Intoxicação por Veneno de Sapo – Bufotoxina

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 16 FEV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Intoxicação por veneno de sapo, intoxicação por toxina do sapo, intoxicação por bufotoxina.

Nome em inglês

Toad venom intoxication

Definição

A intoxicação por veneno de sapos do gênero Bufo ocorre após a exposição a vários agentes tóxicos produzidos pelos sapos deste gênero. A exposição pode ser via mucosa oral, ocular, pele ferida, olhos, etc.

Etiologia

Existem mais de 200 espécies de sapos da família Bufonidae com distribuição mundial.

No entanto, o maior número de espécies ocorre em regiões de clima tropical e úmidas como o Brasil. No Brasil são dois os representantes da família Bufo que causam interesse, os sapos do gênero Rhinella como o Rhinella schneideri, (antigamente chamado de Bufo paracnemis) e o Rhinella marina (antigamente chamado de Bufo marinus), ambos conhecidos como sapo cururu, sapo boi ou cururu.

Tanto o Rhinella scneideri quanto o Rhinella marina, também conhecido como sapo-marinho ou sapo gigante, possuem grandes glândulas de veneno. E tanto os adultos como os ovos e os girinos podem ser altamente tóxicos quando ingeridos ou mordidos.

Foto: Edson Ventura/Bioventura

Rhinella scneideri

Rhinella marina

Os sapos-cururus adultos possuem grandes glândulas parotoides ou paratóides localizadas bilateralmente atrás dos olhos e outras glândulas espalhadas ao longo do corpo que quando pressionadas, expelem um líquido branco e leitoso com várias substâncias conhecidas como aminas biogênicas (adrenalina, noradrenalina, bufoteninas, etc) e derivados esteroides como aos bufodenolídeos e as bufotoxinas, que são cardiotóxicas para os animais.

As intoxicações são mais comuns no verão e atingem mais cães que gatos.

Geralmente ocorre quando os cães querem brincar ou morder os sapos e ao comprimirem suas glândulas o veneno é liberado na boca do animal. Os sapos ao se sentirem acuados em um ataque podem esguichar o veneno até 2 metros e distância.

Fisiopatologia

As substâncias produzidas nestas glândulas parotoides do sapo são rapidamente absorvidas através das mucosas orais do cão ou gato após ingestão ou ataque com mordida no sapo. E também podem ser absorvidas pela pele não integra.

As aminas biogênicas (epinefrina e norepinefrina), podem atuar sobre os receptores α-1 adrenérgicos (ocasionando vasoconstrição periférica), os β-1 adrenérgicos  podem causar  taquicardia e os  β-2 adrenérgicos  podem causar broncoconstrição e vaso dilatação muscular, além das substancias como as  indolalquilaminas (serotonina e 5-hidroxitriptofano) que podem causar efeitos alucinógenos e vasopressão. As bufoteninas, dihidrobufoteninas e bufotionina atuam sobre o sistema nervoso central potencializando efeitos alucinógenos e ocasionando tremores, convulsões, depressão, hipertermia, entre outras manifestações clínicas

Vários agentes tóxicos importantes são expelidos como as bufageninas e as bufoteninas. Estas toxinas glicosídicas são cardioativas e têm ações similares às substâncias digitálicas. Estas substâncias podem causar arritmias cardíacas graves, como fibrilações ventriculares.

As Bufoteninas são as toxinas mais potentes e tem ações no SNC, causando alucinações. E ainda possuem propriedades vasopressoras.

Maior ocorrência

Os sapos do gênero bufo são encontrados mais em regiões de clima tropical, quentes e úmidas, podendo ser encontrados tanto nas regiões rurais quantos nas grandes cidades.

Devido ao hábito noturno dos sapos, a maioria das intoxicações ocorrem a noite.

Não há predisposição quanto a raça, sexo, idade, mas os acidentes mais graves ocorrem com animais menores devido a maior concentração de veneno por peso vivo do animal. Mas cães maiores tem maiores chances de mastigar e comer um sapo, acarretando quadros mais severos de intoxicação.

Existem mais relatos de cães do que de gatos acometidos por este tipo de envenenamento

Achados de anamnese

Geralmente os proprietários relatam a presença de sapos no local, alguns conseguem presenciar o acidente (o ataque/mordida do cão ao sapo) ou relatam ter encontrado o animal morto pela manhã com muita saliva ao redor da boca.

Alguns relatam encontrar o animal com salivação intensa (ptialismo) e/ou vômitos, protrusão da língua, fraqueza, andar cambaleante, convulsões, taquipnéia, etc.

Manifestações clínicas

Geralmente as manifestações clínicas são bem características e se vierem acompanhadas do histórico ajudam no fechamento do diagnóstico:

  • hipersalivação (ptialismo) – que normalmente ocorre em segundos a minutos após a exposição a toxina do sapo (observada em 78% dos casos em um estudo retrospectivo de intoxicação por B. marinus)
  • mucosas hiperêmicas, geralmente com coloração vermelho - tijolo.
  • sinais de enjoou (ânsia de vômito) e/ou vômitos
  • tremor de cabeça e tremores musculares
  • animal tenta colocar a pata na boca
  • vocalização
  • hiper-excitabilidade
  • ataxia - desorientação
  • convulsões
  • nistagmo
  • taquicardia ou bradicardia
  • arritmia (ECG)
  • taquipnéia/dispnéia
  • fraqueza
  • sincope relacionada a hipertermia
  • tremores musculares e ataxia
  • coma seguido de morte

Procedimentos diagnósticos

Deve-se assim que possível e após estabilização do paciente, colher sangue para hemograma completo, bioquímica sérica renal e hepática e glicemia.

 

Os achados laboratoriais são inespecíficos e podem resultar em:

 

  • hipercalemia – acúmulo de potássio no meio extracelular devido ao bloqueio da bomba de sódio-potássio, semelhantemente aos digitálicos. Ocorre mais comumente em humanos que cães.
  • hipocalcemia – devido ao acúmulo de cálcio no interior das células pela mesma ação digitálico-like
  • aumento do volume globular
  • elevação da ALT e AST - efeito citotóxico hepático da bufotoxina
  • hiperglicemia - possivelmente causada pelo aumento da taxa metabólica induzida pela circulação de catecolaminas
  • aumento da uréia - elevação da atividade hepática como ação direta do processo inflamatório relacionado à citotoxicidade)

 

Realizar Eletrocardiografia (ECG):

 

  • Taquicardia - achado mais comum - com frequências acima de 260 bpm, mas lembrar que também pode ocorrer casos de bradicardia.
  • Arritmias ventriculares graves – mais comuns com Rhinella marina
  • Contrações ventriculares prematuras
  • Escape juncconal
  • Bloqueio atrioventricular (BAV)
  • Fibrilação ventricular

Mensurar Pressão Arterial: Hipotensão pode estar presente.

Análise de Toxinas: A análise de toxinas do sapo Bufo é de difícil detecção pois as toxinas não permanecem nos tecidos.

Terapia

  1. Fluidoterapia IV – instaurar imediatamente o acesso venoso para repor fluidos, eletrólitos, restabelecer a hidratação, melhorar a hipotensão e para a aplicação de drogas de emergência. Utilizar fluido cristaloide (solução fisiológica a 0,9% ou Ringer Lactato) sob taxa de infusão de 5 mL/Kg/h.

 

  1. Se animal estiver convulsionando, aplicar Diazepam a 0,5 mg/kg IV e se necessário Propofol 2mg/K IV.

 

  1. Iniciar oxigenioterapia (preferencialmente via sonda nasal) se o animal estiver com sinais de dispneia ou taquipnéia.

 

  1. Se houver possiblidade, iniciar o quanto antes a lavagem da cavidade oral com água fria sob pressão (“flushing” no sentido lateral à cavidade oral) por 10-20 minutos para retirar todo o excesso de toxina que ainda possa estar na cavidade oral e peri-oral do animal.

 

  1. Se o animal ingeriu o sapo ou pedaços dele, e se o animal estiver consciente, sem sinais neurológicos, somente com salivação pode se tentar induzir o vomito.

 

  1. Não há evidências cientificas de que o carvão ativado possa ajudar a absorver as toxinas já ingeridas, mas alguns autores descrevem o uso de carvão ativado em pacientes sem alterações neurológicas, estáveis, na dose de 1 grama/kg, via oral, a cada 24 horas.

 

  1. Se animal estiver com Hipertermia: Instaurar medidas de resfriamento* até que a temperatura do corpo atinja temperaturas próximas a 39,4 ° C, mas evite resfriamento rápido e excessivo. Pode-se utilizar resfriamento com fluidos, bolsas de água fria, ambiente em baixa temperatura (ar condicionado), tapete com gel resfriado, etc.

 

  1. Terapia Antiarrítmica:

 

- A atropina pode ser administrada com precaução na dose de 0,02-0,04 mg/ kg IM, SC, IV (conforme necessário) para tratar a bradicardia e o bloqueio cardíaco ou outras alterações do nó sinoatrial. A atropina também ajudar a reduzir a hipersalivação, mas deve ser utilizada somente se houver bradicardia e não apenas hipersalivação. Sendo totalmente contraindicada se houver taquicardia. Obs* Alguns autores não indicam o uso da atropina para reduzir a salivação, pois esta é uma via importante de eliminação das toxinas

 

- O propanolol pode ser administrado para taquicardia sinusal e outras taquiarritmias supraventriculares na dose de 0,02 mg/kg IV lentamente (conforme necessário) até uma dose máxima de 0,1 mg/kg; até cessação das arritmias. Importante a monitoração através do ECG.

 

-  O Esmolol (outro beta bloqueador potente) pode ser considerado, mas deve ser administrado primeiro, uma vez que é de curta duração. A dosagem é de 0,05 a 0,1 mg /kg IV a cada 5 minutos para uma dose máxima de 0,5 mg/kg. Se a arritmia responder à terapia com esmolol, o propanolol pode ser iniciado devido à sua longa duração de ação.

 

- A lidocaína pode ser usada para tratar taquicardia ventricular, mas deve ser feita com cautela, pois pode causar convulsões e depressão cardíaca em gatos. A lidocaína pode ser administrada bem lentamente na dose de 0,25 - 0,5 mg/kg IV durante 5 minutos, e então iniciar uma taxa de infusão a 10-20 µg/kg/min IV.

Se houver vômitos profusos pode ser iniciar a terapia ante emética, mas levar em conta que esta também é uma via de eliminação das toxinas nas primeiras horas após a ingestão das toxinas. Utilizar droga antiemética – Cloridrato de Maropitant (1 mg/Kg SC a cada 24 horas) e controlar lesão gastrointestinal com Cloridrato de Ranitidina (2 mg/Kg SC a cada 12 horas) e Sucralfato 30 mg/Kg VO a cada 8 horas)

Terapia de manutenção

O animal deve ficar internado, com acesso venoso, com fluidoterapia de reposição, Ringer Lactato (90ml/Kg/dia) sob monitorização contínua através ECG, pois é imprescindível a monitorização do aparecimento de arritmias cardíacas, bem como da resposta à terapia. Também deve-se monitorar constantemente todos os parâmetros vitais durante a hospitalização.

 

Os eletrólitos deverão ser avaliados periodicamente durante as primeiras 12 horas devido à possibilidade de hipercalemia.

 

O perfil renal deve ser avaliado na avaliação inicial e repetido após 2 a 3 dias, principalmente em animais que desenvolveram hipotensão ou alterações cardíacas importantes.

Pode-se utilizar diuréticos como furosemida 4mg/Kg a cada 12 horas para ajudar na eliminação das toxinas absorvidas pelo animal. Mas utilizar com cautela e sempre avaliando a hidratação do animal.

O animal deve permanecer internado sob monitorização por pelo menos 48-71hrs ou até que se recupere totalmente.

Prognóstico

Não existem dados sobre prognóstico para gatos intoxicados por bufotoxina.

Com base nos resultados encontrados em cães, o prognóstico deverá variar dependendo da espécie de sapo envolvida e do nível de exposição a toxina.

Cães intoxicados pelo sapo marinho Rhinella marina têm maior probabilidade de desenvolver sinais clínicos graves quando comparados ao Rhinella schneideri.  O conteúdo tóxico das duas glândulas parotoides de um sapo marinho é suficiente para matar um cão de 10-15 kg. Estudo descrevem que 1mg/Kg da toxina é suficiente para causar graves intoxicação e que a dose de 0,1 grama do veneno pode ser letal para um cão médio.

Sem terapia apropriada, a mortalidade após intoxicação por sapo-marinho pode se aproximar de 100% em cães. A instituição rápida da terapia medicamentosa é imperativa para pacientes suspeitos de intoxicação por bufotoxina.

 

Diagnóstico diferencial

  • Toxicidade por digitálicos encontrados em plantas (Ex: Dedaleira, Kalanchoe etc).
  • Ingestão de agentes cáusticos ou irritantes orais que causam intensa sialorréia intensa.
  • Outras causas de convulsões.
  • Toxicidade por organofosforado.
  • Overdose de bloqueadores dos canais de cálcio ou beta-bloqueadores.
  • Doença cardíaca subjacente.

 

Literatura recomendada

BALTAZAR, F. N.; AUGUSTO, C. DE F. B.; CARMINATO, C.; FARIA, P. C. DE O.; BERL, C. A. Descrição clínica e achados laboratoriais de cão intoxicado por veneno de sapo (Rhinella icterica) (Anura: Bufonidae): relato de caso. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v. 17, n. 2, p. 34-39, 7 ago. 2019.

https://revistamvez-crmvsp.com.br/index.php/recmvz/article/view/37919/42618

 

Lodhi FL (2018). A fatal case of toad (buffo melanostictus) intoxication in a german shepherd dog and review of literature. Adv. Anim. Vet. Sci. 6(4): 156-160. DOI | http://dx.doi.org/10.17582/journal.aavs/2018/6.4.156.160

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