Síndrome de Horner

Claudia Inglez

Ultima atualização: 26 FEV DE 2020

Nomeclatura (sinônimos)

Paralisia óculo-simpática

Nomes em inglês

Horner syndrome

Oculosympathetic paralysis

 

Definição

Conjunto de sinais que envolvem a inervação simpática para o olho. Miose, ptose palpebral, protrusão da 3ª pálpebra e enoftalmia são sinais que fazem parte da síndrome.

Fisiopatologia

A síndrome de Horner resulta da disfunção das vias simpáticas que se estendem do hipotálamo ao olho. As vias simpáticas originam-se no hipotálamo, cursam pelo tronco cerebral e medula espinhal até os primeiros três segmentos medulares torácicos (trato tectotegmentoespinhal), onde ocorre uma sinapse com corpos celulares na substância cinzenta (segmento central ou de 1ª ordem).  As fibras então emergem da medula espinhal e cursam pelo tórax pelo tronco simpático, que se funde ao nervo vago e corre pela região cervical como tronco vagossimpático, e fazem sinapse com o gânglio cervical (segmento pré ganglionar ou de 2ª ordem), que se situa próximo à bula timpânica. As fibras então correm pela orelha média ao lado no nervo facial, e juntam-se com o ramo oftálmico do nervo trigêmio (segmento pós-ganglionar ou de 3ª ordem) e inervam o músculo dilatador da íris e músculo liso da órbita e pálpebra.

A lesão pode ocorrer em qualquer local desta via (lesões encefálicas, cervicais, torácicas, em orelha e olhos), e podem estar relacionadas a infecções, tumores, traumas e alterações vasculares.

 

Etiologia

Potenciais afecções que podem desencadear síndrome de Horner incluem:

-Lesões em hipotálamo ou seio cavernoso

-Alterações em tronco encefálico como tumores, enfermidades inflamatórias

-Afecções da medula espinhal cervical e raízes nervosas, como trauma, neoplasias da medula espinhal e plexo braquial

-Traumas na região cervical, como como mordeduras, atropelamentos, procedimentos cirúrgicos, punção da jugular

-Massas na região cervical (carcinoma de tireóide) e tórax cranial (timoma, linfoma, granulomas fúngicos)

-Enfermidades envolvendo a orelha média, como otite média, pólipos, tumores, lesões iatrogênicas.

Casos já reportados de síndrome de Horner incluem otite média/interna, traumas encefálicos, cervical e torácico, colocação de tubo torácico, inflamações e neoplasias do sistema nervoso central, discopatias, mielopatias isquêmicas, procedimentos cirúrgicos na região cervical, neoplasias da tireóide, trauma do plexo braquial e neurite do trigêmio.

Maior ocorrência

Não há predileção de raça, sexo ou idade.

Anamnese

É comumente reportado que o olho afetado parece estar “menor”, e com a pupila em pequeno diâmetro.

Manifestações clínicas

Em felinos, a miose é a manifestação clínica mais comum e ptose palpebral a menos comum.  Protrusão da 3ª pálpebra e enoftalmia também podem estar presentes. Geralmente estes sinais ocorrem unilateralmente, mas eventualmente podem ser bilaterais. Na dependência da localização da lesão, outros sinais podem estar presentes:

Se a lesão está nos neurônios de 1ª ordem (segmento central), outros déficits neurológicos devem estar presentes, como ataxia, paresias, plegias, alterações de estado mental, alterações de outros nervos cranianos. Se a lesão está em neurônios de 2ª ordem e envolver a instumescência cervical, pode haver sinais de neurônio motor inferior no membro ipsilateral. Animais com síndrome vestibular periférica também podem apresentar síndrome de Horner, pois as fibras simpáticas passam pela orelha média muito próximo aos nervos facial e vestibulococlear. Em aproximadamente metade dos casos não se encontram outros sinais clínicos e neurológicos.

Procedimentos diagnósticos

Consiste em identificar uma causa para a ocorrência da síndrome de Horner, sendo que em gatos, ao redor de 40% não se encontra uma causa base e a condição é considerada idiopática.

Na ausência de outras anormalidades neurológicas, as causas mais comuns são afecções de orelha média e lesões cervicais. Nas afecções de orelha média, o nervo facial também pode ser afetado por proximidade, e sinais como ptose labial, reflexo palpebral ausente, queda de orelha podem ser observados.

Exame do sistema nervoso, oftálmico, otológico e exames de imagem devem ser realizados.

O teste farmacológico consiste na instilação de solução de fenilefrina a 10%, em ambos os olhos para verificar a ocorrência de midríase. A finalidade é tentar localizar em que porção da via simpática está a lesão. A fenilefrina é um agente simpatomimético, e é diluída em solução salina na proporção de 1:100. Esta solução não induz midríase no olho normal, e no olho afetado ocorre midríase após algum tempo:

- Se a lesão está no neurônio pós ganglionar (3ª ordem), a midríase ocorre em até 20 minutos.

- Se a lesão é pré ganglionar, a midríase ocorre em 20 a 45 minutos.

Caso não ocorra a dilatação da pupila, aplica-se a fenilefrina a 10% não diluída, e a dilatação ocorrerá em 20-40 minutos, sendo, portanto, considerada uma lesão pré ganglionar. Este teste pode trazer resultados equivocados, não sendo por este motivo muitas vezes utilizado. A perda da inervação simpática faz com que haja uma hipersensibilidade por denervação, motivo pelo qual ocorre a dilatação no olho ipsilateral à lesão. Utiliza-se a solução diluída para assegurar que apenas o olho com a lesão (ou seja, hipersensível) responda, uma vez que concentrações mais altas podem fazer que mesmo um olho normal possa dilatar.

 

Diagnósticos diferenciais

Outras afecções que podem causar miose incluem ceratites e uveítes, além de condições envolvendo o encéfalo.

Dor oftálmica,perda de gordura retrobulbar e fibrose dos músculos extraoculares também podem causar enoftalmia.

A protrusão da 3ª pálpebra pode ocorrer pela enoftalmia, dor oftálmica e síndrome de Haw.

Terapia

Não há tratamento específico para a síndrome de Horner. A causa base deve ser pesquisada, e se identificada, deve ser tratada.

Prognóstico

O prognóstico depende da causa e gravidade da lesão primária. Em lesões irreversíveis da inervação simpática (síndrome do plexo braquial, neoplasias no mediastino, algumas lesões iatrogênicas), a recuperação é menos provável. Geralmente, lesões pós-gangliônares possuem um prognóstico mais favorável.

A recuperação pode levar semanas ou ainda não acontecer, mas sabe-se que a condição não traz prejuízo visual ou dor.

Literatura recomendada

 

Antunes MIPP, Borges AS: Síndrome de Horner em cães e gatos. Vet. e Zootec. 2011 set.; 18(3) 339-346
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