Perda auditiva (surdez) em cães

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 10 NOV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

  • perda auditiva
  • surdez
  • incapacidade auditiva

 

 

Nome em inglês

  • Deafness in dogs
  • Hearing Loss in dogs

Definição

Surdez refere-se à perda temporária, parcial ou total da audição em um ou ambos os ouvidos. A surdez pode ser resultado de problemas hereditários, alterações congênitas, infecção, trauma, bloqueio do canal auditivo ou velhice. Certas raças de cães e animais de pelagem branca ou merle são mais predispostas à surdez congênita. A surdez congênita e geriátrica e a surdez decorrente de trauma costumam ser permanentes e não tratáveis. A surdez adquirida (devido a infecção ou bloqueio do canal auditivo) pode frequentemente ser temporária e tratável.

Fisiopatologia e Causas

Nos cães a surdez pode ser congênita ou adquirida:

Congênita: o animal nasce surdo devido a uma herança genética ou defeitos no desenvolvimento embrionário do ouvido ou de partes do sistema nervoso envolvidas com a audição.

Adquirida: o animal nasce com audição normal e desenvolve surdez por trauma, infecção, bloqueio do canal auditivo ou degeneração da cóclea (causa mais comum da surdez adquirida) ou degeneração neurológica devido à idade.

A surdez também pode ser condutiva ou neurossensorial:

Condutiva: os sons não podem ser conduzidos de fora para os nervos do ouvido interno.

Neurossensorial: os receptores nervosos não podem transmitir os sinais sonoros do ouvido para o cérebro ou os centros cerebrais responsáveis ​​pela audição não podem interpretar os dados auditivos.

Causas da perda auditiva em cães:

Causas da surdez congênita:

Os defeitos congênitos do ouvido ou do sistema nervoso podem resultar de herança genética ou desenvolvimento anatômico anormal.

Certas raças de cães e cores especificas de pelagem carregam genes com alto grau de determinar surdez hereditária. Animais com cabeça e as orelhas brancas e os com pelagem azuladas (merle)  foram também associados à surdez.

Causas da surdez adquirida:

  • Idade avançada (degeneração da cóclea ou degeneração neurológica causada pela idade)
  • Exposição repetida a ruídos altos (tiros, equipamentos estéreos)
  • Bloqueio do cana auditivo por objetos estranhos (inclui acúmulo excessivo de cerumen, excesso de pelos do ouvido interno, grama, ou outros corpos estranhos - Ex: algodão, tampões, etc)
  • Lesão (inclui trauma no canal auditivo ou no tímpano, traumatismo craniano causando lesão cerebral)
  • Infecção (infecção bacteriana ou ou causada por leveduras no ouvido externo, médio ou interno)
  • Inflamação (edema no conduto auditivo e/ou na  trompa de Eustáquio)
  • Neoplasias  (no ouvido e/ou na trompa de Eustáquio)
  • Metais pesados ​​(exposição ao mercúrio, arsênico ou chumbo pode causar perda auditiva)
  • Toxicidade de drogas (certas drogas podem levar à surdez se usadas incorretamente ou em altas doses, por longos períodos,  incluindo furosemida, cisplatina, clorexidina, etanol, aminoglicosídeos, eritromicina, cloranfenicol, etanol clorexidina)

 

Muitos animais geriátricos desenvolvem presbiacusia, onde a audição das frequências médias a altas são afetadas primeiro, seguidas pela perda progressiva de todas as frequências. A perda pode parecer aguda no início, mas reflete a eventual incapacidade do animal de compensar a perda progressiva que vinha se desenvolvendo há algum tempo. O início ocorre normalmente no último terço da expectativa de vida típica de uma raça e irá progredir até a surdez completa se o animal viver o suficiente.

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

As raças de cães mais comumente afetadas incluem o Dálmata, o Bull terrier, o Australian cattle dog, o Cocker spaniel inglês, Setter Inglês,  Dogo argentino, o Parson russell terrier e o Boston terrier. Mas a lista de raças afetadas continua a se expandir e pode mudar devido à popularidade da raça ou eliminação do defeito por meio de reprodução seletiva.

Achados de anamnese

Alem da pouca ou nenhuma resposta ao som, os proprietários relatam latidos excessivos, tom do latido diferente,  incomum, hiperatividade, confusão ao receber comandos vocais e falta de movimentos da pina. Um animal que gradualmente se tornou surdo, como na velhice, pode se tornar não responsivo ao ambiente e se recusar a atender a chamada do dono.

Manifestações clínicas

Os principais sintomas de perda auditiva em cães incluem pouca ou nenhuma resposta ao som:

  • Sem resposta a brinquedos barulhentos
  • Sem resposta aos aplausos
  • Nenhuma resposta ao estalar dos dedos atrás da cabeça
  • Sem resposta a campainhas e ruídos altos
  • Sem resposta quando chamado pelo nome
  • Sem resposta quando pessoas ou outros animais adentram no ambiente
  • Sem resposta aos latidos de outros cães
  • Difícil de despertar, acordar
  • Assustado ao acordar
  • Latidos excessivos

Procedimentos diagnósticos

Importante fazer testes de triagem, testes simples de audição  batendo palmas com força ou batendo em uma lata de moedas (fora do alcance visual do animal) e observar sua resposta.

Lembre-se que  a resposta ao toque, ao cheiro e aos objetos que podem ser vistos deve ser diferenciada da resposta ao som. Em animais jovens ou em animais mantidos em grupos, a surdez pode ser mais difícil de detectar, pois o indivíduo avaliado acompanhará a resposta dos demais integrantes do grupo. Se o animal for observado sozinho, após uma idade em que as respostas ao som são previsíveis (cerca de 3 a 4 semanas para cães), então a surdez pode ser detectada.

Pode ser difícil identificar a perda parcial da audição ou surdez em apenas um ouvido. Tente testar com sons mais suaves, como estalar os dedos perto de um ouvido ou do outro para procurar uma resposta.

Importante fazer uma anamnese detalhada e um exame fisico completo para medir a perda auditiva e determinar as possíveis causas. Os testes de audição podem ser usados ​​para diagnosticar a perda auditiva. O exame do canal auditivo detectará acúmulo excessivo de cerúmen, crescimento excessivo de pelos, qualquer bloqueio devido a corpo estranho, infecção, inflamação ou lesão no tímpano.

Se  suspeitar de uma otite, realizar exames e esfregaços da secreção otológica, citologia, cultura e antibiograma para diagnosticar o agente infectante e determinar o agente e o tratamento adequado. Em alguns casos, um teste de resposta evocada auditiva do tronco cerebral ou potencial evocado auditivo do tronco encefálico (BAER) pode ser realizado para mensurar a resposta do cérebro aos estímulos auditivos. As radiografias da bula timpânica e outros exames de imagem como tomografia e ressonância magnética podem ser usadas para determinar as possíveis causas da surdez.

Lembrar que a maior parte da surdez em cães é congênita e hereditária, associada à pigmentação branca e olhos azuis.
A surdez neurossensorial é irreversível, enquanto a surdez condutiva freqüentemente desaparece.
A perda auditiva na meia  idade até a idade avançada geralmente resulta de otite grave,  ototoxicidade, trauma por ruído ou presbiacusia.

 

Diagnósticos diferenciais

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Terapia

Tratamentos da perda auditiva em cães

Surdez permanente

A surdez congênita e a surdez geriátrica normalmente não são tratáveis. A cirurgia pode tentar corrigir a audição se o defeito for no ouvido médio ou externo ou envolver inflamação do ouvido interno; no entanto, a maioria dos defeitos congênitos envolve alterações sensíveis e  delicadas do ouvido interno ou defeitos do sistema nervoso. Na toxicidade causada por drogas, exposição a metais pesados ​​e exposição a ruídos muito altos ( como tiros e fogos) o dano pode ser permanente.

Aparelhos auditivos

Aparelhos auditivos e implantes cocleares estão se tornando cada vez mais acessíveis  para cães, mas atualmente eles ainda são caros e pouco práticos. Os dispositivos funcionam de forma semelhante aos dispositivos humanos, mas os animais não respondem bem à presença do dispositivo próximo ao ouvido e podem não tolerar isso.

Remoção de corpo estranho

No caso de um corpo estranho, o tratamento pode envolver a remoção do objeto bloqueador, como limpar o excesso de cera das orelhas ou arrancar os pelos crescidos. O exame do canal auditivo com otoscópio deve ser minucioso em busca de lesões e em alguns casos a lavagem ótica é recomendada.

Tratamento para as infecções

Pode ser necessário tratar as infecções bacterianas e por leveduras por 3 a 4  semanas, associando antibióticos orais e tópicos, dependendo da gravidade. Tratar a dor e a inflamação e tratamento ceruminolítico prolongado deve ser prescrito sempre que necessário.

Neoplasias em conduto auditivo

Podem ser realizadas cirurgias para ressecar tumores que estejam bloqueando o canal auditivo e impedindo a condução do som.

Recuperação de perda auditiva em cães

Geralmente a recuperação auditiva acontecem após a recuperação dos processos inflamatórios e/ou infecciosos, que podem levar 3 à 4 semanas ou até mais, dependendo da gravidade.

Animais surdos (quer a perda auditiva seja permanente ou temporária) requerem cuidados especiais. É importante orientar os tutores que devem monitorar de perto estes  animais para evitar possíveis acidentes e ferimentos. Animais surdos nunca devem ser deixados ao ar livre sem uma cerca ou coleira. Eles não podem ouvir quando você chama e podem ser atropelados , pois não podem ouvir veículos se aproximando.

Importante também orientar o tutor para seu animal de estimação para entender os sinais manuais em vez de usar comandos verbais. Em vez de chama-lo, pode-se pisar firme no chão para chamar a atenção do animal com deficiência auditiva. Evitar assustar o animal, avisando-o quando estiver por perto, com um tapinha na cabeça. Animais de estimação surdos estão propensos a se perderem, portanto, microchip e coleiras com plaquetas de identificação que identificam o animal como surdo e fornecem informações de contato são imprescindíveis.

Quanto a prevenção - Nenhum teste de DNA está disponível atualmente para identificar portadores de surdez genética em cães, portanto, o teste BAER , os testes físicos e a reprodução seletiva são as únicas opções disponíveis para reduzir a prevalência dentro das raças.

 

 

 

Prognóstico

A surdez congênita e geriátrica e a surdez decorrente de trauma costumam ser permanentes e não tratáveis, com prognóstico ruim.

Já a surdez adquirida (devido a infecção ou bloqueio do canal auditivo) pode frequentemente ser temporária e tratável, com prognóstico bom a ruim.

 

Literatura recomendada

Strain GM. The Genetics of Deafness in Domestic Animals. Front Vet Sci. 2015 Sep 8;2:29. doi: 10.3389/fvets.2015.00029. PMID: 26664958; PMCID: PMC4672198.

Strain GM, Clark LA, Wahl JM, Turner AE, Murphy KE. Prevalence of deafness in dogs heterozygous or homozygous for the merle allele. J Vet Intern Med. 2009 Mar-Apr;23(2):282-6. doi: 10.1111/j.1939-1676.2008.0257.x. Epub 2009 Feb 3. PMID: 19192156.

Kluth S, Distl O. Congenital sensorineural deafness in dalmatian dogs associated with quantitative trait loci. PLoS One. 2013 Dec 4;8(12):e80642. doi: 10.1371/journal.pone.0080642. PMID: 24324618; PMCID: PMC3851758.

Plonek M, Nicpoń J, Kubiak K, Wrzosek M. A comparison of the brainstem auditory evoked response in healthy ears of unilaterally deaf dogs and bilaterally hearing dogs. Vet Res Commun. 2017 Mar;41(1):23-31. doi: 10.1007/s11259-016-9668-3. Epub 2016 Nov 29. PMID: 27896671; PMCID: PMC5306067.

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