbiota por causas subjacentes como dermatite perineal, prega cutânea vulvar, mal formações entre outras.

As bactérias geralmente envolvidas são os Staphylococcus sp e o Streptococcus sp. 

Os estreptococos são responsáveis por apenas 10% das infecções do trato urinário em cães.

As cistites são mais frequente em cães do que gatos e acometem mais fêmeas do que machos e podem ser resultado de uma vaginite.

Há sensibilidade dolorosa em bexiga, com paredes mais espessadas. 

O sistema nervoso também pode ser infectados por estreptococos, e já foi relatado em cães filhotes  com hidrocefalia.

Sendo os sintomas mais observados de graus variados, como andar compulsivo, cegueira, convulsões, alteração de comportamento e head pressing.

Há relatos de gatos adultos com infecção aguda, que vieram a óbito e à necropsia o microrganismo foi encontrado em cérebro e cavidade nasal. 

Procedimentos Diagnósticos

Levar em conta as manifestações clínicas apresentadas, outras doenças concomitantes e os aspectos epidemiológicos. 

O cultivo bacteriano e a coloração de gram devem ser coletados de sítios onde há sinais de infecção. Coleta de secreções, punções de abscessos, swab de lesões, fragmento de tecidos entre outros. Todos estes materiais quando colhidos devem ser mantidos em frascos estereis e processados imediatamente ou encaminhados em meio de transporte (stuart) e sob refrigeração. Vale lembrar que os cultivos devem ser realizados juntamente ao antibiograma. 

Pode-se ainda realizar testes enzimáticos ou químicos extraindo o agente do swab e realizando o teste de aglutinação para constatar a presença do microrganismo. Este teste é realizado para detectar antígenos estreptocócicos do grupo A (S. pyogenesS. pneumoniae)

A reação em cadeia de polimerase (PCR), pode ser realizada para detecção de genes espécie-específicos. 

 

Testes laboratoriais para avaliação da função renal, hepática e coagulograma são importantes.

O leucograma geralmente indicada leucocitose por neutrofilia.

Raio x de tórax para descartar pneumonia bacteriana também é uma ferramenta útil.

Tratamento Inicial

De acordo com a doença e as manifestações clínicas, tendem a ser de suporte e também levar em conta a doença de base.

 

Tratamento suporte e manutenção

Instalar protocolo com uso de antibióticos, sempre baseado no antibiograma realizado após o cultivo bacteriano.

Nos casos não complicados de pneumonia estreptocócica o tratamento inicial preconizado é com cefalosporinas de primeira geração, amoxicilina-clavulanato e sulfametoxazol-trimetoprim. Nos casos mais graves é indicado uso de cloranfenicol, enrofloxacino e combinar cefalosporinas com aminoglicosídeos. Se não houver melhora em 48 a 72 horas, deve-se mudar o protocolo. 

Em endocardites causadas por estreptococos pode-se associar penicilina a gentamicina. De modo geral a penicilina G e a ampicilina são eficazes no tratamento sistêmico para os estreptococos  β-hemolíticos e S. viridans. Outras alternativas que podem ser empregadas são cefalosporinas, cloranfenicol e sulfadiazina-trimetoprima.

Para cistites bacterianas é recomendado utilizar antibióticos que atinjam altas concentrações na bexiga, como a ampicilina (26mg/kg/) a cada 8 horas e sulfadiazina-trimetoprima (13mg/kg) a cada 12 horas por no mínimo 7 dias. 

Ao empregar a terapia antimicrobiana é importante sempre avaliar o antibiograma e levar em conta a condição clínica do paciente. Em casos de animais debilitados e com sistema imunológico comprometido o uso de antibióticos bactericidas se tornam mais eficazes aos bacteriostáticos.

Diagnóstico Diferencial

Cinomose canina

Infecção por estapilococos

Infecção micótica

Septicemia por outras bactérias gram-negativas

Prognóstico

O prognóstico é bom em casos de lesões localizadas que respondam bem ao uso de antimicrobianos e tendem a cura em 1 a 2 semanas.

Já os casos graves, complicados, principalmente naqueles animais imunocomprometidos, o prognóstico é reservado, devido ao acometimento sistêmico que pode ocorrer, como bacteremia, septicemia e choque tóxico.

Literatura recomendada

GREENE, Craig E. Streptococcal and Other Gram-Positive Bacterial Infections: Streptococcal Infections. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2006. cap. 35, p. 302-317. ISBN 978-1-4160-3600-5.

 

PAVELSKI, Mariana et al. AVALIAÇÃO DO LAVADO BRONCOALVEOLAR EM CÃES DE ABRIGO ACOMETIDOS POR PNEUMONIA. Archives of Veterinary Science, [S. l.], ano 2012, v. 17, n. 3, p. 50-56, 2012. Disponível em: file:///C:/Users/Felipe/Downloads/22753-104477-1-PB.pdf. Acesso em: 8 nov. 2019.

 

CAVASSIN, Camila et al. Endocardite Bacteriana Canina: Revisão de Literatura. Revista Eletrônica Biociências, Biotecnologia e Saúde, Curitiba, ano 2016, n. 15, p. 41-43, maio-agosto 2016. Disponível em: https://seer.utp.br/index.php/GR1/article/view/1612/1360. Acesso em: 8 nov. 2019.

Informações para tutores

A infecção por estreptococos pode acometer os animais por algumas vias e os sintomas aparecerão conforme o local contaminado.

Pode ocorrer manifestações do trato respiratório como pneumonia, sistema cardiovascular e geniturinário. 

Tosse, febre, perda de apetite, apatia, dificuldade de respirar, intolerância ao exercício e descarga nasal mucopurulenta, são manifestações associadas ao quadro de pneumonia.

Nos animais com comprometimento cardiovascular pode ocorrer febre, respiração ofegante, dor muscular, claudicação alternada de membros, infecção do trato urinário ou evidências de embolia.

Já as cistites são menos comuns e pode haver aumento na frequência de micção, pouca quantidade de urina várias vezes ao dia,  dor abdominal em região de bexiga.

O tratamento é feito com base em antibióticos e para melhorar os sintomas dos pacientes.

O prognóstico é bom e a cura ocorre de 1 a 2 semanas nos casos não complicados e dependendo dos sintomas apresentados. 

Referências

NASCENTE, Patrícia da Silva. Staphylococcus sp. e Streptococcus sp. In: JERICÓ, Marcia Marques et alTratado de medicina interna de cães e gatos. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015. cap. 100, p. 2634-2655. ISBN 978-85-277-2666-5. 

 

MELVILLE, Priscilla Anne et al. Estreptococcias. In: MEGID, Jane et alDoenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 30, p. 315-326. ISBN 978-85-277-2789-1.

 

GREENE, Craig E. Streptococcal and Other Gram-Positive Bacterial Infections: Streptococcal Infections. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2006. cap. 35, p. 302-317. ISBN 978-1-4160-3600-5.

 

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