Piometra

Dra. Claudia Brito

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura

Complexo Hiperplasia Endometrial Cística/Piometra, Endometrite catarral ou Endometrite purulenta.

 

Nome em inglês

Cystic Endometrial Hyperplasia - Pyometra Complex; Catarral Endometritis; Purulent endometritis.

Definição

Doença crônica ou aguda pós-estral de cadelas adultas inteiras, levando a um exsudato inflamatório uterino, associada a sinais clínicos e patológicos variáveis.

Fisiopatologia

A fisiopatologia da piometra não está totalmente esclarecida, mas a teoria mais aceita é da ação prolongada da progesterona no período diestral. Para que ocorra a ação da progesterona no endométrio, o estrógeno deve inicialmente sensibilizar o útero, estimulando a expressão dos receptores de progesterona, além de edema do endométrio e desenvolvimento de vasos locais. Em seguida, sob ação da progesterona as glândulas endometriais sofrem hiperplasia e hipertrofia, resultando na secreção de líquidos no lúmen uterino (leite uterino); além disso a progesterona mantém a cérvix fechada, diminui a contratilidade uterina e a imunidade local, preparando esse útero para a chegada do embrião. Se alguma bactéria consegue ganhar esse meio uterino, encontrará um meio propício e muito rico para seu desenvolvimento e proliferação.

Etiologia

Infecção ascendente via vaginal ou coito  e contaminação pelas principais bactérias associadas como a  Escherichia Coli (mais comum), Streptococcus hemolítico, Staphylococcus, Klebsiella, Pasteurella, Pseudomonas e Proteus.

Maior ocorrência

Não há predisposição racial. Normalmente acomete fêmeas a partir de 5 anos de idade, porém existem relatos em animais mais jovens. Nas gatas, como o ciclo estral é diferente a predisposição é menor, mas pode estar associada ao uso de anticoncepcionais. As nulíparas parecem ser mais acometidas do que as fêmeas que já gestaram. 

Achados de anamnese

Como se trata de uma doença pós estral, os tutores normalmente referem CIO recente, presença de secreção vaginal purulenta, fêmeas de meia idade, nulíparas, quadros de pseudogestação frequentes, uso de contraceptivos ou abortivos.

Manifestações clínicas

  • Os sinais clínicos podem ser variados dependendo da característica do quadro. Apresentam: anorexia, apatia, secreção vaginal que varia de purulenta a hemorrágica, polidipsia, febre em alguns casos, poliúria, emese, diarréia e desidratação. Distensão abdominal e edema vulvar podem estar presentes também.
  • Casos mais agudos podem evoluir para quadro de septicemia apresentando taquicardia (͕ᐳ 160bpm), taquipnéia (ᐳ20mrpm), TPC prolongado, pulso femural fraco, hipotermia acompanhados de hipoglicemia.

Imagens

Procedimentos diagnósticos

Exame de eleição para diagnóstico é a ultrassonografia abdominal, mas hemograma, bioquímica sérica (função renal e hepática), são fundamentais para estabelecer o prognóstico da doença. 

  • Hemograma: leucocitose por neutrofilia podendo apresentar desvio a esquerda ou não. Anemia normocítica e normocrômica podem acompanhar por perda de hemácias ao conteúdo uterino por diapedese. Em casos mais graves, animal pode apresentar leucopenia e trombocitopenia.
  • Azotemia pode estar presente. As formas de envolvimento renal das pacientes com piometra podem ser por azotemia pré-renal, doença glomerular primária, redução da capacidade tubular em concentrar urina (poliúria e polidipsia), além de uma doença renal pré existente.
  • Aumento de Fosfatase Alcalina que pode estar associada à colestase hepática.
  • Fêmeas com piometra podem desenvolver hipocalemia, que podem estar relacionadas com quadros de vômitos, diarréia, além da desidratação pelo aumento da diurese (poliúria).
  • Algumas fêmeas podem apresentar inicialmente alcalose respiratória primária, induzida pela bacteremia e endotoxemia, mas que se compensa com o tratamento da piometra. Já os quadros de acidose metabólica, podem estar associados a quadros renais e celulares e indicam um prognóstico pior dessa fêmea.
  • Animais que apresentam sinais de septicemia, podem apresentar hipoglicemia associada.

Diagnósticos diferenciais

  • Gestação
  • Vaginites

Terapia inicial

A terapia está diretamente relacionada à gravidade do quadro da fêmea. Quando a fêmea possui um quadro inicial de secreção vaginal purulenta, com aumento uterino, mas sem alterações clínicas importantes (e sem alterações hematológicas e bioquímicas) e interesse reprodutivo; pode-se optar pelo tratamento clínico da piometra. Atualmente o protocolo mais preconizado é a associação do Aglepristone, um antiprogestágeno com uma prostaglandina sintética o Cloprostenol no seguinte esquema:

  • Aglepristone (Alizim®): 10mg/kg nos dias 1, 2 e 8 e Cloprostenol (Sincrocio® ou Lutalyse®): dias 3 e 7; associados a antibiótico de amplo espectro por no mínimo 15 dias.

  Já as fêmeas que não tem interesse reprodutivo e apresentam um aumento importante do volume uterino associado a sinais clínicos mais graves, a cirurgia de ovariohisterectomia é recomendada, associada a antibiótico de amplo espectro. Se no primeiro atendimento a fêmea apresenta sinais de SIRS e Sepse, a estabilização do animal prévio a cirurgia é imprescindível, seguindo os protocolos de atendimento da medicina intensiva.

Os antibióticos mais utilizados são as quinolonas e as cefalosporinas nas doses usuais recomendadas e em casos de septicemia ou peritonite, pode-se associar o metronidazol aos antibióticos já citados ou amoxicilina e clavulanato.

Enrofloxacina: 5mg/kg/BID

Cefalexina: 30mg/kg/BID

Amoxicilina e Clavulanato: 22mg/kg/BID

Metronidazol: 15 a 20mg/kg/BID

Terapia de suporte e manutenção

Manutenção de fluidoterapia ou acompanhamento com terapia específica dos animais que podem virar nefropatas crônicos devido a piometra. 

Prognóstico

Na presença de sinais de septicemia e fêmeas com piometra de colo fechado, costumam ter um prognóstico mais reservado. Nos demais casos cirúrgicos, normalmente a evolução é boa.

Nos animais onde a opção foi o tratamento clínico, deve-se deixar bem claro ao tutor que existe a possibilidade do tratamento não garantir uma nova prenhez da cadela e a recidiva pode ocorrer em torno de 20% dos casos.

Literatura recomendada

APPARICIO, M.; VICENTE, W.R.R. Reprodução e Obstetrícia em cães e gatos. 1. ed. São Paulo: MEDVET, 2015. 458p.

JOHNSTON, S.D.; KUSTRITZ, M.V.R.; OLSON, P.N.S. Canine and Feline Theriogenology. 1ed. Philadelphia: Saunders, 2001. 592p.

GOBELLO, C.; CASTEXA, G.; KLIMAB, L.; RODRIGUEZ, R.; CORRADA, Y. A study of two protocols combining aglepristone and cloprostenol to treat open cervix pyometra in the bitch. Theriogenology: 60 (2003) 901–908. 

PRETZER, S.D. Clinical presentation of canine pyometra and mucometra: A review.Theriogenology 70 (2008) 359–363. 

B. MADDENS,B.,DAMINET, S., SMETS, P.; MEYER, E. Escherichia coli Pyometra Induces Transient Glomerular and Tubular Dysfunction in Dogs. J Vet Intern Med 2010;24:1263–1270.  

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