Neoplasias Mamárias em Gatas

Dra Samanta Rios Melo

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nome em inglês

Mammary Gland Neoplasia in cats  

Nomenclatura / sinônimos

  • Tumor/ neoplasia de mama
  • Tumor/ Neoplasia mamária
  • Carcinoma mamário 

Definição

A neoplasia mamária é o terceiro tumor mais comum em gatos. A maioria dos tumores da glândula mamária são primários
e de origem epitelial. Alguns, no entanto, podem ter histologia mista, composta por tecido epitelial e mioepitelial, com áreas de cartilagem e osso, e alguns tumores são de origem puramente mesenquimal. 

A classificação dos tumores mamários é extremamente complexa e baseia-se em achados histopatológicos. 

Nos gatos, a maioria dos tumores é maligna e o tipo mais comum é o adenocarcinoma. Sarcomas são raros. Os esquemas de classificação histopatológica em gatos são menos detalhados do que em cães. As neoplasias mamárias felinas são geralmente agrupadas e classificadas como bem diferenciadas (grau I), moderadamente diferenciadas (grau II) ou mal diferenciadas (grau III).

Fisiopatologia

Todos os tumores malignos da glândula mamária têm o potencial de metástase. O risco e o padrão metastático são influenciados pelo tipo de tumor, diferenciação histológica e vários fatores prognósticos clínicos. Em geral, os tumores epiteliais malignos metastatizam via linfáticos para os linfonodos regionais e os pulmões, enquanto os tumores mesenquimais tipicamente metastatizam pela via hematogênica diretamente para os pulmões.

A maioria dos tumores mamários (80-96%) em gatos é maligna e a maioria dos tumores malignos são adenocarcinomas. Os sarcomas são raros. Os tumores mamários em gatos geralmente crescem rapidamente e a metástase é comum.

Etiologia

Estrogênios e progesterona desempenham um papel importante no desenvolvimento normal da glândula mamária, mas esses hormônios também têm sido implicados no desenvolvimento do tumor. Os estrógenos são promotores de células iniciadas, além de regular a transcrição de vários proto-oncogenes nucleares. 

A duração da exposição aos hormônios ovarianos no início da vida determina o risco geral de câncer mamário. Assim, da mesma forma que cães, gatas castradas precocemente têm menor risco de desenvolvimento de tumores de mama. O tratamento com progestágenos para controle populacional também aumenta o risco de desenvolvimento de tumores mamários em cães e gatos. 

Além da influência hormonal no risco de desenvolver tumores da glândula mamária, também existem outros fatores, como predisposição genética e dieta, que demonstraram contribuir para o desenvolvimento do tumor. 

Ainda, a obesidade no início da vida está associada a um risco aumentado de neoplasia mamária em comparação com cães com baixo peso no momento da puberdade. Essa associação também acredita-se que pode ocorrer em gatos, sem descrição em literatura.

Espécies, raças, sexo, e idade de maior prevalência

A maior parte dos tumores mamários em felinos ocorrem em fêmeas, enquanto 1-5% ocorrem em machos. A incidência aumenta substancialmente após os 6 anos de idade e a idade média no diagnóstico é de 10 a 12 anos, embora gatas jovens de 9 meses já tiveram neoplasia mamária relatada. Assim como em cães, algumas raças tem relatos de maiores incidência e se atribui componente genético a esse fato. São citados: gatos domésticos de pêlo curto, siameses e persas.

Achados de anamnese

A maioria dos animais com tumores de glândula mamária é clinicamente saudável quando se apresenta inicialmente para avaliação de seus tumores. Os tumores podem ter sido encontrados pelo proprietário ou podem ser achados incidentais durante o exame físico de rotina.

Sinais clínicos

Dependendo do tipo de tumor e de quando ele é detectado, os tumores podem ser pequenos, grandes, ulcerados, fixos, bem circunscritos ou envolver uma ou várias glândulas. Não é incomum encontrar mais de um tumor em glândulas diferentes; mais de 60% dos casos têm mais de um tumor. Os linfonodos regionais podem estar normais ou aumentados a palpação. 

Ulceração e necrose tumoral extensa ocorrem em 25% dos gatos afetados. Os mamilos das glândulas mamárias envolvidas podem ser eritematosas, edematosas e / ou exsudativas. Os tumores das glândulas caudais podem estar associados ao edema pélvico da formação de trombos tumorais. artérias femorais ou diminuição do retorno vascular das veias femorais. Particularmente em gatos com metástase de tumor mamário, podem estar presentes sinais sistêmicos (por exemplo, perda de peso, inapetência, letargia) e / ou respiratórios (por exemplo, intolerância ao exercício, dispnéia, cianose).

 

Diagnóstico

Citologia aspirativa: Os aspirados por agulha fina nem sempre podem diferenciar com precisão entre tumores epiteliais malignos e benignos. Dessa forma, um aludo citológico de neoplasia mamária benigna não exclui a necessidade de excisão da formação e envio para histopatológico. As citologias de tumores de mama podem ser úteis para diferenciar de outros tipos tumorais, como mastocitoma ou lipoma, por exemplo. 

A citologia do linfonodo regional é importante para avaliar metástases, mesmo que o mesmo seja normal a palpação. Podem ocorrer metástases em múltiplos linfonodos, incluindo os contralaterais, de modo que os linfonodos inguinais ou axilares aumentados também são aspirados, independentemente da localização do tumor primário. 

Nos gatos, a primeira glândula mamária (M1 cranial) drena consistentemente cranialmente para o linfonodo axilar e a quarta glândula (M4 caudal) drena caudalmente para o linfonodo inguinal superficial. A segunda e terceira (M2 e M3) podem drenar cranial ou caudalmente. Drenagem para os linfonodos esternais podem ocorrer em qualquer glândula, pelo menos em gatos.

Histopatologia: Histopatologia é o padrão-ouro para o diagnóstico de neoplasia mamária. 

No gato, a classificação dos tumores é baseada em características como formação de túbulos, atipia nuclear e celular e índice mitótico. Critérios gerais de classificação similares também foram utilizados em cães. Invasão nos sistemas linfático e / ou vascular (27- 57%) e / ou estroma circundante (42-88%) são comuns em tumores mamários em felinos.

Radiografias: Radiografias torácicas em 3 projeções são importantes no estadiamento e pesquisa de metástase. 

Ultrassom abdominal: A ultrassonografia abdominal tem o benefício adicional de melhorar o estadiamento ao examinar linfonodos e órgãos abdominais. 

Tomografia computadorizada: A TC em maior sensibilidade em permitir observar nódulos pulmonares menores na pesquisa de metástase.

Prognóstico

Em gatos, os tumores malignos geralmente crescem rapidamente e a metástase é relatada em 50-90% dos pacientes. Os locais mais frequentes de metástase incluem linfonodos e pulmões regionais. A metástase hepática e pleural também são comuns. A metástase também foi relatada nas glândulas supra-renais,diafragma, rins, baço, cérebro e ossos.

O prognóstico para gatos com neoplasia mamária metastática (seja de linfonodos regionais seja de órgãos distantes) é muito ruim. A metástase pulmonar é a causa mais comum de mortes relacionadas ao carcinoma mamário. A ocorrência de metástase está relacionada a sobrevida de 6 meses a 4 anos (sendo o maior tempo relacionado apenas a presença de metástase linfática regional). 

O tamanho do tumor primário também afeta o prognóstico. Gatos submetidos a cirurgia para tumores mamários com volume ≤8cm³ têm sobrevida relatada de 4,5 anos, em comparação com 2 anos para aqueles com volume tumoral 9-27 cm³ e 6 meses para tumores> 28 cm³. Tumores malignos de baixo grau são incomuns, mas a maioria dos gatos com tumores de baixo grau ou bem diferenciados sobrevive por mais de 1 ano. Apenas 10% dos gatos com tumores de alto grau tendem a sobreviver mais de 1 ano após o tratamento apenas com cirurgia.

Gatos tratados com mastectomia radical unilateral ou bilateral combinada com quimioterapia (doxorrubicina) tiveram o melhor resultado, quando comparados com gatos que realizaram cirurgia apenas, com um tempo médio de sobrevida de 5,5 anos. 

Diagnósticos diferenciais

Incluem outras neoplasias cutâneas, como lipoma, sarcoma, etc; que não envolvem tecido mamário. Abcessos, granulomas, mastites e hiperplasias mamárias também são diagnósticos diferencias importantes em gatas. 

Tratamento

Cirurgia: A cirurgia é sempre recomendada em gatos com ausência de metástase sistêmica no momento do diagnóstico. Recomenda-se excisão ampla da neoplasia mamária; nos gatos, pode ocorrer metástase entre as glândulas mamárias através dos sistemas linfático ou vascular, e por esse motivo, recomenda-se tipicamente mastectomias radicais uni ou bilaterais.

Para mastectomias de gatos, o ideal é remover margens de ao menos 1cm além da massa neoplásica, com retirada obrigatória de todo tecido mamário envolvido e retirada fáscia do músculo abdominal abaixo da formação (para obter margens profundas). Os linfonodos inguinais são rotineiramente removidos com excisão da quarta glândula. Geralmente, os linfonodos axilares são removidos apenas se estiverem aumentados ou se a citologia revelar metástase.

Se a mastectomia em cadeia bilateral for realizada, ela poderá ser realizada como um procedimento único ou em estágios (por exemplo, duas mastectomias unilaterais realizadas com intervalo de 3 a 6 semanas). Se não for realizada anteriormente, a OSH pode ser recomendada no momento da mastectomia unilateral.

Após a remoção cirúrgica, recomenda-se radiografias torácicas (3 projeções) e possível ultra-sonografia abdominal a cada 3 meses durante o primeiro ano e a cada 4-6 meses depois.

Radioterapia: A radioterapia é uma terapia adjuvante padrão (pós-operatória) ou neoadjuvante (pré-operatória) para câncer de mama com excisão estreita em mulheres. Sua utilidade para neoplasia mamária em felinos é desconhecida.

Quimioterapia: A quimioterapia adjuvante (pós-operatória) é recomendada na maioria dos casos. Para o tratamento de carcinomas ou adenocarcinomas, os protocolos à base de doxorrubicina são mais comumente recomendados. Podem ser usados também protocolos com uso de mitoxantrona ou carboplatina. A quimioterapia é mais eficaz contra doenças sistêmicas e microscópicas que permanecem após margem ampla excisão cirúrgica do tumor. A quimioterapia da neoplasia mamária macroscópica (primária ou metastática) pode resultar em melhora temporária na qualidade de vida, mas é improvável que produza uma resposta duradoura e completa.

Antinflamatórios não esteroidais: Muitos carcinomas mamários felinos expressam ciclooxigenase-2 (COX-2); portanto, a inibição de AINEs dessa enzima pode ser útil em gatos, embora não exista literatura que comprove sua eficácia. O piroxicam (inibidor não seletivo de COX) pode ser também considerados terapia de suporte. Como AINE, estes medicamentos proporcionam alívio da inflamação local associada ao tumor.

Outras medicações: Analgésicos adicionais são indicados para pós operatórios extensos, no caso de mastectomias uni ou bilaterais. Em combinação com analgesia sistêmica, a infiltração da ferida operatória com bupivacaína antes do fechamento da ferida parece diminuir a dor no período pós-operatório imediato após a mastectomia radical bilateral. Alguns autores preferem colocar um cateter de permanência que permita a administração de bupivacaína a cada 4 horas por 24 a 48 horas de pós-operatório. Para tumores mamários ulcerados, antibióticos podem ser indicados para infecção bacteriana secundária.

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