Salmonelose

Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nome em Inglês

Salmonellosis

Sinônimos

Infecção por Salmonella

Definição

A salmonelose trata-se de uma zoonose transmitida por contato íntimo com as secreções entre os indivíduos, com por exemplo crianças e/ou adultos imunossuprimidos com animais. 

A Salmonella, é uma bactéria que faz parte da microbiota do intestino juntamente com inúmeras outras bactérias.

Este gênero pode ser encontrado em diversos mamíferos, aves, répteis e até mesmo em insetos. 

Etiologia e Fisiopatogenia

A Salmonella, é um microrganismo que pertence a família das Enterobacteriaceae, um bacilo gram-negativo anaeróbico e intracelular facultativo.

Apesar de muitos sorotipos já terem sido catalogados e embora não haja especifidade entre os sorotipos e o hospedeiro, algumas cepas são melhores adaptadas as espécies animais. No Brasil, as cepas de Salmonella enterica subespécie enterica são as mais prevalentes, associadas ao grande consumo da população na ingestão de ovos e aves.

Segundo a literatura, o agente que de maior relevância relatado acima tem a classificação taxonômica atual como Salmonella enterica subesp. enterica sorotipo Typhimurium, sendo esta usada atualmente como S. Typhimurium pela maioria dos microbiologistas.

Além, deste mais um sorotipo causa doença clínica em animais e humanos sendo ele denominado como S. Enteritidis.

Para que a Salmonella provoque manifestações clínicas e patológicas nos indivíduos acometidos  dependemos do sorotipo envolvido e da espécie do hospedeiro. 

A infecção por Salmonella ocorre quando o microrganismo é ingerido por meio de alimentos ou água contaminada.

Diante do ácido estomacal estas bactérias apresentam uma boa tolerância, já em pH mais altos ocorre uma diminuição inicial da infecção.

As bactérias que sobrevivem ao passar pelo estômago, colonizam as porções médias do íleo, ligando-se as vilosidades, as invadindo e se multiplicando.

Estudos mostram que a análise microscópica do agente revelam invasão das células epiteliais através de endocitose bacteriana.

Após atravessar o epitélio intestinal a Salmonella causa infecção sistêmica, levando a uma diminuição de células de defesa e macrófagos do organismo do hospedeiro, e se não for instituído tratamento precoce a uma possível infecção generalizada.

Como fatores de virulência do microrganismo ressalta-se a presença de cápsula (k), flagelo (H), adesinas (P), plasmídios, enterotoxinas e lipopolissacarídios de membrana (LPS).

Ainda pode-se supor que os sorotipos mais patogênicos podem se multiplicar intracelularmente.

Estudos mais recentes afirmam que algumas cepas de salmonela podem produzir enterotoxina termolabial  estando relacionada com a ocorrência de diarreia.    

As fontes de infecção mais importantes são os cães portadores latentes que vivem em superpopulações como canis, fômites, água e alimentos contaminados (principalmente carnes cruas).

A água contaminada por fezes e esgoto não tratado é um importante carreador do microrganismo, porque as populações aquáticas podem servir como monitor microbiológico uma vez que abrigam o agente em seu trato gastrointestinal.

A salmonelose causa diarreia devido a enterite em cães, porém alguns animais são assintomáticos, podendo eliminar o microrganismo por até 4 semanas.

A enterite e a septicemia acomete principalmente animais jovens, de até um ano de idade, mas ocorre predomínio de cães infectados geralmente com menos de 4 meses de vida.

Mas vale lembrar que animais idosos e imunocomprometidos também podem desenvolver a doença. Segundo a literatura, existem evidências que a salmonela produz enterotoxinas lábeis ao calor, que levam a um aumento da secreção líquida através da mucosa intestinal,  justificando a intensa diarreia. 

A salmonelose é uma doença de grande preocupação tanto para saúde dos animais de companhia por manifestarem quadros clínicos graves da doença, quanto para os seres humanos que podem ser contaminados por eventuais animais considerados reservatórios do agente.

 

Maior ocorrência

Não existe predileção por sexo, com exceção de cadelas com piometra.

Isso ocorre devido a  proximidade da genitália com o ânus originando uma infecção ascendente. 

Filhotes de cães e gatos com menos de 1 ano de idade são mais suscetíveis a infecção e a desenvolver a doença. 

Observa-se em épocas mais chuvosas o aumento dos casos da doença devido a contaminação das fezes dos animais com as águas pluviais. 

Ambientes onde existe acúmulo de matéria orgânica, muitos animais convivendo em locais pequenos e pouco arejados, favorecem a infecção e transmissão do agente entre os indivíduos. 

Mudanças bruscas na dieta, estresse e transporte podem alterar a microbiota entérica e causar aumento no número de salmonela.

 

Achados de anamnese

Além da diarreia, outros sintomas podem ser observados como dor abdominal, febre (40° e 41°C), alternações com tenesmo e períodos de diarreia (líquida, mucoide com ou sem presença de sangue).

Emese, hipersalivação em gatos, desidratação, prostração, anorexia, perda de peso e aborto também são relatados na literatura.

Mucosas pálidas, fraqueza, severa desidratação, icterícia e choque também podem acontecer. 

Manifestações Clínicas

As manifestações dependem diretamente da quantidade de microrganismos infectantes, do estado imunológico do animal, da virulência do agente e se existem outras comorbidades associadas. 

A maioria dos quadros iniciam em 3 a 5 dias após exposição ao agente. 

Sabe-se que animais com sistema imunológico comprometido tendem a desenvolver sintomas mais severos e podem vir a óbito rapidamente devido a bacteremia e endotoxemia.

Procedimentos Diagnósticos

Hemograma

As alterações variam de acordo com o estágio da doença. Pode-se observar anemia hipocrômica arregenerativa. 

Leucopenia por neutropenia com desvio à esquerda, presença de neutrófilos tóxicos (endotoxemia) e linfopenia. 

Trombocitopenia.

Em casos crônicos pode ocorre leucocitose por neutrofilia.

Teste de coagulação

Os testes podem estar prolongados em animais em CIVD.

Avaliação Bioquímica

Hipoproteinemia, principalmente hipoalbuminemia

Hipoglicemia

Azotemia

Hiponatremia

Hipercalemia

Cultivo bacteriano

O diagnóstico definitivo é o isolamento da Salmonella nas fezes e em outros tecidos clínicos suspeitos.

Quando encontrada em locais extraentéricos existe um forte indicativo de salmonelose clínica.

Para este cultivo, deve-se coletar material do fígado, baço, linfonodos mesentéricos, medula óssea, pulmões e do trato intestinal durante a necrópsia.

De amostras coletadas de vômito, fezes ou cavidade oral, o isolamento pode não indicar doença clínica, uma vez que pacientes assintomáticos carregam a bactéria no seu organismo.

O cultivo bacteriano através de coleta de material deve ser feito em swab estéril e encaminhadas ao laboratório o mais rápido possível.

Estas amostras devem ser incubadas e semeadas em meios de cultura que favoreçam o crescimento da Salmonella spp. e testes para sorotipagem e antibiograma devem se realizados antes do início do tratamento. 

PCR (Reação em cadeia de polimerase)

O PCR real time tem sido utilizado para detecção de salmonela em amostras fecais de cães. 

Testes de ELISA ainda não são bem empregados na medicina veterinária, estão disponíveis mais a título de pesquisa. 

Tratamento Inicial

Separação dos animais contaminados dos animais saudáveis é de suma importância.

Os animais doentes devem receber terapia suporte como fluidoterapia, protetores gástricos, anti-eméticos e probióticos.

Evitar o uso de terapia com antibióticos sem diagnóstico prévio de infecções bacterianas, para evitar ao máximo resistência aos microrganismos.

Realizar desinfecção do ambiente onde os animais estiverem alojados, retirando-os do mesmo e promovendo a limpeza com hipoclorito de sódio a 2% ou cresol a 2%.

Além disso deve-se observar os animais assintomáticos.

Terapia de suporte e manutenção

Antibióticos considerados eficazes incluem o cloranfenicol, sulfonamida-trimetoprim e amoxicilina.

Observa-se que os isolados geralmente são sensíveis as quinolonas e imipenem. Mas estes só são recomendados quando há instalação de sepse, evitando estimular resistência bacteriana.

Pode haver resistência ou não à eritromicina, sulfonamidas, nitrofurantoína e ampicilina.

Encontrados com maior frequência à estreptomicina e tetraciclinas resistentes a salmonela. 

O emprego da antibioticoterapia não deve ser preconizado em casos de animais com sintomas leves de gastroenterite, e sim naqueles que evidenciem o quadro clínico da doença ou aqueles imunocomprometidos. 

 

Prevenção

Sempre manter os locais onde os animais vivem com medidas eficazes de higiene e correta manipulação de cães e gatos.

Limpeza, desinfecção de alojamentos, canis, gatis, baías, comedouros, bebedouros, equipamentos, instrumentos, fômites, devem passar por rígida descontaminação e controle visando diminuir e evitar a proliferação do microrganismo.

Os hábitos de felinos domésticos podem trazer infecções indesejáveis por Salmonella, uma vez que a ingestão de carne crua e hábito de caça aumentam a probabilidade de contaminação.

Os gatos parecem ser mais resistentes a desenvolver a infecção por salmonela em todos os sítios orgânicos.

Por se tratar de um microrganismo que pode causar doença subclínica crônica ou infecção latente, torna-se difícil o controle e erradicação da salmonelose nos animais de companhia. 

Além disso, o mercado de pets não convencionais vem crescendo e o convívio de répteis com humanos e animais também, ainda não esta bem caracterizado e controlado as possíveis fontes de infecção destes animais ou se estes seriam apenas reservatórios do agente.

Diagnóstico Diferencial

Colibacilose

Ancylostoma caninum

Parvovirose

Enterite por Clostridium sp.

Giardíase

Helicobacteriose

Doença inflamatória intestinal

Coronavirose

Coronavirus entérico canino

Nematóide intestinal

Pancreatite

Campilobacteriose

Coccidiose

Gastrite

Dieta

Criptococose

Prognóstico

O prognóstico costuma ser excelente quando não há complicações, as manifestações tendem a ser auto limitadas.

A recuperação nos quadros agudos ocorrem geralmente de 3 a 4 dias e a forma crônica pode levar até 8 semanas. 

Paciente jovens e idosos imunocomprometidos podem apresentar quadros mais severos e se não for empregado tratamento adequado a doença pode ser fatal.

Literatura recomendada

 

ARIAS, Mônica Vicky Bahr et al. Resistência antimicrobiana nos animais e no ser humano. Há motivo para preocupação?. Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal, Londrina, v. 33, n. 2012, p. 775-790, 2 abr. 2012. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/4457/445744112039.pdf. Acesso em: 7 nov. 2019.

DA PAIXÃO, Tatiane Alves et al. Enfermidades pelo Gênero Salmonella. In: MEGID, Jane et alDoenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 45, p. 478-493. ISBN 978-85-277-2789-1.

GREENE, Craig E. Enteric Bacterial Infections: Salmonellosis. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: ELSEVIER, 2006. cap. 39, p. 340-369. ISBN 978-1-4160-3600-5.

LEOMIL, Luciana. Escherichia coli e Salmonella. In: JERICÓ, Marcia Marques et alTratado de medicina interna de cães e gatos. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015. cap. 99, p. 2615-2633. ISBN 978-85-277-2666-5.

SAAD, Flávia Maria de Oliveira Borges. Alimentação natural para cães e gatos. Revista Brasileira de Zootecnia, [S. l.], ano 2010, v. 39, p. 52-59, 2010. Disponível em: http://www.sbz.org.br/revista/artigos/8807.pdf. Acesso em: 6 nov. 2019.

Anexos referente a esta consulta rápida

O conteúdo deste site é para uso exclusivo e restrito dos associados. Apenas Médicos Veterinários graduados e estudantes de Medicina Veterinária são autorizados a acessar este site.

Não está permitida a divulgação de qualquer conteúdo sem a prévia autorização do Vetsapiens, por escrito. Os Médicos Veterinários são os únicos responsáveis pelo tratamento e cuidado de seus pacientes.

Quaisquer recomendações de colegas ou especialistas recebidas através deste site são meras opiniões individuais, e cada clínico é o exclusivo responsável pelo manejo de seus pacientes. Os fármacos e doses recomendadas ou calculadas no Vetsapiens devem ser sempre conferidos antes de sua aplicação.

Veterinários não devem utilizar medicações e ou protocolos com os quais não estejam familiarizados e confortáveis. O Vetsapiens preconiza que o encaminhamento para especialistas seja sempre a primeira recomendação dos clínicos gerais ao se depararem com casos clínicos além do seu conhecimento.

As imagens e informações trocadas neste site não substituem o exame físico do paciente, e a relação exclusiva entre veterinário-paciente-cliente. As imagens aqui postadas não podem ser consideradas de qualidade diagnóstica.

Toda e qualquer informação obtida neste site deve ser considerada apenas como uma sugestão individual e não tem qualquer valor diagnóstico.

Desenvolvido por logo-crowd