Micetoma Micótico

Dr Maurício Piovesan Henrique

Ultima atualização: 17 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Eumicetoma, micetoma eumicótico, maduromicose. 

Nome em inglês

Mycotic mycetoma

Definição

Micetoma micótico é definido como uma rara infecção de pele, tecido subcutâneo e eventualmente músculos e ossos causada por eumicetos ou actinomicetos, que cursa com a tríade tumefação do tecido acometido, presença de grãos ou grânulos correspondentes às micro-colônias do agente no tecido infectado e formação de fístulas para o exterior da lesão. 

Fisiopatologia

Os micetomas micóticos são resultado da inoculação traumática de eumicetos e actinomicetos oriundos do solo no tecido cutâneo e subcutâneo.

Tal inoculação aparentemente não necessita ser profunda, e pode ocorrer um longo período de incubação até o desenvolvimento da doença. 

Após a inoculação, a resposta imunológica inicial do hospedeiro impede o desenvolvimento de filamentos fúngicos livres no tecido infectado, o que leva ao desenvolvimento dos grãos de micro-colônias característico.

A perpetuação destas micro-colônias leva ao estabelecimento de um processo inflamatório crônico do tipo granulomatoso, com lesões exuberantes e tipicamente fistulosas. 

Os dados acerca da predisposição individual para a formação dos micetomas ainda são conflitantes – enquanto alguns autores encontraram uma resposta imune diminuída em pacientes humanos, outros não foram capazes de demonstrar quaisquer alterações imunológicas. 

Etiologia

Em teoria, eumicetos e actinomicetos em geral podem ser causadores de micetomas.

Porém, nos escassos relatos de literatura, os principais agentes isolados foram Pseudallescheria boydii, Curvularia genicuIata, Torula spp, Scedosporium apiospermum e Madurella mycetomatis.

Maior ocorrência

Eumicetomas ocorrem principalmente em regiões de clima tropical e subtropical, incluindo norte da África, sul da Ásia e Américas.

A província de Madura, na Índia, é fonte de razoável quantidade de relatos – daí a sinonímia “maduromicose”.

Pode acometer diversas espécies animais, mas raros casos foram relatados em cães e gatos.

Pela escassez de relatos, não estão disponíveis dados concretos acerca de predisposição etária, sexual e racial em cães e gatos. 

Achados de anamnese

Em anamnese, podem ser obtidas do tutor/proprietário informações relacionadas à evolução das lesões. Estas podem, inicialmente, apresentar-se meramente edemaciadas, progredindo para o aspecto exuberante e fistuloso. 

Outra informação importante diz respeito ao estado geral de saúde do animal acometido: normalmente, o animal apresenta-se em bom estado geral, e raramente são relatadas alterações de comportamento ou apetite. 

Uma informação especialmente útil é a lembrança de um possível histórico de trauma cutâneo que possa estar relacionado à inoculação do agente – ressalta-se que a infecção pode ficar latente por várias semanas; portanto, tal evento de inoculação traumática não necessariamente deve ser recente. 

 

Manifestações clínicas

Normalmente, o aspecto clínico do eumicetoma é de lesões tumefatas e/ou granulomatosas exuberantes, com a presença de grânulos e formação de fístulas para o exterior da lesão.

Por haver acometimento de tecidos profundos, o animal pode apresentar dor à palpação. 

Raramente são observados pirexia, apatia ou outros sinais de acometimento sistêmico. 

 

Procedimentos diagnósticos

Exames como hemograma e perfis bioquímicos raramente trazem informações significativas.

A execução de radiografia do membro ou sítio da lesão pode indicar acometimento ósseo, especialmente envolvendo osteólise e/ou osteomielite – corroborando com o fato da infecção ser localmente profunda. 

O exame microscópico, tanto nos casos de citologia por agulha fina ou histopatológico a partir de amostra coletada por biópsia, geralmente revela a presença de múltiplas estruturas fúngicas associadas a denso infiltrado inflamatório composto por macrófagos e neutrófilos polimorfonucleares, caracterizando o piogranuloma. 

Também pode-se recorrer ao cultivo e isolamento fúngico, a partir de material suspeito, em ágar Sabouraud-dextrose com cloranfenicol, incubado a 37ºC.

O crescimento das colônias varia de acordo com o agente etiológico mas, via de regra, poucos dias são necessários para tal.

A partir das características da colônia, é possível a identificação do agente causal. 

Diagnósticos diferenciais

Destacam-se na lista de diagnósticos diferencias outras enfermidades que podem apresentar-se com o mesmo padrão lesional, tais como criptococose, esporotricose, neoplasias, histoplasmose, nocardiose, micobacteriose e pseudomicetoma dermatofítico.

 

Terapia inicial

Normalmente, a terapia com antifúngicos sistêmicos e/ou tópicos é ineficaz: nos poucos casos de sucesso parcial, observa-se um longo período de tratamento, com o ressurgimento das lesões após a suspensão do medicamento. 

A melhor terapia é a excisão cirúrgica da lesão. Porém, geralmente se faz necessária a ressecção com margem ampla, o que pode acarretar em dificuldades para a execução da técnica. 

A associação de itraconazol na dose de 5 mg/kg a cada 24 horas com flucitosina 100 mg/kg a cada 24 horas, associada à ressecção cirúrgica posterior da lesão, foi relatada como possibilidade de terapia em um trabalho.

 

Terapia de suporte e manutenção

A depender do grau de severidade das lesões, especialmente nos casos de acometimento muscular e ósseo, pode ser necessário suporte analgésico.

Comumente, também podem ocorrer infecções secundárias por bactérias no sítio das lesões; nestes casos, a associação de antimicrobianos ao tratamento antifúngico pode ser necessária. 

Por fim, frente à possibilidade de utilização de antifúngicos por longos períodos, é prudente a realização de exames bioquímicos controle periódicos, especialmente para monitoração de função hepática.

Prognóstico

Pela gravidade do acometimento cutâneo e tecidos profundos (como músculos e ossos), associado ao frequente insucesso na terapia, o prognóstico dos micetomas micóticos é reservado a mau. 

 

Literatura recomendada

COYLE, VALERIE; ISAACS, JOSEPHINE P.; O’BOYLE, DENISE A. Canine mycetoma: a case report and review of the literature. Journal of Small Animal Practice, v. 25, n. 5, p. 261–268, 1984.

 

ELAD, D. et al. Eumycetoma caused by Curvularia lunata in a dog. Mycopathologia, v. 116, n. 2, p. 113–118, 1991.

 

GUILLOT, J et al. Eumycetoma Caused by Cladophialophora bantiana in a Dog. Journal of Clinical Microbiology, v. 42, n. 10, p. 4901–4903, 2004.

 

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