Lipidose hepática

Dra. Marcela Valle Caetano Albino

Ultima atualização: 04 MAIO DE 2020

Nome em inglês

Hepatic lipidosis

Definição

A lipidose hepática é caracterizada pelo acúmulo de triglicérides em mais de 80% dos hepatócitos, resultando em um aumento de 50% no peso do fígado, prejuízo ao seu funcionamento e colestase intra-hepática.

Fisiopatologia

A fisiopatologia da lipidose hepática é complexa. O balanço energético negativo, geralmente causado pela anorexia, é a causa primária para o desenvolvimento do quadro, principalmente em gatos obesos. O balanço energético negativo induz a secreção de alguns hormônios, que, por sua vez, estimulam a lipólise. Com a lipólise, a concentração de ácidos graxos livres aumenta e estes são absorvidos pelos hepatócitos. O resultado dessa rápida mobilização de gordura periférica é o seu acúmulo no fígado.

Em situações de anorexia prolongada, gatos, por serem carnívoros estritos, rapidamente desenvolvem ácidos graxos e aminoácidos essenciais e vitaminas. Acredita-se que essas deficiências apresentam papel relevante no desenvolvimento da lipidose hepática.

Etiologia

A lipidose hepática pode ser classificada em primária ou secundária. Na forma primária, a anorexia acontece em um animal saudável devido a evento estressante, alimento pouco palatável ou pouca disponibilidade de alimento. Na secundária, forma mais frequente de lipidose, a anorexia é consequência a uma doença de base. As doenças de base são inúmeras, mas as mais frequentes são diabetes mellitus, pancreatite, colangite, doença gastrointestinal, doença renal e neoplasia. 

Maior ocorrência

Apesar de ser mais relatada em gatos de meia-idade, a lipidose hepática pode ocorrer em felinos de qualquer idade. Não parece haver predisposição sexual ou racial. 

Manifestações clínicas

Gatos com lipidose hepática apresentam histórico de anorexia e/ou perda de peso, que pode ter duração de dias a semanas. Outras manifestações clínicas comuns são êmese, apatia, ictérica, desidratação, sialorreia, constipação ou diarreia.

Procedimentos diagnósticos

Ao hemograma pode ser identificada anemia não regenerativa discreta a moderada, neutrofilia, presença de corpúsculos de Heinz e poiquilocitose.
Dentro da bioquímica sérica, o mais característico da lipidose hepática, considerado até patognomônico por alguns, é uma elevação significativa da fosfatase alcalina (FA) e quase nenhum aumento da gama glutamil transferase (GGT).
É comum elevação discreta a moderada da alanina aminotransferase (ALT) e da aspartato aminotrasnferase (AST). Elevações da ALT similares ou maiores que da FA devem motivar uma pesquisa por doença hepática primária, como colangite ou neoplasia. Hiberbilirrubinemia também é comum.
Hipoalbuminemia pode estar presente devido a doença gastrointestinal importante ou lipidose hepática idiopática. Pode haver hiperglicemia por estresse, diabetes mellitus ou pancreatite aguda grave. Hipertrigliceridemia também pode estar presente.
Azotemia ou distúrbios eletrolíticos são inespecíficos e podem estar relacionados a uma doença renal concomitante ou serem secundários a anorexia, êmese e desidratação.
Gatos com lipidose podem apresentar anormalidades nos tempos do coagulação.
Ao exame ultrassonográfico, o fígado se apresenta aumentado e difusamente hiperecogênico.
O diagnóstico definitivo depende de análise citológica, coletada por aspirado de agulha fina, ou em alguns casos, de análise histopatológica, através de biópsia hepática. A citologia hepática, por apresentar menos riscos, tende a ser mais indicada.

Terapia

As primeiras medidas na estabilização do gato com lipidose hepática são a correção da desidratação e dos distúrbios eletrolíticos, sendo a hipocalemia o mais comum. Também deve ser instituído o controle da êmese e da naúsea, com uso de maropitant (1mg/kg/cada 24 horas, IV ou SC) preferencialmente, ou de ondasetrona (0,5-1mg/kg/cada 6 a 12 horas, IV).

O principal objetivo na terapia do paciente com lipidose hepática é tira-los do estado catabólico e suplementar aminoácidos essenciais. Doenças concomitantes devem ser tratadas e suporte nutricional completo deve ser instituído. 

Apesar de poder ser tentado, é improvável que estimulantes de apetite, como mirtazapina, produzam o efeito desejado nesses pacientes. Alimentação forçada não é recomendada pelo risco de pneumonia aspirativa e desenvolvimento de aversão ao alimento pelo paciente. Assim, formas de alimentação enteral, através de sondas nasoesofágicas, esofágicas ou gástricas, são indicadas.  

A dieta ideal para esses pacientes é rica em proteína (30-40%), moderada em lipídios e pobre em carboidratos. A maioria das dietas comerciais para gatos em condições críticas contempla essas necessidades. A necessidade calórica desses animais pode ser calculada pela fórmula (peso em kg)0,75 x 70. Recomenda-se iniciar a alimentação com 50% do volume calculado e aumentar gradualmente até o volume total.  O volume diário deve ser dividido em 6 a 8 porções. A administração deve ocorrer ao longo de 10 a 15 minutos e o alimento deve estar morno.

Hipofosfatemia pode acontecer durante a realimentação e, se grave, pode levar a anemia hemolítica.

Prognóstico

A resposta ao tratamento e o prognóstico dependem em grande parte da doença de base, que frequentemente está presente. Aqueles pacientes sem doença de base grave, tratados adequada e rapidamente com suporte nutricional, apresentam taxa de recuperação de 80 a 85%. Já os animais com pancreatite aguda apresentam taxa de 20%. Gatos com lipidose hepática idiopática costumam ser mais jovens do que aqueles com doenças associadas e apresentam melhor prognóstico. Felizmente, acredita-se que a lipidose hepática não ocorra novamente naqueles animais que sobreviveram.

Literatura recomendada

Steiner, J.M. Parenchymal liver diseases in cats In: Small Animal Gastroenterology, Schlutersche, 1 ed, 2006.

Washabau, R.J.; Day, M.J. Liver In: Canine & Feline Gastroenterology. Elsevier Saunders, 1 ed., 2012. 

Valtolina, C; Favier, R.P. Feline Hepatic Lipidosis. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 47, p. 683-702, 2017.

Webb, C.B.. Hepatic lipidosis: Clinical review drawn from collective effort. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 20, p. 217-227,2018 

 

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