Pitiose / Lagenidiose

Dr Maurício Piovesan Henrique

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Oomicoses

Nome em inglês

Pythiosis, lagenidiosis

Definição

A pitiose e a lagenidiose são oomicoses de apresentações clínicas muito similares entre si, que afetam cães, gatos e outras espécies animais. 

Fisiopatologia

P. insidiosum coloniza plantas aquáticas em decomposição. Tal vegetação é substrato para o desenvolvimento do microorganismo e de suas estruturas móveis e infectantes, os zoósporos.  

Os zoósporos também representam as estruturas móveis e infectantes do Lagedinium spp.

A diferença reside no fato de que a existência deste agente nos cursos de água trata-se, na maioria dos casos, de uma iatrogenia.

Explica-se: a maioria das espécies de Lagedinium é patógena de larvas de mosquito, e foram amplamente utilizadas como controle biológico destes insetos. 

Os zoósporos biflagelados destes oomicetos, livres na água,  movimentam-se até encontrar o hospedeiro animal.

Quando ocorre contato com lesões mucocutâneas, ocorre penetração e consequente infecção. 

No caso da pitiose na forma gastrintestinal, o mecanismo fisiopatológico ainda é desconhecido.

Porém, suspeita-se que ocorre a ingestão de água contaminada pelos zoósporos, que por sua vez irão causar infecção na mucosa gastrintestinal caso haja algum tipo de lesão pré-existente. 

Etiologia

A pitiose e a lagenidiose são causadas pelos oomicetos Pythium insidiosum e Lagenidium sp., respectivamente.

 

Maior ocorrência

A pitiose ocorre em regiões de clima tropical e subtropical, especialmente no Sudeste Asiático, costa leste da Austrália e América do Sul, incluindo o Brasil, nas regiões Sul e Sudeste principalmente.

Acomete com maior prevalência cães machos jovens de raças grandes geralmente associadas a trabalho, como os Labradores.

É rara em gatos quando comparado à ocorrência nos cães, não havendo predisposição sexual ou racial relatada até o momento; porém, a pitiose cutânea geralmente acomete gatos muito jovens, com menos de 1 ano de idade.

Animais com acesso a pântanos, lagos e lagoas, riachos e açudes estão mais predispostos à doença. 

A lagenidiose trata-se de uma doença muito rara, com escassa descrição.

Os principais relatos de ocorrência originam-se do sudeste dos Estados Unidos.

Os achados epidemiológicos da lagenidiose assemelham-se à pitiose: geralmente, acomete cães jovens à meia-idade, com acesso a lagos e lagoas.

Não há correlação relatada com imunossupressão prévia nestes pacientes. 

Achados de anamnese

Indubitavelmente, o principal achado de anamnese que levantará a suspeita para lagenidiose ou pitiose é o histórico de contado do animal com cursos de água, como lagos, lagoas, riachos, açudes e pântanos.

Este registro, associado à queixa de lesões cutâneas e/ou alterações gastrintestinais, corroborado pelos dados epidemiológicos expostos anteriormente, deverão fazer o clínico considerar a hipótese de lagenidiose ou pitiose. 

Manifestações clínicas

Pitiose

  • As manifestações clínicas mais comumente observadas na pitiose tegumentar incluem lesões cutâneas ulcerativas ou nodulares, com trajetos fistulosos; na forma gastrintestinal, perda de peso, anorexia, êmese, diarreia (hematoquezia).

Lagenidiose

  • As manifestações clínicas mais comumente observadas na lagenidiose são, na forma tegumentar: lesões cutâneas ulcerativas ou nodulares, com trajetos fistulosos. Já na forma sistêmica, são relatados edema de membros (especialmente pélvicos), linfadenopatia e hemoperitônio (em decorrência da ruptura de grandes vasos na cavidade abdominal).

 

Procedimentos diagnósticos

 

Exames laboratoriais

Os achados de exames laboratoriais são bastante inespecíficos tanto nos casos de pitiose quanto lagenidiose.

Por vezes, nenhuma alteração significativa é observada; quando ocorrem, anemia, leucocitose, eosinofilia, hipoalbuminemia, hiperglobulinemia  e hipercalcemia são as alterações mais prevalentes.

Exames de imagem

A utilização de exames radiográficos e ultrassonográficos podem auxiliar como técnicas complementares ao diagnóstico. Nódulos  pulmonares e/ou retroperitoneais ocultos podem estar presentes nos casos de pitiose e lagenidiose – nesta, porém, tais achados são bastante raros.

Na  forma  gastrointestinal da pitiose,  também pode ser evidenciado espessamento gástrico ou intestinal, com perda de estratificação de suas camadas.

Exames citológico e histopatológico

Os achados dos exames citológico e histopatológico são similares na pitiose e lagenidiose.

A partir de lesões suspeitas e acessíveis à punção por agulha fina, é possível realizar o exame citológico, no qual usualmente verifica-se um processo piogranulomatoso supurativo e/ou eosinofílico.

É possível observar a presença de hifas sugestivas dos agentes etiológicos da pitiose e lagenidiose, mas é incomum.

No diagnóstico histopatológico, a partir de biópsia de tecidos suspeitos, frequentemente observa-se o fenômeno de Splendore-Hoeppli, que consiste na observação de hifas circundadas por material eosinofílico.

As hifas não são aparentes na coloração de hematoxilina-eosina, mas técnicas de colorações especiais, como PAS e GMS, podem evidenciar tais estruturas.

No caso específico da pitiose gastrintestinal, recomenda-se a coleta de material para histopatológico a partir de laparotomia, e não por endoscopia.

Isso porque, na pitiose gastrintestinal, o processo inflamatório/infeccioso geralmente concentra-se nas camadas mucosa e muscular, mais profundas do que a biópsia por endoscopia é capaz de atingir.

As hifas de Lagedinium spp. geralmente são maiores do que as hifas de P. insidiosum: as dimensões variam de 7 a 25 micrômetros para o Lagedinium spp., contra 5 a 7 micrômetros para P. insidiosum.

Cultivo e isolamento

Fragmentos suspeitos podem ser coletados e incubados em meio específico a 37ºC. O crescimento de micélios pode ser observado de 12 a 48 horas após a incubação.

Trata-se do padrão ouro para o diagnóstico de lagenidiose e pitiose.

Exames sorológicos

Pela semelhança estrutural entre os oomicetos em questão, existe uma grande chance de reação cruzada entre Lagedinium spp. e P. insidiosum.

Por esta razão, não são indicadas provas sorológicas como meio diagnóstico único destas afecções.

 

 

Diagnósticos diferenciais

Na hipótese de pitiose gastrintestinal, as hipóteses diferenciais incluem neoplasia (por exemplo, linfoma alimentar), zigomicose, histoplasmose, gastroenterite eosinofílica difusa, corpo estranho, intussuscepção, doença inflamatória intestinal; já para o caso de pitiose cutânea e lagenidiose, os principais diferenciais são leishmaniose, lagenidiose, zigomicose, micobacteriose, actinomicose, furunculose, piogranuloma estéril, farmacodermia, neoplasias. 

 

Terapia inicial

Lagenidiose e pitiose cutânea

Assim como na pitiose cutânea, a ressecção cirúrgica das lesões é a terapia de escolha.

Recomenda-se a ressecção com margem de 3 a 5 cm; contudo, na maioria dos casos, as lesões são exuberantes e de dimensões significativas, em regiões que dificultam a abordagem cirúrgica – além de, eventualmente, haver acometimento de linfonodos regionais. 

A terapia médica geralmente é ineficaz quando realizada isoladamente. A recomendação é pela associação de itraconazol e terbinafina na dose de 5 a 10 mg/kg a cada 24 horas, ambos via oral, tanto para cães como para gatos.

Sempre que possível, a terapia médica deve ser associada à terapia cirúrgica em casos de múltiplas lesões ou remoção cirúrgica parcial. 

Pitiose gastrintestinal

Na ocorrência de pitiose gastrintestinal, recomenda-se a excisão cirúrgica dos tecidos acometidos, com margens de 3 a 4 centímetros.

Contudo, a terapia cirúrgica só apresenta bons resultados em lesões pequenas, que permitam ablação total do tecido acometido – quando há acometimento de áreas extensas, a terapia torna-se inviável.  

 

Terapia de suporte e manutenção

Medidas como analgesia, fluidoterapia, suporte gastrintestinal e nutricional podem ser necessários, na dependência da severidade do quadro. 

Ressalta-se a importância da realização de exames bioquímicos controle durante a utilização de antifúngicos, para monitoração da função hepática.

Prognóstico

Pela severidade das lesões, velocidade de estabelecimento da doença e baixa resposta à terapia médica, tanto na pitiose como na lagenidiose o prognóstico é mau para os cães e gatos acometidos. 

Literatura recomendada

DE MACÊDO, Luã Barbalho et al. Pitiose canina: Uma doença despercebida na clínica de pequenos animais. Acta Veterinaria Brasilica, v. 9, n. 1, p. 1–11, 2015.

 

DOWST, Megan et al. An unusual case of cutaneous feline pythiosis. Medical Mycology Case Reports, v. 26, n. September, p. 57–60, 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.mmcr.2019.10.004>.

 

GALIZA, Glauco J.N. et al. Ocorrência de micoses e pitiose em animais domésticos: 230 casos. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v. 34, n. 3, p. 224–232, 2014.

 

GROOTERS, Amy M. Pythiosis, Lagenidiosis, and Zygomycosis. [S.l.]: Elsevier Inc., 2013. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1016/B978-1-4377-0795-3.00069-7>. 

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