Rangeliose

Dra Cristiene Rosa

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura

Reino: Protista

Sub-reino: Protozoa

Filo: Apicomplexa

Classe: Sporozoa

Ordem: Piroplasmida

Família: Babesiidae

Gênero: Rangelia

Espécie: Rangelia vitalii

Nome em inglês

canine rangeliosis

Definição

Também conhecida por nambyuvú, peste do sangue, mal do sangue, febre amarela canina, a rangeliose canina é uma doença relacionada com distúrbios hematológicos e hemorrágicos causada pelo protozoário Rangelia vitalii, transmitida pelos carrapatos  Rhipicephalus sanguineus e Amblyomma aureolatum.

Por muitos anos, casos de rangeliose foram erroneamente confundidos com babesiose.

 

Fisiopatologia

As alterações hematológicas são decorrentes da hemólise extravascular e resposta imunomediada, justificam a anemia e a intensa trombocitopenia.

Assim eritrócitos não infectados são fagocitados (eritrofagocitose) e capturados por órgãos linfoides, como o baço, onde são destruídos, o que explica a esplenomegalia.

Há liberação de células jovens pela medula óssea (reticulócitos e policromatófilos) em decorrência da hemólise extravascular.

Na infecção por Rangelia vitalii não ocorre hemólise intravascular, diferente da babesiose canina, não há hemoglobulinemia ou hemoglobinúria.

Outro contraponto é o fato de a Rangelia também parasitar tecidos, pois além do estágio de desenvolvimento nos eritrócitos, em uma fase inicial de infecção, há outro em células do endotélio vascular de capilares sanguíneos.

Os sangramentos através de orifícios naturais e pele e a existência de hemorragias em diferentes tecidos e órgãos, comuns nesta enfermidade, ainda não possui um mecanismo patogenético conhecido consistente.

Uma explicação seria a ruptura de capilares sanguíneos devido ao parasitismo do endotélio e a vasculite devido ao depósito de imunocomplexos.

As lesões do endotélio vascular do sistema digestório podem levar o hospedeiro a alterações entéricas, como diarreia sanguinolenta, com estrias de sangue, a chamada “Nambyuvú das tripas”.

O quadro pode levar a severa desidratação.

Etiologia

O protozoário Rangelia vitalii é caracterizado por infectar hemácias, leucócitos e células do endotélio vascular.

Organismo pleomórfico, de citoplasma abundante, que se cora fracamente pela coloração de panótico rápido, com núcleo pequeno e arroxeado.

 

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

A enfermidade acomete principalmente cães jovens, principalmente de áreas periurbanas e rurais, ou que tem acesso a estes locais.

Também foi descrita em cães de caça, que tem acesso a áreas contaminadas por carrapatos, como regiões de mata.

Achados de anamnese

Cães parasitados por carrapatos provenientes de áreas rurais, periurbanas, ou de mata com sinais clínicos sugestivos de hemoparasitose.

Manifestações clínicas

A doença pode se apresentar de três formas clínicas, dependente da idade e estado imune do hospedeiro: a) forma aguda ou ictérica - pode durar em média três dias; b) forma subaguda ou hemorrágica – com duração de oito a 15 dias; c) forma crônica (leve e benigna) – 18 a 25 dias.

As manifestações clínicas podem se manifestar por febre, apatia, anorexia, mucosas pálidas, seguida de icterícia, hepatoesplenomegalia, gastroenterite, com diarreia sanguinolenta inicialmente alaranjada, presença de estrias de sangue (Namby-uvú das tripas), vômito, desidratação, perda de peso, linfadenopatia, dispneia, sangramento espontâneo das orelhas, narinas, boca, e ânus, petéquias e sufusões de pele e mucosa oral.

Também podem apresentar, edema cutâneo de membros pélvicos.

Procedimentos diagnósticos

Hemograma:

Sangue com EDTA - na maioria dos casos a anemia macrocítica hipocrômica acentuada, com presença de reticulócitos (regenerativa), eritrofafocitose, esferocitose, policromasia, presença de corpúsculos de Howell-Jolly, monócitos ativados.

A identificação do piroplasma não é frequente, quando encontrado, apresenta morfologia pleomófica semelhante à Babesia, já identificada no interior de monócitos e neutrófilos.

No leucograma observa-se leucocitose por neutrofilia, acompanhada do aumento de bastonetes e metamielócitos, linfocitose e monocitose.

A trombocitopenia pode ser observada, mas não está presente em todos os casos.

Bioquímico:

Soro ou plasma de acordo com o bioquímico pesquisado - soro ictérico, aumento na alanino aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), na creatinoquinase (CK), uréia, creatinina e gamaglutamiltransferase (gamaGT), apesar de haver relatos em que as últimas três encontravam-se dentro dos parâmetros.

Urina tipo I:

Urina - urina de aspecto turvo com grande quantidade de pigmentos biliares.

Biologia molecular:

Sangue total com EDTA - a PCR é a técnica recomendada para diferenciar Babesia do gênero Rangelia.

No mercado também há combos com diferentes agentes responsáveis por doenças anemiantes.

Diagnósticos diferenciais

erliquiose, babesiose, leptospirose, hepatozoonose, leishmaniose visceral.

 

Terapia inicial

Doxiciclina (10 a 15 mg/kg/via oral, por 28 a 30 dias). 

Dipropionato de imidocarb (5 a 6,6mg/kg/subcutâneo, repetir após 14 dias) associado a atropina (0,04mg/kg/subcutâneo, 15 minutos antes da aplicação do imidocarb).

Terapia de suporte e manutenção

Fluidoterapia

Transfusão: avaliar em casos de hematócrito <14%, sendo fortemente indicada quando <10%.

Predinisolona (1 a 2 mg/kg/uma vez ao dia, por 7 a 14 dias).

Controle do carrapato no animal e no ambiente.

Literatura recomendada

GOTTLIEB, J. Babesia canis, Ehrlichia canis e Rangelia vitalii: aspectos clínicos, parasitológicos, hemato-sorológicos e moleculares de cães infectados da região de Passo Fundo – RS – Brasil. 2014. Dissertação (Mestrado). 46. f. Bioexperimentação. Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo. 2014.

FIGHERA, R.A. Rangeliose. Acta Scientiae Veterinariae. v. 35(Supl 2): s261-263, 2007

LEMOS, T.D.; TOMA, H.K. ; ASSAD, R.Q.; SILVA, A.V.; CORRÊA, R.G.B.; ALMOSNY, N.R.P. Clinical and hematological evaluation of Rangelia vitalii-naturally infected dogs in southeastern Brazil. Braz. J. Vet. Parasitol., v. 26, n. 3, p. 307-313. 2017. Doi: http://dx.doi.org/10.1590/S1984-29612017040

LORETTI, A.P.; BARROS, S.S. Parasitismo por Rangelia Vitalii em cães ("Nambiuvú", "Peste De Sangue") - Uma revisão crítica sobre o assunto. Arq. Inst. Biol., São Paulo, v.71, n.1, p.101-131, 2004

SOARES, J.F. História natural da rangeliose. 2014. 121. f. Tese (Doutorado). Epidemiologia Experimental e Aplicada ás Zoonoses, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

VIEIRA, F. T. Ocorrência de Ehrlichia spp., Anaplasma spp., Babesia spp., Hepatozoon spp. e Rickettsia spp. em cães domiciliados em seis municípios do Estado do Espírito Santo, Brasil. 2017. 62. f. Tese (Doutorado). Doenças Infecciosas, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2017.

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