Síndrome da hiperestesia felina

Claudia Inglez

Ultima atualização: 26 FEV DE 2020

Nomeclatura (sinônimos)

Síndrome do gato nervoso (termo popular)

Neurodermatite felina

Síndrome do rolamento da pele

Neurite felina

Epilepsia psicomotora

Nome em inglês

Twitchy cat disease

Neurodermatitis

Psychomotor epilepsy

Pruritic dermatites of Siamese

Rolling skin

 

Definição

Trata-se de uma condição incomum e pouco compreendida, em que o gato manifesta hipersensibilidade na região lombar, apresentando espasmos, fasciculações musculares e ondulações de pele da região dorsal, bem como vocalização, mordiscamento e lambedura, demonstrando visível desconforto.

Fisiopatologia

Pode ser uma desordem comportamental compulsiva, em que gatilhos causam interações complexas entre neurotransmissores que alteram a percepção sensorial, mas tais mecanismos são desconhecidos.

Etiologia

Não possui etiologia única conhecida. É, na verdade, um diagnóstico de exclusão, mas pode estar associada a uma variedade de afecções, como enfermidades dermatológicas (dermatite alérgica ou de hipersensibilidade à pulga), comportamentais (distúrbio compulsivo), ortopédicas (trauma na cauda) e neurológicas (epilepsia primária ou secundária a encefalites e tumores cerebrais, doenças espinhais).

Maior ocorrência

Animais jovens, com idade entre 1 a 5 anos parecem ser mais predispostos, mas gatos de qualquer raça e idade podem ser acometidos. Gatos siameses, persas, himalaias e abissínios estão mais representados. Não há descrição desta afecção em cães.

Anamnese

São reportadas alterações como nervosismo intenso, corridas sem sentido perseguição da cauda, lambedura e mordiscamento da região lombar e membros, parecendo que o animal está sendo atacado. Demonstra ser bem sensível ao toque da região lombar. Alguns tutores reportam que seus gatos parecem estar alheios ou alucinados, com midríase e vocalização.

Manifestações clínicas

Podem ocorrer de maneira isolada ou em conjunto, com manifestações dermatológicas, neurológicas e/ou comportamentais.

Perseguição da cauda, mordedura e lambedura da região lombar, ondulações da pele na região do dorso, espasmos e fasciculações da musculatura epaxial e facial, lambedura e mordedura do dorso, flanco, membros e cauda, midríase, agitação. Alguns gatos podem vocalizar (miados, rosnados), ou podem correr e saltar descontroladamente, e automutilação da cauda pode ocorrer.

Procedimentos diagnósticos

Consiste em pesquisar as possíveis afecções associadas:

- Exame dermatológico completo: descartar parasitas, reações alérgicas à dieta, infecções, dermatoses de hipersensibilidade e imunomediadas.

- Exame ortopédico e neurológico: descartar artropatias, enfermidades envolvendo a coluna vertebral e medula espinhal, miopatias, enfermidades encefálicas.

-  Avaliação comportamental: descartar desordens comportamentais, verificar presença de situações de estresse emocional, fisiológico ou ambiental e/ou social.

Diagnósticos diferenciais

Doenças dermatológicas, neurológicas e comportamentais, sendo que somente após as causas dermatológicas e neurológicas serem excluídas, atribui-se a um distúrbio comportamental.

Terapia

Tratar a causa de hiperestesia, se identificada. Diversos fármacos, com distintas indicações, foram propostos, porém sem estudos científicos reportando os resultados.

Situações que possam desencadear prurido cutâneo (como puliciose, alergias, inflamações e infecções) devem ser identificadas e corrigidas:

-Se há suspeita de alergia alimentar, tentar dieta hipoalergênica.

-Se há suspeita de alergia à picada de pulgas, eliminá-las do animal e do ambiente. Pode ser administrada predinisolona (1mg/kg, via oral, a cada 24 horas, por 3-5 dias).

- Fármacos para desordens de hipersensibilidade também incluem ciclosporina (7 mg/kg a cada 24 horas, via oral, até remissão dos sinais, e iniciar redução); e Oclacitinib (0,6-1,0 mg/kg a cada 12 horas, via oral, até remissão, e depois a cada 24 horas).

Se convulsões fazem parte dos episódios, anticonvulsivantes podem ser empregados:

- Fenobarbital: 2 mg/kg a cada 12 horas.

- Topiramato: 5 mg/kg a cada 12 horas, via oral. Sedação e inapetência podem ser efeitos colaterais.

Se dor é um gatilho identificado:

-Gabapentina: 3 mg/kg a cada 24 horas, via oral, podendo ser aumentada ´para 5-10 mg/kg a cada 8-12 horas, via oral, se necessário. Como efeitos colaterais, podem ser notadas sedação e ataxia.

Se há suspeita de um transtorno comportamental:

-Fluoxetina (0,5-2 mg/kg a cada 24 horas, via oral)

-Clomipramina ou amitriptilina (0,5-1 mg/kg a cada 24 horas, via oral, iniciar com a dose baixa por 3 a 4 semanas e aumentar por 3-4 semanas. Aguardar 4-6 semanas para verificar efeito). Os principais efeitos colaterais são sedação, diarreia, efeitos anticolinérgicos (retenção urinária, constipação, midríase). Antidepressivos tricíclicos devem ser utilizados com cautela ou ainda evitados se associados a outros fármacos como os inibidores seletivos de receptação de serotonina e anticonvulsivantes. Em animais predispostos a arritmias, pode haver potencialização, além de diminuir o limiar convulsivo e elevação das enzimas hepáticas.

Os episódios parecem ser mais frequentes e intensos em animais estressados, que precisam por exemplo buscar refúgio ou disputar a caixa sanitária com outros gatos. Portanto, controlar possíveis fatores estressantes pode ter efeito benéfico, como brinquedos e objetos que distraiam o gato, bem como proporcionar um ambiente tranquilo e livre de situações que possam gerar ansiedade ou medo. Ainda, idealmente, os casos de síndrome da hiperestesia felina devem ser avaliados por um especialista em comportamento.

Prognóstico

Variável, sendo que alguns pacientes respondem bem a um ou mais tratamentos listados acima. A condição pode ser controlada, porém pode não haver cura. Alguns pacientes parecem não responder a nenhuma das terapias disponíveis no momento.

 

Literatura recomendada

Amengual Batle P, Rusbridge C, Nuttall T, Heath S, Marioni-Henry K. Feline hyperaesthesia syndrome with self-trauma to the tail: retrospective study of seven cases and proposal for an integrated multidisciplinary diagnostic approach. J Feline Med Surg. 2019 Feb;21(2):178-185.

Chrisman CL: Feline Hyperesthesia Syndrome. 112th IN VMA Conference Proceedings 1996.
Ciribassi J: Understanding behavior: feline hyperesthesia syndrome. Compend Contin Educ 2009 Vol 31 (3) pp. E10.
Frank D: Feline Obsessive-Compulsive Disorders. 26th Annual World Small Animal Veterinary Association Congress 2001.
Negrin A, Spencer S, Cherubini GB. Feline meningoencephalomyelitis of unknown origin: A retrospective analysis of 16 cases. Can Vet J. 2017 Oct;58(10):1073-1080.
Virga V.: Behavioral Dermatology: Acral Lick Dermatitis, Psychogenic Alopecia, Hyperesthesia, & Related Conditions. Atlantic Coast Veterinary Conference Proceedings 2002.

 

 

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