Retinopatia Hipertensiva em felinos

Dra Flavia Rodrigues Souza Paes

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Doença hipertensiva da retina

Coroidopatia hipertensiva

Nome em inglês

Feline Hypertensive Retinopathy

 

Definição

A retinopatia hipertensiva é uma alteração do fundo de olho felino, ela vai surgir quando o paciente apresentar uma pressão arterial sistólica sustentada maior que 160 a 180 mmHg, ou pressões diastólicas maiores que 110 mmHg.

Fisiopatologia

A progressão da retiniopatia hipertensiva envolve a vasoconstrição pré-capilar das arteríolas retinianas, levando a necrose da musculatura lisa vascular, veias retinianas tortuosas e eventualmente, pode levar a hemorragias sub ou intra-retinianas e efusões.

Essas alterações vão levar a descolamentos de retina de diferentes proporções.

Etiologia

A etiologia dessas retinopatias são idiopáticas ou espontâneas.

A hipertensão arterial primária é rara em gatos.

Geralmente há sempre uma doença de base que pode estar causando hipertensão, estas doenças podem ser: doença renal crônica, hiperadrenocorticismo, doença cardíaca, hipertireoidismo, neoplasias da glândula adrenal (hiperaldosteronismo), hiperglicemia e dietas com excesso de sal.

Maior ocorrência

Esta doença é comum em felinos idosos, com mais de 10 anos de idade.

Não há predisposição racial ou sexual.

Anamnese

Na anamnese a principal queixa é de midríase permanente e perda de visão.

Devem ser pesquisadas alterações que ocorrem nas doenças primárias que vão levar a retinopatia. 

Manifestações clínicas

Pacientes com retinopatia hipertensiva geralmente não apresentam manifestações clínicas da doença até que se tornem cegos.

Em estágios mais avançados já apresentam midríase e perda de visão.

As manifestações da doença só podem ser observadas através de exame de fundoscopia, onde o médico veterinário poderá observar: descolamentos de retina total ou parcial, edema retiniano (lesões tapetais hiporreflexivas multifocais), hemorragias retinianas, subretinianas, intraretinianas e pré-retinianas, descolamentos de retina bolhosos (seroso ou hemorrágico).

As hemorragias também podem ocorrer em câmara vítrea e em câmara anterior (hifema) impedindo a visibilização do fundo de olho. 

O glaucoma pode estar presente secundário ao hifema, podendo levar a buftalmia, congestão episcleral e edema corneano.

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico da doença é feita com base no exame oftalmológico.

Inicialmente são avaliadas câmara anterior e vítrea em busca de hemorragias e em seguida é realizada a fundoscopia.

A tonometria deve ser realizada em pacientes que apresentem hifema.

Após observação das lesões de fundo são necessários alguns exames para certificar-se da hipertensão e pesquisar as causas primárias.

  • Mensuração da pressão arterial: a pressão arterial sistêmica deve ser aferida em repetidas mensurações para certificar-se da hipertensão. Essa pode ser feita pelo método oscilométrico ou doppler.
  • Perfil sanguíneo: hemograma, uréia, creatinina, glicemia e urinálise. Eles vão auxiliar na pesquisa da causa, sendo a doença renal crônica muito comum nesses pacientes.
  • Testes endócrinos: T4 e T3 para pesquisa de hipertireoidismo
  • Ecocardiograma
  • RX de tórax e Ultrassom abdominal também podem ser realizados dependendo da suspeita do veterinário.

Diagnósticos diferencias

A retinopatia hipertensiva deve ser diferenciada de outros tipos de coriorretinites e de outras doenças que causem midríase.

Terapia inicial

O objetivo da terapia é baixar a pressão arterial rapidamente para evitar a progressão da doença e em alguns casos reverter as lesões retinianas e retornar e visão.

O alvo da nossa terapia é que a pressão arterial sistólica esteja abaixo de 160 mmHg e a pressão artérias diastólica abaixo de 100 mmHg.

A droga de escolha para tratamento da hipertensão em felinos é a Amlodipina, um bloqueador dos canais de cálcio, na dose de 0,625 a 1,25 mg/ animal, VO a cada 24 horas.

Em casos refratários ao tratamento com Anlodipina podem ser associados os inibidores da enzima conversora da angiotensina ( ECA):

  • Enalapril: 0,5mg/kg, VO, a cada 12 ou 24 horas
  • Benazepril: 0,25 a 0,5 mg/Kg, VO, a cada 24 horas.

Os beta-bloqueadores são inicialmente indicados nos casos de taquiarritmias causadas pelo hipertireoidismo felino e em casos de aumento do efeito inotrópico.

O mais utilizado é o propranolol na dose de 2,5 – 10 mg/animal, VO, cada 8 a 12 horas.

Em casos que a hipertensão é causada por excesso de sódio na dieta é necessário que sejam prescritas dietas com níveis adequados desse mineral.

Em casos de doenças endócrinas essas devem ser tratadas quando possível.

Terapia de manutenção

Após a introdução das drogas anti-hipertensivas, a pressão arterial deve ser monitorada a cada 5-7 dias para avaliar a resposta ao tratamento. 

O exame ocular oftalmológico completo deve ser realizado após 2 semanas de tratamento e depois periodicamente para certificar-se que novos pontos de hemorragia retiniana não estão surgindo. 

A suspensão desses medicamentos só é possível em casos em que a causa primária da doença pode ser revertida ou curada.

Prognóstico

O prognóstico varia de acordo com a severidade das lesões oculares.

Também vai ser influenciado pelo grau de aumento da pressão arterial e pela possibilidade de controle ideal da mesma.

Pequenos focos de hemorragia retiniana geralmente diminuem, apresentando cicatrizes e sequelas mínimas.

Extensas áreas de hemorragia retiniana geralmente levam a descolamento de retina e perda permanente da visão, ou podem deixar sequelas mais acentuadas e graves.

O prognóstico é pior para descolamentos de retina que são associados a grandes sangramentos ou descolamentos que não tiveram um rápido diagnóstico.

Em gatos os descolamentos de retina são mais difíceis de retornar a visão que descolamentos em cães.

O prognóstico é melhor para casos onde a causa primária da hipertensão pode ser tratada com sucesso.

Sendo desfavorável nos casos de descolamentos totais de retina.

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