Intoxicação por rodenticida anticoagulante (dicumarínicos)

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 16 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Toxicose por anticoagulante; Intoxicação por veneno de rato; Intoxicação por warfarin, Intoxicação por varfarina, Intoxicação por dicumarínicos

Nome em inglês

Anticoagulant toxicosis; Warfarin toxicosis

Definição

Os rodenticidas anticoagulantes são substâncias derivadas do dicumarol, uma micotoxina. Os anticoagulantes de primeira geração incluem a varfarina, cloracinona, coumatetralil, coumafuril, fumarina, pindona e valona. E os anticoagulantes de segunda geração incluem brodifacume, bromadiolona, ​​difacinona e difenacume.

Os de 1ª geração possuem menor toxicidade que os anticoagulantes de 2ª geração, que são frequentemente referidos como “super warfarina”, pois geralmente produzem a morte de roedores com uma única ingestão.

Muito importante ler a composição dos rodenticidas, pois fica impossível diferenciar o composto ativo somente pela a cor, tamanho e/ou a forma.

Os rodenticidas anticoagulantes geralmente têm concentrações de ingredientes ativos entre 0,0025% e 0,25%, sendo 0,005% (correspondendo a 1,42 mg de ingrediente ativo por onça de isca) a formulação mais comum.

Fisiopatologia

Os rodenticidas anticoagulantes agem inibindo a enzima epóxido reducase que recicla a vitamina K no organismo.

Atingindo assim os fatores de coagulação dependentes da vitamina K (ou seja, fatores II, VII, IX, X), impactando a coagulação do sangue.

Como a maioria dos mamíferos, que apresente uma função hepática e uma coagulação normal, possui fatores de coagulação circulante suficientes para durar vários dias, por esta razão esta coalgulopatia só parece clinicamente após 3-7 dias após a exposição a um nível tóxico de rodenticida anticoagulante.

Dos fatores de coagulação dependentes da vitamina K, o Fator VII tem a meia-vida mais curta (cerca de 6 horas), de modo que o tempo de protrombina (PT), uma medida da integridade da via extrínseca da cascata de coagulação, é o exame que 1º mostrará alterações.

À medida que a toxicose progride, o Fator II se esgota, resultando na elevação do tempo de tromboplastina parcial ativada (PTT). Geralmente, a hemorragia clínica não é observada até que o TP e o PTT estejam significativamente elevados.

Os anticoagulantes são bem absorvidos por via oral, com semi-vidas de eliminação plasmática no cão de 14 horas para varfarina  (RACUMIN®), 4,5 dias para difetialona (RODILON®) e 6 dias para brodifacume (compostos de muitos raticidas comerciais).

Os anticoagulantes são armazenados no fígado, dos quais são liberados lentamente após sua biotransformação. O resultado é uma duração de ação prolongada que varia com o tipo e a quantidade de rodenticida ingerido.

As seguintes durações de ação são comumente relatadas:

1) Varfarina e anticoagulantes similares de primeira geração: aproximadamente 7 dias

2) Bromadiolona: aproximadamente 14 dias

3) Brodifacoum e outras “super warfarina” de segunda geração: 3-4 semanas

 

 

 

 

 

 

Etiologia

A intoxicação ocorre após a ingestão de compostos que contenham anticoagulantes. Geralmente os anticoagulantes são utilizados em rodenticidas e estes são os compostos mais envolvidos neste tipo de intoxicação – Brodifacoum, Bromadiolona, Clorphacinona, Coumafuryl, Coumatetralil, Difenacoum, Difacinona, Fumarin, Indandione, Pindone, Valone, Varfarina.

Com base nos casos relatados pelos centros internacionais de controle de intoxicações em animais, a ingestão de anticoagulantes de primeira geração (por exemplo, varfarina) merece tratamento veterinário quando as dosagens excederem 0,5 mg/kg. A intervenção veterinária é recomendada para todos os outros anticoagulantes quando as doses ingeridas forem maiores que 0,02 mg/kg.

Todos os mamíferos e aves são suscetíveis à toxicose anticoagulante rodenticida, mas animais com doença hepática preexistente ou distúrbios de coagulação podem estar em risco aumentado e desenvolver sinais clínicos mais cedo que os animais normais.

A toxicose ocorre mais comumente quando os cães ingerem a isca rodenticida.

A exposição transdérmica ainda não foi relatada em animais domésticos.

Toxicose secundária é uma possibilidade em animais que ingerem ratos mortos que foram envenenados, mas é improvável que a ingestão de um único roedor envenenado cause toxicosis.

 

 

Maior ocorrência

Não há predisposição sexual de raça, ou localização geográfica mais prevalente, mas descreve-se maior incidência em animais jovens.

Achados de anamnese

Geralmente os proprietários relatam que o animal apresentou um sangramento pela gengiva, ou nasal. Mas uma grande parte refere fraqueza, apatia, palidez das mucosas visíveis, intolerância ao exercício, fezes com sangue vivo ou melena, entre outros sintomas. Durante a conversa, alguns acabam admitindo o uso de rodenticidas na residência (à base de anticoagulantes) ou relatam que animal saiu a rua sem supervisão, admitindo a possiblidade do animal ingerir algo desconhecido. Há casos de intoxicação criminal, onde o animal ingere carne, linguiças ou salsichas com veneno, de forma criminal.

Manifestações clínicas

Os sinais clínicos variam dependendo da localização e gravidade da hemorragia associada à coagulopatia. Os sinais mais comuns incluem:

  • Epistaxe (sangramento nasal)
  • Tosse
  • Dispnéia (devido a hemorragia nos pulmões, na cavidade torácica ou no mediastino craniano)
  • Mucosas pálidas ou cianóticas(azuladas), pulso rápido e débil
  • Fraqueza e intolerância ao exercício.
  • Melena, hematoquezia, ou fezes de cores anormais (por exemplo, azul esverdeado) devido à presença de corantes usados no rodenticida
  • Claudicação (por hemorragia articular)
  • Hematúria
  • Paresia ou paralisia membros torácicos ou pélvicos (por hemorragia espinhal)
  • Convulsões (por hemorragia craniana),
  • Equimoses (hematomas, mais vistos em abdômen)
  • Obstrução das vias aéreas superiores (por hemorragia laríngea, traqueal ou tímica),
  • Inchaço subcutâneo
  • Hifema, exoftalmia (olho vermelho)
  • Abortos – os filhotes no útero podem desenvolver hemorragias sem evidência de hemorragia na cadela grávida.

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico clínico pode ser feito medindo os parâmetros de coagulação e avaliando a resposta à terapia com vitamina K.

 

Se o animal veio à óbito – deve-se colher sangue, soro, conteúdo estomacal e fígado para análise laboratorial, se for necessária identificação ou confirmação do anticoagulante exato envolvido.

 

De um animal vivo pode-se enviar o conteúdo estomacal (se a ingestão for recente) e plasma para análise pericial.  Mas se ao animal já estiver com sintomas de alteração na coagulação do sangue, provavelmente não haverá mais conteúdo estomacal para prova pericial.

 

 

Exames Achados laboratoriais
Hemograma completo ANEMIA
  Trombocitopenia
 
Urinálise Hemoglobinúria
 
Radiografia de tórax Efusão pleural
  Pneumonia infiltrativa
 
Teste do TEMPO DE COAGULAÇÃO ATIVADO (TCA) Prolongado
  
Produtos da degradação da fibrina (PDF) no plasma, soro Aumentados
 
Dosagem do fibrinogênio sérico Níveis aumentados
 
Exame oftalmológico Hifema, sangue na camada anterior do olho
  Hemorragia em retina
 
Tempo Parcial de Tromboplastina (PPT) Aumentado
 
Tempo de Atividade da Protrombina (TAP) Prolongado
 
Bioquímica sérica Hipoproteinemia
 
Punção articular e citologia líquido sinovial Presença de sangue no líquido sinovial.
 
Laparotomia exploratória abdominal Hemorragia intestinal, hemorragia peritônio.
 
Testes de Coagulação - específicos teste de D-dímero elevado
  Fator VII de coagulação -deficiência
  Níveis plasmáticos de PIVKA-II – anormal
 
Análise do veneno, de conteúdo estomacal, do fígado. Análise positiva para substância anticoagulante
 
Achados de necropsia Hemorragia Miocárdio
  Hemorragia em TGI e em vias respiratórias.

 

 

 

 

Diagnósticos diferenciais

  • Coagulopatias secundarias a insuficiência hepática
  • Doenças congênitas de fatores de coagulação
  • Exposição a sulfaquinoxalina (droga usada para coccidiose em aves)

 

 

Terapia inicial

1) Avaliar os sinais básicos de vida, a fim de estabilizar o animal quanto ao risco de morte.  Manejar as convulsões e fornecer oxigênio se necessário.

2) Se a ingestão for recente (menos de 4 horas), tente induzir o vomito para descontaminar o conteúdo estomacal e diminuir as chances de absorção do veneno anticoagulante.

Para indução vomito: 

  • O peróxido de hidrogênio a 3% (H2O2- conhecida comumente como água oxigenada 3 volumes) * pode ser administrado de 1 a 2 ml/kg PO, até um máximo de 45 ml. Deixar o cão se movimentar um pouco, e esperar o vomito (que deve ocorrer em até 10 ou 15 minutos), se não ocorrer em 30 minutos pode se tentar uma 2ª e última tentativa com a mesma dose.
  • Pode ser administrado lentamente e com cuidado com uma seringa, na lateral da boca ou misturado ao leite ou caldo de frango.

Alimentar o cão com uma refeição pequena e úmida antes da administração da água oxigenada, pode melhorar a eficácia.

Estudos indicam que 90% dos cães vomitam após uso de Peróxido de Hidrogênio a 3%.

*Não confundir com água oxigenada 30 volumes usada para descolorir pêlos – esta pode causar a morte do animal.

Ou

  • Xilazina (cães e gatos) 0,5 a 1,0 mg/Kg IM. Geralmente vomitam após 5 minutos da aplicação.

Para gatos – Xilaxina – (0,44 a 1 mg / kg IM ou SC); êmese geralmente ocorre em 5 minutos. Observar possíveis efeitos adversos – depressão do SNC, depressão respiratória, hipotensão e bradicardia.

Esses efeitos, juntamente com os efeitos eméticos, podem ser revertidos com ioimbina, um antagonista alfa2, a 0,1 mg / kg IM, SC ou IV.

  • Dexmedetomidina, também pode ser usada como um emético eficaz em gatos na dose de 7 mcg/kg IM ou 3,5 mcg/kg IV.Os efeitos sedativos e eméticos podem ser revertidos com um volume igual de atipamezol administrado pela mesma via que a dexmedetomidina.

Não utilizar – Água morna com sal e bicarbonato de sódio (devido ao risco de causar hipernatremia, que pode causar efeitos no SNC); detergente devido ao risco de pneumonia aspirativa e Xarope de ipeca pois o vômito pode demorar até 40 minutos e pode causar alterações cardíacas em humanos.

3) Use carvão ativado após a emese ser concluída. O carvão ativado (1-3 g/kg PO) pode ser inserido diretamente no estômago após a indução do vomito e/ou lavagem gástrica.

4) Se já houver sinais de hemorragia aguda, a indução da emese é contraindicada, pois é tarde demais para que a descontaminação seja eficaz.

5) Forneça produtos para repor sangue, conforme necessário:

  • Administrar sangue total a 10-20 ml/kg IV; administre meia dose do volume mais rapidamente e infundir mais lentamente (20 gotas/min).
  • Forneça os fatores de coagulação através da administração de plasma fresco ou congelado.

TERAPIA ESPECÍFICA para a intoxicação por ANTICOAGULANTES.

Inicie a terapia com vitamina K1.

1) A dose da Fitomenadiona (Vit. K1) é de 1 mg/kg VO a cada 8 a 12 horas, por 4 a 6 dias, para rodenticidas de 1ª geração e para rodenticidas de 2ª, utilizar dose de 3-5.0 mg/kg VO a cada 8 a 12 horas, por 2 a 6 semanas.

2) A administração oral é preferida, pois as injeções podem causar a formação de hematoma e a vitamina K quando ingerida é enviada diretamente para ser metabolizada no fígado, pela veia porta.

3) A administração da vitamina K com alimentos aumenta sua absorção.

4) A formulação injetável de vitamina K1 pode ser administrada por via oral a animais muito pequenos (por exemplo, filhotes de cães e gatos), onde as cápsulas ou comprimidos orais se tornam muito grandes.

5) A duração do tratamento depende do tipo de rodenticida:

  • Varfarina: manter tratamento por no mínimo 14 dias
  • Bromadiolona: por no mínimo 21 dias
  • Outros anticoagulantes: por no mínimo 28-30 dias

Se o animal apresenta uma hemorragia torácica – deve-se realizar uma toracocentese para aliviar a dispneia de derrame pleural (mas tomar cuidado ao risco de se causar uma nova hemorragia).

Uma vez controlada a hemorragia, o tratamento com administração oral de vitamina K no cão (fitonadiona, dose de manutenção de 5 mg/kg /dia dividido em 2 doses) deve ser continuado até que os tempos de protrombina se normalizem (pode levar meses em alguns dicumarínicos).

 

Terapia de suporte e manutenção

  • Durante a recuperação do animal deixe o animal confinado em ambiente calmo, restringindo exercícios por pelo menos 1 semana após o término da terapia com vitamina K1.
  • Evite aplicar medicamentos pela via intramuscular.
  • Evite drogas que sejam altamente ligadas à proteínas (por exemplo, AINEs, sulfonamidas, etc.) porque os anticoagulantes são também altamente ligados às proteínas.
  • Outros medicamentos relatados como prejudiciais aos cães com intoxicação por rodenticida incluem cloranfenicol, danazol, metronidazol, trimetoprim/sulfa, ibuprofeno, neomicina, cimetidina, cetoprofeno, fenilbutazona, quinidina e salicilatos.

 

MONITORAMENTO

Mantenha animais em estado mais críticos em monitoramento constante através dos seguintes exames:

  • Hematócrito
  • Contagem de reticulócitos
  • FC e FR
  • Avalie o status neurológico para saber se há hemorragia cerebral
  • Avalie claudicações para saber se há hemorragias articulares
  • Verifique os testes de coagulação - PTT ou PIVKA - 48-72 horas após a descontinuação da vitamina K1 (se estiverem normais, nenhum tratamento adicional é necessário, se estiverem anormais, verifique se a reexposição não está ocorrendo e reinicie a vitamina K1 por mais 1-2 semanas)

 

Prognóstico

O prognostico depende da quantidade de veneno anticoagulante ingerido e do tempo que se levou para se instaurar o tratamento do animal. Se o animal ingeriu uma quantidade moderada e a terapia com Vitamina K for rapidamente instaurada o prognostico é bom.

 

Literatura recomendada

Guyoti, V. M., Dalmolin, M. L., Pinto, L. A. T., de Miranda, I. C. S., & Chapon, F. P. (2013). Choque hipovolêmico em um cão com suspeita de intoxicação por cumarínico: relato de caso. Revista de Ciências Agroveterinárias12(Esp.), 67-68.

 

ALMEIDA, Maria Teresa de Jesus Horta et al. Estudo prospetivo observacional de âmbito clínico: descrição de sete casos clínicos em urgências em intoxicações por rodenticidas anticoagulantes. 2019. Dissertação de Mestrado.

 

Murphy MJ, Talcott PA: Anticoagulant rodenticides. Small Animal Toxicology, 2nd ed. St. Louis, MO, Elsevier 2013 pp. 435-45.

 

DeClementi C, Sobczak BR: Common rodenticide toxicoses in small animals. Vet Clin North Am Small Anim Pract 2012 Vol 42 (2) pp. 349-60, vii.

 

Rozanski EA, Drobatz KJ, Hughes D, et al: Thrombotest (PIVKA) Test Results in 25 Dogs with Acquired and Hereditary Coagulopathies. J Vet Emerg Crit Care, 9 Refs ed. 1999 Vol 9 (2) pp. 73-78.

 

 

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