Proptose do globo em cães

Dra Flavia Rodrigues Souza Paes

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Prolapso globo ocular

Exoftalmia traumática

Nome em inglês

Globe proptosis

Definição

A proptose é o deslocamento súbito do bulbo ocular, anteriormente, com simultâneo encarceramento pelas pálpebras atrás da região do equador, podendo ser unilateral ou bilateral.

Fisiopatologia

Após o trauma que causou o deslocamento ocular ocorre a  oclusão das veias vorticosas e ciliares pelas pálpebras, resultando em estase venosa e glaucoma congestivo, além do potencial de promover necrose corneana, ceratites por exposição, irites, coriorretinites, descolamento da retina, luxação do cristalino e avulsão óptica.

Na maioria das vezes ocorre o estrabismo devido a ruptura de um ou mais músculos extraoculares.

Etiologia

A proptose acontece depois de um trauma, que pode ser por mordedura, contusão ou uma pancada na região do crânio. 

Em raças braquicefálicas a proptose pode ocorrer com mínimo trauma devido a sua conformação, apresentando órbitas rasas e rima palpebral geralmente grande.

Maior ocorrência

A maior ocorrência é em cães braquicefálicos, onde a proptose pode ocorrer com pequenos traumas.

Em raças dolicocefálicas ou mesocefálicas a proptose é rara e necessita de traumas mais severos para acontecer.

Os machos são mais acometidos que as fêmeas.

É comum em filhotes e a idade média dos cães acometidos é de 4 anos.

Anamnese

A anamnese detalhada é importante para determinar o tipo de trauma que levou a proptose.

De acordo com a causa podemos prever se houve contaminação do olho (por exemplo traumas por mordedura) e avaliar se pode ter ocorrido trauma crânio-facial ou sistêmico.

Manifestações clínicas

Os cães são geralmente atendidos como emergência e apresentam o globo ocular anterior a órbita e a pálpebra.

Pode ocorrer quemose, hemorragia subconjuntival, hematomas palpebrais, hifema, úlcera de córnea e ressecamento corneal intenso.

O olho acometido pode estar cego e apresentar reflexos de ameaça e ofuscamento negativos.

O reflexo palpebral não pode ser testado nesses pacientes.

O estrabismo lateral pode estar presente por ruptura do músculo reto medial.

Em traumas mais severos pode ser observadas lacerações palpebrais, enfisema subcutâneo, fraturas de crânio e mandíbula e epistaxe.

Pode ocorrer alteração do estado mental do paciente caso tenha ocorrido um trauma crânio-encefálico.

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico da proptose do globo é feito através do exame oftalmológico apenas pela observação do globo.

Devem ser realizados testes de reflexo pupilar a luz e exame de câmara anterior para determinar o prognóstico.

  • Exame físico completo: feito para avaliar possíveis traumas sistêmicos.
  • Radiografias de crânio são necessárias em traumas maiores para pesquisar fraturas. Podem ser necessárias também outras projeções para avaliar tórax e membros.
  • Tomografia computadorizada: pode ser utilizada como uma alternativa ao RX 

Diagnósticos diferencias

Exoftalmias causadas por miosites ou algo que desloque o globo cranialmente, como exemplo temos: neoplasias , cistos e abscessos retrobulbares.

Também pode ser confundida com casos de buftalmia causadas por glaucoma. Em ambos os casos as pálpebras se encontram na posição normal, anterior ao globo.

Terapia inicial

As proptoses requerem assistência emergencial, por proporcionar oclusão das veias vorticosas e ciliares pelas pálpebras, resultando em estase venosa e glaucoma congestivo.

Também podem promover necrose corneana, ceratites por exposição, irites, coriorretinites, descolamento da retina, luxação  do cristalino, avulsão óptica e, na maioria das vezes, estrabismo.

A reintrodução do bulbo ocular é procedimento obrigatório nas proptoses, exceto nos casos associados à extrusão ou destruição de suas estruturas internas, bem como naqueles com ruptura da maioria dos músculos extra-oculares, presença de tecido necrótico ou altamente infectado, midríase não responsiva ou outras complicações irreversíveis; para estes, o tratamento de escolha é a enucleação, porém em alguns casos, há a possibilidade de manutenção do bulbo ocular com propósitos estéticos.

O estrabismo é esperado em 27 a 36% dos casos de proptose, sendo os músculos mais acometidos por rupturas o reto medial, reto ventral e oblíquo ventral, resultando em estrabismos divergentes e/ou superiores.  

Antes de iniciar o procedimento cirúrgico, o paciente dever ser estabilizado. O globo protruído deve ser lubrificado com solução salina estéril, gel lubrificante ou qualquer outro lubrificante e um colar elisabetano deve ser colocado para evitar auto-trauma.

Diuréticos e corticoesteroides podem ajudar a reduzir o edema orbital e antibióticos de amplo espectro podem ser necessários para reduzir o risco de infecção. 

O reposicionamento do bulbo ocular é o procedimento indicado nas proptoses, exceto nos casos associados à extrusão ou destruição de suas estruturas internas, bem como naqueles com ruptura da maioria dos músculos extraoculares, presença de tecido necrótico ou altamente infeccionado ou outras complicações irreversíveis; para estes, o tratamento de escolha é a enucleação.

Caso o bulbo se encontre íntegro é realizado o reposicionamento ocular, acompanhado de tarsorrafia temporária, para evitar reincidência.

Antibióticos no transoperatório são recomendados.

A técnica cirúrgica consiste em aplicar uma pressão suave sobre o bulbo com um cabo de bisturi, uma placa palpebral ou instrumento similar macio e plano.

Muitas vezes uma cantotomia lateral é necessária para conseguir reposicionar o globo.

Após o reposicionamento, uma tarsorrafia temporária deve ser realizada. É deixada uma abertura medial para permitir a medicação tópica.

O pós-operatório deve ser feito com medições tópicas e sistêmicas, de acordo com a necessidade de cada caso, pode ser usado antibióticos, anti-inflamatórios esteroidais ou não esteroidais.

Mesmo com um rápido reposicionamento do globo ocular, a perda de visão ainda pode acontecer, quanto maior a força necessária para protruir o globo, maior a probabilidade de ocorrer cegueira.

A perda visual ocorre em aproximadamente 60% a 70% dos cães. 

A enucleação deve ser considerada se o dano ao globo ocular for severo.

Diversas técnicas de enucleação em cães e gatos têm sido descritas na literatura. A transconjuntival e a transpalpebral são as mais utilizadas, assim como modificações das mesmas.

A escolha de técnica vai depender da patologia afetando o globo, anatomia do paciente e preferência do cirurgião.

Independentemente da técnica escolhida, a tração excessiva do nervo óptico deve ser evitada, já que a tração do quiasma óptico pode levar a cegueira permanente no globo remanescente.

O pós-operatório consiste em antibioticoterapia, analgésicos e anti-inflamatórios. Assim como o uso de colar elisabetano. 

Terapia de manutenção

Em casos que o globo permaneceu estrábico e não foi realizada enucleação será necessário a utilização de lubrificantes por toda a vida.

Prognóstico

O prognóstico é reservado na maioria dos casos, exceto naqueles em que ocorreram traumas leves sem ruptura de músculos e o globo foi reposicionado imediatamente.

As sequelas de proptose incluem perda da visão, estrabismo, lagoftalmia, déficit sensitivo da córnea, ceratoconjuntivite seca, ceratites por exposição, glaucoma e phthisis bulbi.

 

Literatura recomendada

BERENS, C. Tenon‘s capsule transplantation in surgery of the ocular muscles, with especial reference to postoperative deviations with adhesions between the muscles and eyeball. Transplantation American Ophthalmology Society, Rochester, v.35, n.1,p.173-183, 1937

BISTNER, S.I. Emergências e traumatismos oculares. In: SLATTER, D. Manual de cirurgia depequenos animais. 2 ed. São Paulo: Manole, 1998.p.1522-1539.

BONAGURA, J.D. Ocular emergencies. In: KIRK &BONAGURA, J.D. Kirk ́s current veterinary therapy Xlll small animal practice. Philadelphia: W. B. Saunders, 2000. P. 1090

COTTRELL, B. Abnormal appearance. In: PEIFFER,R.L. Small animal ophthalmology: a problem–oriented approach. Philadelphia: W. B. Saunders,1989, p.135-138.

DUNLAP, E. A. Plastic implants in muscle surgery plastic materials in the management of extra-ocular motility restrictions. Archives of Ophthalmology, Chicago, v.80, n.2, p.249-57, 1968.

GELATT, K.N. Doenças e cirurgia da órbita do cão. In:____. Manual de oftalmologia veterinária. 3. ed. São Paulo: Manole, 2003. p.39-42.

GILGER, B.C.; HAMILTON, H.L.; WILKIE, D.A.;WOERDT, A.; MCLAUGHIN, S.A.; WHITLEY, D.R.Traumatic ocular proptose in dogs and cats: 84 cases(1980-1993). Journal of American Veterinary Medical Association, Chicago, v.206, n.8, p.1186-90, 1995. 

MAMEDE, F.V. Emprego da mitomicina C, como agente antifibrótico, na mioplastia do reto medial do olho de coelhos (Oryctolagus cuniculus,Linnaeus, 1958) pela cápsula renal do equino (Equus caballus, Linnaeus, 1958). Botucatu, 2003.57 p. Dissertação (Mestrado em clínica) - Curso de Medicina Veterinária, Universidade Estadual Paulista.

MANDELL, D.C. Ophthalmic emergencies. Clinical techniques small animal practice. Philadelphia,v.15, n.2, 2000, p.94-95

SILVA, L.H. Transplante autólogo, homotopico, livre de músculo ocular extrínseco com e sem uso de antiadesivo: estudo experimental. Ribeirão Preto, 1983.56 p. Dissertação (Mestrado em Oftalmologia) – Curso de Medicina, Universidade de São Paulo.

SLATTER, D. Ocular emergencies. In: SLATTER,D. Fundamentals of veterinary ophthalmology.2.ed. Philadelphia: W.B. Saunders, 1990. p.537-540

SMYTHE, R. H. The eyeball and its surroundings .In: ____. Veterinary ophthalmology. London:Baillire Tindall and Cox, 1956. p. 86-89.

WHELER, C.L.; GRAHN, B.H; POCKNELL, A.M. Unilateral proptosis and orbital cellulitis in eight african hedgehogs (atelerix albiventris). Journal of Zoo and Wildlife Medicine, Lawrence, v.32,n.2, p.236-237, 2001.

BRANDÃO, C.V.S. et al. PROPTOSE EM CÃES E GATOS: ANÁLISE RETROSPECTIVA DE 64 CASOS. Archives of Veterinary Science, [S.l.], jun. 2005. ISSN 1517-784X. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/veterinary/article/view/4089>. Acesso em: 23 ago. 2019

Anexos referente a esta consulta rápida

O conteúdo deste site é para uso exclusivo e restrito dos associados. Apenas Médicos Veterinários graduados e estudantes de Medicina Veterinária são autorizados a acessar este site.

Não está permitida a divulgação de qualquer conteúdo sem a prévia autorização do Vetsapiens, por escrito. Os Médicos Veterinários são os únicos responsáveis pelo tratamento e cuidado de seus pacientes.

Quaisquer recomendações de colegas ou especialistas recebidas através deste site são meras opiniões individuais, e cada clínico é o exclusivo responsável pelo manejo de seus pacientes. Os fármacos e doses recomendadas ou calculadas no Vetsapiens devem ser sempre conferidos antes de sua aplicação.

Veterinários não devem utilizar medicações e ou protocolos com os quais não estejam familiarizados e confortáveis. O Vetsapiens preconiza que o encaminhamento para especialistas seja sempre a primeira recomendação dos clínicos gerais ao se depararem com casos clínicos além do seu conhecimento.

As imagens e informações trocadas neste site não substituem o exame físico do paciente, e a relação exclusiva entre veterinário-paciente-cliente. As imagens aqui postadas não podem ser consideradas de qualidade diagnóstica.

Toda e qualquer informação obtida neste site deve ser considerada apenas como uma sugestão individual e não tem qualquer valor diagnóstico.

Desenvolvido por logo-crowd