Síndrome da Dilatação e Vólvulo-Gástrica (SDVG)

Dr Fernando Maschio

Ultima atualização: 06 JAN DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

  • Torção gástrica
  • Inchaço
  • Timpanismo pós-prandial

Nome em inglês

gastric dilatation-volvulus syndrome

Definição

Consiste na dilatação do estômago pela formação de gás associado a rotação em seu próprio eixo.

Fisiopatologia

Ocorre devido a uma alteração na posição normal do estômago associado a obstrução funcional ou mecânica da saída gástrica, sendo a causa primária dessa obstrução ainda desconhecida, entretanto, uma vez que o estômago dilata, os meios fisiológicos normais de remoção do ar, como eructação, vômito e esvaziamento pilórico, são prejudicados. Conforme o estômago continua a se distender, o corpo estomacal gira em torno do eixo longitudinal do esôfago, piloro e duodeno migram cranioventralmente da direita para a esquerda e, por fim, dorsalmente ao esôfago e ao estômago.  A rotação horária do estômago é mais comum, ocorrendo em praticamente todos os cães com SDVG. A torção pode se apresentar parcial ou total, mas geralmente é observada a torção completa

O grande volume ocupado pelo estômago distendido resulta em uma pressão anormal sobre o tórax e o diafragma promovendo dificuldade respiratória. 

A dilatação gástrica e a alta pressão dentro do abdômen gera obstrução da veia porta, veia cava caudal e vasculatura esplênica, ocasionando redução do retorno do sangue até o coração, hipertensão portal e aglutinação do sangue no baço.

Vários fatores ocasionam isquemia gástrica, a tensão gástrica aumentada, bloqueio da saída da veia gástrica, enfarte da microcirculação, tumefação gástrica, débito cardíaco diminuído e expulsão ou enfarte das artérias curtas e epiplóicas da curvatura maior.

Etiologia

A causa da SDVG é desconhecida, mas provavelmente multifatorial.

Fatores como o exercício após a ingestão de grandes quantidades de alimento ou água, alimentação com rações ricas em soja ou cereal, hábito de fornecer alimento uma única vez ao dia para o animal e deixar a tigela de alimentação em um local elevado (promove a aerofagia) são os principais fatores apontados como predisponentes.

Maior ocorrência (raça. idade, gênero, localização geográfica)

Espécie: Canina, raramente em gatos

Raças e idade:  Ocorre primariamente em cães de peito largo e profundo (Weimaraner, São Bernardo, Fila, Pastor Alemão, Golden Retriever, Labrador) mas foi relatado em animais de raças pequenas e médias, sendo o Shar Pei predisponente dentre as raças médias. Mais comum e animais de meia idade ou mais velhos.

 

Achados de Anamnese

Histórico de abdôme timpânico e progressivamente distendido.

Geralmente tutor relata ter encontrado o animal em decúbito apresentando dor abdominal.

Tutor também pode referir ter ouvido um latido alto e depois encontrar o animal prostrado ou jogado no chão com presença de intensa dor abdominal.

Manifestações clínicas

De modo geral os cães demonstram sialorreia e mimicas de vômitos constantes, contudo, sem gerar conteúdo.

Ao palpar a região do abdômen frequentemente revela graus de timpanismo ou distensão abdominal, porém é dificultoso sentir uma dilatação do estômago nos cachorros de grande porte, musculosos e acima do peso, sendo viável a realização do teste de percussão. 

Sinais clínicos associados ao choque podem estar presente incluindo pulso periférico fraco, tempo de preenchimento capilar aumentado, mucosas pálidas e dispneia.

Procedimentos diagnósticos

 

  • Baseia-se no histórico, raça, idade e sinais clínicos.

 

  • Radiografia simples: após a realização de abdomnocentese para descomprimir o estômago e consequentemente outras estruturas, pode ser realizada a radiografia, sendo as posições dorsoventrais e decúbito lateral direito preferíveis.

Diagnósticos diferencias

  • Dilatação gástrica simples
  • Vólvulo do intestino delgado
  • Torção esplênica primária
  • Hérnia diafragmática
  • Ascite

 

Terapia inicial

Estabilizar o paciente é o objetivo principal.

O tratamento inicial é a descompressão gástrica e a terapia de choque para aumentar o retorno venoso ao coração, o que aumenta o rendimento cardíaco e a perfusão tecidual. 

Um ou mais cateteres devem ser colocados a fim de permitir a administração de grandes quantidades de fluidos visando a estabilidade hidroeletrolítica e volêmica, sendo indicado o uso de soluções colóides. 

A administração de terapia antibiótica de faz necessária pela possibilidade de translocação bacteriana e peritonite.

A descompressão do estômago deve ser realizada durante o início da terapia para choque.

O estômago pode ser descomprimido percutaneamente com cateteres intravenosos de grosso calibre ou com um pequeno trocarte ou  preferencialmente, pode-se passar um tubo estomacal.

Ter cuidado com tentativas vigorosas de passagem do tubo, a torção gástrica pode ser um impedimento para a passagem do mesmo podendo promover lesões em esôfago e cardia, sendo então, a descompressão percutânea recomendada.

 

  • Cirúrgico: a cirurgia deve ser realizada assim que a condição do paciente for estabilizada, mesmo ocorrendo a descompressão estomacal, pois a obstrução circulatória causada pela rotação, ainda que não distendido, pode potencializar a necrose gástrica.

Os objetivos do procedimento cirúrgico são: (1) inspeção de estomago e baço para identificação e remoção de tecido inviável; (2) descomprimir e corrigir posicionamento; (3) aderir o estômago à parede evitando novas rotações. 

 

A realização da esplenectomia é necessária quando constatado a inviabilidade do parênquima esplênico.

 

Terapia de manutenção

Após a realização da gastropexia, o cuidado com o retorno alimentar deve ser tomado, o fornecimento de alimento pastoso nas primeiras 12 a 24 horas é indicado, sempre em pequenas quantidades.

O paciente deve ficar sobre observação intensiva, a fim de corrigir qualquer distúrbio hidroeletrolítico, cardíaco ou respiratório.

O repouso deve ser adotado diminuído os riscos de ruptura interna de pontos.

 

Prognóstico

O tempo é o principal fator relacionado a um prognóstico bom ou não, sendo a necrose gástrica, sepse e a peritonite as principais complicações associadas

 

Literatura recomendada

DUPRÉ, G. Dilatacion-volvulo gástrico (DVG) em El perro. Waltham Focus. Corlouer, JP. Volume 4 nº3, 1994

 

EVANS KM, ADAMS VJ. Mortality and morbidity due to gastric dilatation-volvulus syndrome in pedigree dogs in the UK. J Small Anim Pract. 2010 Jul;51(7):376-81

 

FOSSUM, T.W. Cirurgia do Aparelho Digestório. Cirurgia de Pequenos Animais. 3ª ed. São Paulo: Roca. p. 346-351/354-360.2005

 

GREEN, T.I. et al. Evaluation of initial plasma lactate values as a predictor of gastric necrosis and initial and subsequent plasma lactate values as a predictor of survival in dogs with gastric dilatation-volvulus: 84 dogs (2003-2007). Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, v.21, n.1, p.36- 44, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cr/v42n1/a1812cr5763.pdf. Acesso em: 02 nov. 2019.

LEVINE M, MOORE GE. A time series model of the occurrence of gastric dilatation-volvulus in a population of dogs. BMC Vet Res. 2009 Apr 15;5:12.

MACKENZIE G, BARNHART M, KENNEDY S, et al .: A retrospective study of factors influencing survival following surgery for gastric dilatation-volvulus syndrome in 306 dogs. J Am Anim Hosp Assoc. 2010 Mar-Apr;46(2):97-102.

 

MACPHAIL, C. Controversies in gastric dilatacion-volvulus syndrome. In: Latin american veterinary conference (Proceeding of the LAVC). Apr. 23-26, 2012 – Lima, Peru.

 

MONNET, Eric. Gastric Dilatation-Volvulus Syndrome in Dogs. The Veterinary Clinics Small Animal Practice. p.987-1005. 2003.

 

NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Medicina interna de pequenos animais. 3. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. Cap. 32. p. 412-413.

 

SLATTER, D. Manual de cirurgia de pequenos animais, vol. 1. 3. Ed. Barueri, SP: Manole, 2007.

Educação ao cliente

A síndrome de dilatação e vólvulo gástrico trata-se de uma anormalidade anatômica do estômago, não estando ele posicionado adequadamente dentro do abdômen.

Este mal posicionamento anatômico promove uma dilatação visível do abdômen deixando-o abaulado e a obstrução do correto fluxo sanguíneo, promovendo diversas alterações no organismo no animal.

As causas destas anormalidades ainda são desconhecidas, contudo, pode estar associado à animais de porte grande, com tórax profundo e que ingerem grandes quantidades de alimento e água uma única vez ao dia.

As principais raças predispostas à sofrer desta condição são: Weimaraner, São Bernardo, Fila, Pastor Alemão, Golden Retriever, Labrador.

Todavia, raças de pequeno e médio porte também são passíveis de desenvolver esta síndrome.

Os sinais clínicos perceptíveis, geralmente, são a dor abdominal, distensão ou inchaço abdominal, dificuldade respiratória e prostração.

Isso tudo geralmente ocorre após a ingestão de uma grande quantidade de comida, ainda mais quando o seu animal tem o habito de brincar após se alimentar.

O diagnóstico é baseado no histórico por você relatado, raça, idade, sinais clínicos do seu animal e principalmente a radiografia abdominal.

 O tratamento inicialmente visa diminuir a dilatação e estabilizar o animal para que ele possa ser submetido, com maior segurança, ao procedimento cirúrgico.

A cirurgia é fundamental para que se observe internamente a necessidade de remoção de algum órgão ou porção de órgão inviáveis, devolução do estômago à sua posição anatômica normal e para a fixação interna do estômago, impedindo um nova torção. 

Caro tutor, o tempo entre a torção e a realização do tratamento é fundamental para o sucesso no tratamento, por tanto, ao observar algum destes sinais relatados acima, encaminhe-se o mais rápido possível para o atendimento veterinário. Fique também atento para algumas recomendações.

-Alimentar o animal em varias refeição ao diz em vez de uma só

-Evitar o estresse durante as refeições, se necessário separar os cães neste momento

-Não colocar a tigela de alimentação em local elevado, evitando que ao comer o seu animal ingira ar

O prognóstico desta afecção depende do tempo de intervenção médica,  do grau de lesão dos órgão envolvidos e grau de comprometimento sistêmico.

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