Micobacteriose

Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nome em Inglês

Mycobacterial Infections

Sinônimos

Tuberculose

Micobacteriose não tuberculosa

Pneumonia tuberculosa

Dermatite micobacteriana

Granulomatose

Micobacteriose cutânea típica

Definição

A micobacteriose é uma doença infectocontagiosa piogranulomatosa, crônica, causada por diferentes grupos de micobactérias consideradas oportunistas.

Causam granulomas ou piogranulomas localizados ou disseminados com bacteremia.

Estas bactérias, foram subdivididas em grupos e espécies de acordo com sua virulência, genética, características fenotípicas e bioquímicas.

São consideradas bactérias de crescimento lento ou rápido em meios de cultura. 

Etiologia e Fisiopatogenia

O Mycobacterium é um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR) que não se cora pela técnica de gram mas tem a estrutura da parede semelhante aos gram-positivos.

Este microrganismo é aeróbico, não esporulado, não encapsulado, não móvel e não flagelado. Pertence a ordem Actinomycetales e à família Mycobacteriaceae.

Podemos considerar dois grandes complexos a respeito das micobactérias, são eles o Mycobacterium tuberculosis e  não tuberculosas.

O complexo M. tuberculosis necessitam de um período longo de incubação para que as colônias apareçam nas culturas.

As espécies que pertencem a este complexo são M. tuberculosis, M. bovis, M.pinnipedii, M. microti, M. capraeM. africanum.

Estas espécies obrigatoriamente necessitam de um hospedeiro.

Já as micobactérias não tuberculosas podem ser encontrada em diferentes locais ao mesmo tempo, sejam eles o solo, água e aerossóis.

O complexo mais representativo deste grupo é o  M. avium (MAC), estas são micobactérias oportunistas que causam granulomas principalmente na pele, trato respiratório e digestório.  

Outras espécies também estão relacionadas às infecções nos gatos e cães, sendo elas M. kansasii, M. simiae, M. genavense, e o grupo M. terrae.

Estes também apresentam crescimento lento e são semelhantes fenotipicamente ao M. avium

Os cães e o gatos são mais suscetíveis ao M. bovis e o M. tuberculosis. Quando infectados com o M. tuberculosis e desenvolvem pneumonia, estes animais podem eliminar os bacilos nas secreções respiratórias.

Sabe-se ainda que esta espécie é encontrada mais frequentemente nos cães do que nos gatos. 

O M. tuberculosis tem como hospedeiro reservatório os seres humanos, os animais em contato com  as pessoas que estão contaminadas podem desenvolver doença.

Este contágio ocorre por meio de inalação de aerossóis, ou que podem estar no ambiente e em objetos infectados através de tosse ou espirros. 

Já o M. bovis, é uma espécie com distribuição mundial e que pode infectar diversos hospedeiros.

Acometem com maior frequência os gatos do que os cães, devido ao consumo de leite cru ou não pasteurizado, ou por ingestão de carne bovina não cozida.

A infecção ocorre através da entrada da bactéria no trato gastrointestinal. 

As espécies que compõem o MAC, como já citado anteriormente pode estar presente em diversos ambientes e contaminar a água de diversas origens, mesmo aquelas tratadas.

Também estão presentes nas fezes de aves, mamíferos e produtos de origem láctea.

Os cães de raças como Schnauzer miniatura e Basset Hound, e gatos siameses e abissínio possuem diversos relatos de infecção e formação de granulomas em órgãos parenquimatosos e tecidos profundos. Contudo, estes se diferem dos que são originados na tuberculose.  

Geralmente, os animais desenvolvem as lesões de acordo com a porta de entrada do microrganismo.

Se for por inalação haverá o quadro de pneumonia, se for por ingestão ocorrerá infecções do trato gastrointestinal ou de linfonodos abdominais.

Se houver inoculação através da pele por objetos perfurocortantes resultará em granulomas cutâneos.

Já se a doença for disseminada, dificilmente será descoberto a porta de entrada principal.

Existem muitos relatos de outras espécies de micobactérias causando doença ou não em cães e gatos.

São eles os de crescimento lento como M. kansasii, M. simiae, M. genavense e M. terrae, estes são foram encontrados em animais assintomáticos e em infecções em animais imunocomprometidos.

Os considerados de crescimento rápido foram isolados de cães e gatos doentes como o M. phlei, M. fortuitum, M. smegmatis, M. alvei, M. thermorresistible, e o complexo M. chelonae-abscessus.  

A partir da entrada do agente no organismo ocorre multiplicação local, podendo atingir o linfonodo regional, isso irá depender da via de penetração.

Como forma de eliminar a bactéria, o organismo pode desenvolver granulomas no local da lesão e no linfonodo regional, o que é denominado como complexo primário completo.

Este complexo primário pode limitar-se ao local ou ainda atingir as vias linfáticas e hematógenas, colonizando outros tecidos. 

Os gatos apresentam com maior frequência granuloma apenas nos linfonodos, acometendo principalmente os mandibulares, ileocecais e amígdalas. Sendo este, denominados como complexo primário incompleto.

Quando são infectados por M. tuberculosis ou MAC, os gatos desenvolvem lesões mucocutâneas, piogranulomatosas com diversos graus de necrose, infiltrado linfocitário, podendo haver ainda presença de células gigantes. 

De modo geral, quando os animais são contaminados com o MAC as lesões são restritas ao local de entrada e são auto-limitantes, porém, uma vez que o indivíduo esteja imunocomprometido ou em situação de estresse pode haver disseminação para os tecidos e sistema linfático, não sendo evidente o granuloma primário.

Achados de anamnese

A doença geralmente é subclínica em cães e gatos, os sinais podem não ser muito específicos, quando ocorre formações dos granulomas, estes irão refletir nas manifestações clínicas apresentadas.   

Manifestações clínicas

As manifestações irão depender do local de formação do granuloma, devido a porta de entrada, virulência da espécie e condição imunológica do animal.

Geralmente, o M. tuberculosis causa mais infecções pulmonares, e o M. bovis atinge mais o trato gastrintestinal.

Quando ocorre formação de granulomas no parênquima pulmonar pode haver quadro de broncopneumonia e linfadenomegalia.

São mais frequentes em cães e levam a anorexia, perda de peso e tosse não produtiva. 

Nos gatos, as manifestações serão primariamente intestinais e estes apresentarão êmese, diarreia, perda de peso, anemia e evidências de má absorção.

Em alguns casos, pode ocorrer efusão abdominal. 

A evolução do comprometimento pulmonar pode resultar em sinais de dispneia, cianose, efusão pericárdica e pleural.

Granulomas podem ser encontrados em órgãos da cavidade abdominal, principalmente no baço e fígado.

Também podem ser observados na pele, formando úlceras drenantes e que não cicatrizam, estes sinais geralmente são observados mais nos gatos.

Os gatos ainda podem desenvolver uveíte granulomatosa  quando infectados com M. bovis.

Ocorre ainda linfadenomegalia generalizada, febre, anorexia e alguns animais podem vir a óbito de forma súbita.  

Geralmente as infecções pelo complexo M. avium (MAC) são subclínicas, os cães quando manifestam sintomas em geral são jovens de até 4 anos de idade e apresentam granulomas pelo intestino, fígado, baço e linfonodos mesentéricos.

Em alguns casos pode haver êmese, diarreia, febre e hematoquesia.

Também pode ocorrer evidências de paresia, hiperestesia paraespinhal, claudicação, edema subcutâneo, dispnéia e uveíte.

Porém o que é encontrado com mais frequência são sinais de letargia e perda de peso.

Nos gatos contaminados por MAC, as manifestações serão de aumento de volume ao redor da cabeça, edema, linfadenomegalia regional e geralmente estão associadas a inoculação do microrganismo na pele.

Pode assim como nos cães ser disseminada pelo organismo, causando aumento de baço, fígado e linfonodos intestinais.

Há relatos ainda de febre, anorexia e perda de peso em gatos infectados.

Se houver disseminação pode ocorrer comprometimento pulmonar. 

Procedimentos diagnósticos

A história clínica e epidemiológica é importante para nos basearmos no diagnóstico.

Saber onde o animal reside, principalmente se é em área rural, se há contato com animais de produção, e como é a dieta são muito importantes.

Também é de extrema valida saber se existem pessoas com tuberculose no ambiente domiciliar destes animais.

Os exames laboratoriais geralmente são pouco específicos, o hemograma pode mostrar anemia arregenerativa.

O leucograma apresenta leucocitose por neutrofilia e monocitose. 

Em infecções por MAC, também ocorre anemia, leucocitose e linfopenia.

A bioquímica sérica demonstra níveis normais ou diminuídos de albumina, hiperglobulinemia e hipercalcemia que está associada a inflamação granulomatosa.

Para o MAC, há elevação das enzimas hepáticas como o AST e ALT nos cães e nos gatos hiperglobulinemia. 

Nos exames de imagens podemos visualizar massas dispersas no tórax e abdômen.

Ao exame radiográfico torácico nota-se linfadenomegalia traqueobrônquica, lesões pulmonares calcificadas, infiltrados intersticiais, podendo ser encontrados ainda efusão pericárdica e/ ou pleural.

Em abdômen pode ser observado aumento de fígado e baço, massas abdominais, linfonodos mesentéricos calcificados e ainda efusão abdominal.

Em quadros de lesões ósseas, pode haver discoespondilite, osteomielite vertebral e osteopatia pulmonar hipertrófica.

 

Diagnóstico

O teste de tuberculina é empregado para a avaliação da hipersensibilidade tardia nos animais, além de ser um teste para diagnóstico da tuberculose em humanos.

A tuberculina é uma proteína purificada derivada (PPD) que é inoculada por via intradérmica na face interna do pavilhão auricular ou na área medial do membro pélvico.

Quando positivo ocorre aumento e endurecimento da região, e após 48 e 72h ocorre edema necrótico.

Os relatos em cães geram dúvidas a respeito do teste, mas quando inoculados com a vacina de humanos (BCG) houve boa resposta, já em gatos sabe-se que a resposta não é evidente sendo necessárias altas doses de tuberculina.

O cultivo microbiano, é o teste padrão para diagnóstico das micobacterioses.

O crescimento das micobactérias é mais lento quando comparadas as demais bactérias.

Para detecção dos microrganismos pertencentes ao complexo M. tuberculosis, deve-se coletar o material, conservar sob refrigeração ou congelamento, descontaminá-lo caso seja necessário e incubá-lo a 37°C de 15 a 90 dias. 

O método de Petroff (hidróxido de sódio a 4%), o ácido oxálico a 5% e o HPC (cloreto de 1-hexadecil-piridínio) são os mais utilizados. 

Outro método a ser utilizado de materiais como, aspirado de linfonodos ou órgãos, imprint de biópsia ou necropsia é a coloração de Ziehl-Nelsen.

Este teste serve como um exame de triagem frente a suspeita clínica, onde é possível observar o agente que esta causando a doença.

Deve-se levar em conta e ter cautela pois outros microrganismos também podem apresentar características semelhantes como Rhodococcus, Corynebacterium, Nocardia, Legionella micdadei, Cyclospora, Cryptosporidium e Isospora. 

O PCR (reação e cadeia de polimerase), também é um teste que pode ser utilizado tanto na detecção através das colônias quanto de amostras colhidas diretamente dos animais doentes.

Terapia inicial

Muitos pontos devem ser avaliados para o início do tratamento, principalmente quanto à tuberculose.

As micobacterioses em geral são doenças de períodos longos de tratamento e o animal deve receber terapia suporte para evitar as complicações principalmente nos animais debilitados, senis, hepatopatas e caquéticos.

Tratamento

O tratamento deve-se basear nos exames baciloscópicos, moleculares ou histológicos para seu início, uma vez que o isolamento do agente é lento.

Para as micobacterioses de crescimento rápido, é muito importante o isolamento e o teste de sensibilidade aos antibióticos antes da escolha do fármaco a ser utilizado.

O grupo de M. smegmatis é sensível a diversas opções de tratamentos, já o M. fortuitum, é um grupo mais resistente aos antibióticos então as doses a ser usadas devem ser mais altas.

O M. chelonae-abscessus é resistente a todos os antimicrobianos orais disponíveis, mas pode-se utilizar a claritromicina e a linezolida. 

Nos cães e gatos que apresentem micobacterioses, principlamente os com tuberculose, a discussão sobre o tratamento é muito importante, mas sabe-se que de forma geral, o tratamento não é recomendável, tendo em vista o risco de infecção para os seres humanos e outros animais, através da eliminação dos bacilos no ambiente.

Caso se opte pelo tratamento, este animal deve ser isolado e monitorado de perto pelo médico veterinário. 

Quando há doença ativa por M. tuberculosis, a duração do tratamento é de cerca de 6 a 9 meses com emprego de pelo menos 2 medicamentos.

O ministério da saúde restringe os medicamentos de escolha para o tratamento de humanos, que são a isoniazida, pirazinamida, rifampicina e etambutol, dificultando ainda mais o acesso na medicina veterinária. 

Apesar destes medicamentos terem eficácia para os humanos, já tem ocorrido aumento na resistência de espécies de Mycobacterium.

Isso traz maior preocupação quando se pensa em usar os mesmos fármacos para tratar animais.

É indicada a excisão cirúrgica em gatos com lesões cutâneas e utilização de antimicrobianos nestas lesões que geralmente não cicatrizam.

Diagnóstico diferencial

Pneumonia bacteriana e viral

Neoplasias

Dermatofitose

Criptococose

Abscessos

Demodiciose generalizada

Paniculite nodular

Complexo granuloma eosinofílico

Esporotricose

Doenças linfoproliferativas

Micose pulmonares

Sarcoidose

Paniculite nodular

Panesteatites

Prototecose

Nocardiose

Prognóstico

O prognóstico dependerá do grau de comprometimento e da gravidade da infecção. Isso também depende da espécie envolvida e da forma de apresentação da doença.

De modo geral, as lesões cutâneas tem um prognóstico mais favoráveis.

 

Literatura recomendada

IKUTA, Cassia Yumi et al. Micobacteriose e tuberculose em cães e gatos. In: MEGID, Jane et alDoenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 39, p. 413-422. ISBN 978-85-277-2789-1.

GREENE, Craig E. et al. Mycobacterial Infections. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2006. p. 462-489. ISBN 978-1-4160-3600-5.

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