Prototecose

Dr Maurício Piovesan Henrique

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Algose

Nome em inglês

Protothecosis

Definição

A prototecose refere-se à doença causada por microorganismos do gênero Prototheca. 

Fisiopatologia

Existe uma variação da fisiopatogenia nas espécies canina e felina.

Nos cães, a via oral é a principal forma de infecção, podendo acarretar na forma sistêmica da doença; porém, também existem relatos de prototecose cutânea decorrente de inoculação traumática ou contaminação de feridas.

Após a ingestão da alga por via oral, ocorre disseminação pelas vias hematógena e linfática, principalmente em animais imunocomprometidos.

A ação do microorganismo leva à formação de piogranulomas que acometem principalmente trato gastrintestinal, mas também sistema nervoso, rins e olhos.

Nas mucosas intestinais, as lesões podem ser extensas, eritematosas, nodulares e ulceradas; no sistema nervoso, as lesões são tipicamente caracterizadas por focos necróticos circundados por infiltrado inflamatório; nos rins, tipicamente formam-se granulomas grandes, de centímetros, circundados por anel hemorrágico; já nos olhos é possível verificar a ocorrência de catarata, descolamento de retina, uveíte e sinéquia. 

Nos gatos, existe uma maior incidência da forma cutânea, especialmente causada por P. wickerhamii, através e inoculação traumática secundária a arranhões por brigas por fêmeas, demarcação de território ou por fômites, mas a forma disseminada também pode ocorrer.

Nas lesões cutâneas, ocorre eczema, hiperqueratose, ulcerações e, de forma análoga ao cão, ocorre a formação de granulomas, especialmente em derme e epiderme; porém, pode haver disseminação para tendões, nervos e vasos sanguíneos. 

Etiologia

A prototecose é causada por algas saprófitas, aclorofiladas e de reprodução assexuada do gênero Prototheca, especialmente pelas espécies P. zopfii e P. wickerhamii, patogênicas para o homem, cães e gatos. 

 

Maior ocorrência

As algas do gênero Prototheca são observadas em regiões de alta umidade, como solo, lama, esgoto e fezes. Já foram relatados casos na Europa, Ásia, África, Austrália, Ilhas do Oceano Pacífico e nas Américas; contudo, no Brasil, carecem relatos: a prima-descrição de prototecose canina no país se deu apenas em 2006. 

Pela ausência de relatos, poucos são os dados epidemiológicos disponíveis. Porém, sabe-se da importância deste microorganismo como causador de mastite em vacas e da sua fácil identificação em fazendas de produção leiteira, onde pode permanecer viável por meses; o agente também já foi isolado de fezes de suínos. Portanto, propriedades rurais são ambientes propícios para a existência do agente. 

Em cães, as raças mais acometidas são Collie e English Springer Spaniel, com aparente predisposição sexual em fêmeas e idade variando de 1,5 a 10 anos (média de idade 4,77 anos). 

Em gatos, não existe consenso sobre a existência de predisposição racial, sexual e etária, frente à ausência de dados epidemiológicos. Porém, posto que a principal forma de contágio é a inoculação traumática, é possível considerar machos jovens não castrados como população de risco. 

Achados de anamnese

As informações mais relevantes que podem ser obtidas em anamnese na presença de um animal suspeito são, para os cães, o contato com o ambiente rural e, para os gatos, o histórico de brigas constantes e/ou a co-habitação com animais de produção. 

Manifestações clínicas

Em cães, a colite hemorrágica é a principal apresentação da doença. Infecção sistêmica em cães imunossuprimidos cursa com comprometimento de múltiplos órgãos, como pulmões, baço, fígado, rins, coração, trato digestório, olhos, língua, linfonodos e sistema nervoso.

Em gatos, lesões nodulares, ulceradas, exsudativas, com crostas, especialmente em face e plano nasal. A ocorrência de rinite também é relatada. 

 

Procedimentos diagnósticos

  • Presuntivo

Pouco específico, frente à grande diversidade de diagnósticos diferenciais e carência de dados epidemiológicos em estudos nacionais. 

Não existem achados característicos em hemograma e leucograma. Nos exames bioquímicos, podem ser evidenciadas discretas alterações em enzimas hepáticas e, em caso de comprometimento renal, azotemia. 

Exames de imagem, como ultrassonografia e radiografia, são inespecíficos. 

Nos animais com sinais neurológicos, a análise do líquor pode revelar pleocitose e aumento de proteína.

  • Citológico e histopatológico

Os exames citológicos e histopatológicos são normalmente conclusivos para o diagnóstico de prototecose em cães e gatos. Para a identificação da alga, diversos métodos tintoriais são descritos: coloração de Gram (Prototheca sp se apresenta de tonalidade azulada), hematoxilina-eosina (microrganismos com parede refringente e de coloração eosinofílica, com citoplasma pouco corado). Também podem ser utilizadas as colorações com tinta nanquim, azul de metileno e azul de algodão, alternativamente.

Amostras podem ser obtidas, por exemplo, de raspado de cólon, punção de linfonodos, líquor e biópsia de lesões cutâneas.

  • Cultivo

A forma mais acurada de realização do diagnóstico. O cultivo normalmente se dá em ágar Sabouraud, sem ciclohexamida, acrescido de cloranfenicol ou gentamicina, a temperaturas entre 25 e 37°C, durante dois a sete dias, em condições de aerobiose; nessa situação, as colônias se apresentam mucóides e com a coloração variando do transparente ao branco. 

Alternativamente, pode-se utilizar os meios de ágar sangue bovino ou ovino, a 37°C, em aerobiose, por dois a sete dias; no caso, as colônias apresentam-se mucóides e em tons de cinza-amarelado. 

Para a diferenciação entre P. wickerhamii e P. zopfii, recomenda-se o uso de testes bioquímicos de assimilação de carboidratos e álcoois.

Amostras podem ser obtidas, por exemplo, de raspado de cólon, punção de linfonodos, líquor e biópsia de lesões cutâneas.

  • Testes moleculares e sorológicos

Como maneira alternativa ao diagnóstico, pode-se aplicar técnicas como imunofluorescência direta ou o teste imunoenzimático de ELISA – este apresenta alta sensibilidade e especificidade na detecção de imunoglobulinas específicas no soro de vacas com mastite, e alguns estudos demonstram a aplicabilidade em amostras obtidas de cães e gatos. 

O diagnóstico molecular, através da PCR e o sequenciamento de DNA, por sua vez, já foi aplicado para o diagnóstico da prototecose canina, permitindo também a diferenciação entre as espécies de Prototheca spp. 

Amostras podem ser obtidas, por exemplo, de raspado de cólon, punção de linfonodos, líquor e biópsia de lesões cutâneas.

Diagnósticos diferenciais

Para a prototecose canina na forma cutânea, os principais diferenciais são as infecções fúngicas por Blastomyces sp, Cryptococcus sp, Candida sp, Histoplasma capsulatum, Coccidioides immitis, Geotrichum candidum e Pneumocystis sp, além de infecções por protozoários como Caryospora sp.

Quando diante de um quadro de diarreia hemorrágica, as verminoses e infecções virais compõe o principal foco diferencial, dentre as quais destacam-se ancilostomíase, tricuríase, giardíase, parvovirose e coronavirose. Quando da presença de distúrbios oculares, deve-se avaliar a presença de outras causas, como erlichiose, hipertensão sistêmica e neoplasias. 

Nos gatos, cuja forma cutânea é indubitavelmente a mais prevalente, os diferenciais são coccidioidomicose, esporotricose e criptococose. 

Terapia inicial

A terapia da prototecose em animais de companhia é bastante controversa, pelo ação limitada das drogas utilizadas e inexistência de medicamentos específicos.

O ergosterol, molécula presente na parede celular de fungos, é também um constituinte da membrana celular de algas do gênero Prototheca sp (cerca de 4% da constituição da membrana corresponde a ergosterol). Por esta razão, antifúngicos podem ser empregados como escolha terapêutica. 

Um estudo recente demonstrou boa eficácia inicial com a utilização de posaconazol, na dose de 10 mg/kg uma vez ao dia, pela via oral, em um cão.

Alternativamente, existe a indicação de uso de itraconazol  na dose de 5 mg/kg a cada 12 horas. Em literatura, também há relatos de emprego de fluconazol e anfotericina B.

Em qualquer das situações, o período de tratamento é longo, podendo chegar a meses. 

Em gatos, cuja forma cutânea é definitivamente mais prevalente, a excisão cirúrgica das lesões associada à terapia sistêmica com itraconazol na dose de 100mg/gato, uma vez ao dia, foi eficaz, de acordo com estudo.

Terapia de suporte e manutenção

O baixo sucesso da terapia reforça a importância das medidas de controle e prevenção para reduzir a exposição ao agente infeccioso.

O isolamento de animais doentes bem como a adoção de medidas higiênico-sanitárias, tais como manter o ambiente limpo, seco e exposto à luz solar são importantes para diminuir o risco de infecção. 

A terapia de suporte deverá ser instituída de acordo com a apresentação clínica da doença no animal. Fluidoterapia, medicações de suporte gastrintestinal, e o tratamento de afecções secundárias se fazem necessários. 

Prognóstico

Frente ao baixo sucesso terapêutico, é possível considerar o prognóstico da prototecose como mau na forma sistêmica, e reservado a mau na forma cutânea. 

Literatura recomendada

CAMBOIM, Expedito K.A. et al. Protothecosis: An emergent disease. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v. 30, n. 1, p. 94–101, 2010.

ENDERS, Brittany; OLBY, Natasha; MARIANI, Christopher L. Use of posaconazole for treatment of disseminated protothecosis in a dog. Veterinary Record Case Reports, v. 4, n. 2, 2016.

HOLLINGSWORTH, S. R. Canine protothecosis. Veterinary Clinics of North America - Small Animal Practice, v. 30, n. 5, p. 1091–1101, 2000. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1016/S0195-5616(00)05008-7>.

KESSELL, Allan E et al. Successful treatment of multifocal pedal Prototheca wickerhamii infection in a feline immunodeficiency virus-positive cat with multiple Bowenoid in situ carcinomas containing papillomaviral DNA sequences . Journal of Feline Medicine and Surgery Open Reports, v. 3, n. 1, p. 205511691668859, 2017.

SIQUEIRA, Amanda Keller; RIBEIRO, Márcio Garcia; SALERNO, Tatiana. Prototecose em animais de companhia e aspectos da doença no homem. Ciencia Rural, v. 38, n. 6, p. 1794–1804, 2008.

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