Intoxicação por Maconha

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 26 FEV DE 2020

Nomenclatura - Sinônimos

Intoxicação por maconha; Intoxicação por ingestão de cannabis sativa; Envenenamento por cannabis; Intoxicação por cânhamo; Envenenamento por cânhamo; Toxicose do Tetrahydrocannabinol; Intoxicação por THC.

Nome em inglês

Marijuana toxicity, Cannabis intoxication, Marijuana poisoning, Cannabis poisoning.

Definição

A intoxicação por maconha geralmente ocorre após a ingestão acidental de material vegetal de maconha ou produtos comestíveis feitos com maconha.

Ocasionalmente, a fumaça dos cigarros de maconha pode ser intencionalmente soprada no rosto/nariz dos cães ou pode ser dado de maneira intencional alimentos com maconha para cães, configurando crime de maus tratos.

Podem ainda ocorrer intoxicações leves por exposição não intencional à fumaça do cigarro de maconha.

Etiologia

A maconha, conhecida também por marijuana, erva, beck ou Skank, consiste nas folhas e nas flores secas da planta do cânhamo (Cannabis sativa).

A cannabis sativa contém pelo menos 480 diferentes compostos, incluindo quase 70 diferentes substâncias fenólicas terpênicas referidas como canabinóides. O principal constituinte psicoativo da cannabis é o D9-tetrahidrocanabinol (D9-THC) ou conhecido simplesmente como THC.  O THC está disponível como medicação lícita em algumas partes do mundo, prescrita na forma de dronabinol ou na forma sintética de nabilona. São usados comumente, em humanos, como estimulantes do apetite, antieméticos, apaziguadores do sono e analgésico auxiliar para dor neuropática

A concentração de THC na maconha varia de 1 a 10%. O haxixe é o derivado da resina encontrada nos topos floridos da planta de cânhamo. As concentrações de THC no haxixe variam de 3 a 6%, e no óleo de haxixe de 30 a 50%.

A Cannabis pode ser frequentemente incorporada a uma variedade de produtos comestíveis, como biscoitos, Brownies e doces (Ex: brigadeiros), cereais e  manteiga ou óleo de maconha. E estes produtos podem ser acidentalmente ingeridos por animais. Devido às variações naturais na potência de diferentes plantas e variedades de maconha, bem como as diferentes maneiras de manufatura destes produtos, o teor de THC dos alimentos comestíveis de maconha pode variar muito.

Fisiopatologia

Os canabinóides contidos nas plantas da maconha interagem com os receptores de canabinóides nos sistemas nervoso e imunológico do animal.

Os principais receptores de canabinóides são os chamados CB1R, CB2R, que são receptores citoplasmáticos acoplados à proteína G.

O CB1R encontra-se no sistema nervoso central (SNC) e periférico e nos tecidos associados aos órgãos do sistema imune (por exemplo, no baço).

Nos cães, o CB1R também está localizado na musculatura das glândulas salivares.

Já o CB2R é encontrado principalmente em células do sistema imunitário, incluindo as células microgliais do sistema nervoso. Em cães, CB1R e CB2R estão presentes na epiderme e na derme, e sua expressão está aumentada em cães com dermatite atópica.

Por esta razão, a interação de canabinóides com seus receptores pode resultar em alterações do SNC, como prejuízo a cognição, interrupção da memória de curto prazo, incoordenação motora, sonolência e diminuição da atenção e da percepção do tempo.

Maior ocorrência

Não são relatadas nenhuma predisposição racial ou prevalência relacionada a idade ou sexo. Também não há descrito regiões de maior ocorrência dos casos de intoxicação por maconha no Brasil.

Achados de anamnese

Geralmente os proprietários trazem o animal a clínica já com sintomas de letargia e sonolência e a maioria não relatam a ingestão de maconha por ser uma droga ilícita. Mas dependendo da intimidade que o proprietário tem com o veterinário e/ou em casos mais graves, alguns acabam admitindo durante o decorrer do atendimento, a ingestão acidental da erva, ajudando assim o veterinário na instauração da terapia apropriada.

Obs* Durante a anamnese, com calma e sem julgamentos morais, tente obter o maior número de informações. Pergunte quanto às possíveis formas de intoxicação - ingestão, inalação ou ambas; se foi ingerido – perguntar qual tipo de produto - maconha in natura (planta); haxixe ou produtos comestíveis (quais produtos - brownie, brigadeiro, manteiga, etc); perguntar a quantidade e principalmente tente levantar a informação - há quanto tempo foi ingerido?.

Para auxiliar a entender a gravidade do caso, o tratamento e o prognóstico utilizem a calculadora de intoxicação por maconha, disponível na seção de CALCULADORAS.

Manifestações clínicas

Os sinais clínicos em cães variam muito e dependem da quantidade de Cannabis ingerida e do tamanho do animal. As manifestações clínicas incluem:

  • depressão do SNC - letargia, sonolência
  • hipotermia – que pode ser grave, abaixo de 33 C
  • bradicardia – mas se a ingestão for muito alta, pode até apresentar taquicardia.
  • andar cambaleante, ataxia - que pode ser progressiva
  • hipotensão – que pode ser grave
  • distúrbios de comportamento – vocalização, animal parece ter alucinações, animal pode não reconhecer os tutores, animal pode ficar agressivo dependendo da dosagem. Mas na maioria das vezes animal está apático e sonolento.
  • Vômitos
  • bradipnéia, apnéia.
  • tremores
  • midríase ou miose (casos mais graves)
  • débito urinário diminuído ou incontinência urinária
  • hiperestesia - quando estimulado
  • hipersalivação

Em casos muito graves, pode ocorrer coma e morte. A apresentação clássica de um cão intoxicado por maconha é aquela em que o débito urinário está diminuído, o animal se apresenta sonolento, hipotérmico, bradicárdico e com andar cambaleante ou animal em decúbito lateral. A estimulação externa pode resultar em breve hiperestesia seguida de retorno a um estado sonolento.

Em casos clínicos mais graves, com ingestão de maior quantidade, foram relatados, hiperatividade, agitação, hipertermia, hipertensão, taquicardia, convulsões, coma e morte. Esses sinais podem estar relacionados às formas mais potentes de maconha e/ou com a contaminação/adulteração da maconha com outros compostos desconhecidos. A retenção urinária após a sobre dosagem de maconha é relatada em humanos, e foi relatada em alguns casos com cães.

Procedimentos Diagnóstico

O diagnóstico de intoxicação por maconha em animais geralmente baseia-se na história e na presença de sinais clínicos compatíveis. Mas se for necessário a comprovação para fins de perícia criminal, onde há necessidade de comprovação da presença de “Cannabis sativa” em fluidos ou tecidos corporais, pode-se utilizar alguns testes específicos, como:

Teste de urina para detecção de maconha: Os kits de teste de urina que detectam a presença de metabólitos de maconha ou THC podem produzir resultados inconsistentes, possivelmente devido a diferenças nos metabólitos da maconha ou devido a questões temporais. Em geral, um teste de urina positivo para THC juntamente com sinais clínicos consistentes pode ser útil, mas um teste negativo não descarta a possibilidade de intoxicação por maconha.

Cromatografia gasosa com espectrômetro de massa ou GC-MS é o método de escolha para o diagnóstico definitivo de intoxicação por maconha, especialmente quando se necessita provas periciais em casos legais. No entanto, geralmente não há tempo hábil para fazer o diagnóstico rápido de intoxicações agudas através destes testes.

Outros exames subsidiários:

Mensuração da pressão arterial – geralmente os animais se apresentam hipotensos. Dependendo da dose ingerida a hipotensão pode ser grave.

Eletrocardiográficos (ECG):  geralmente encontram-se arritmias, ritmos anormais e taquicardia sinusal

  1. Terapia inicial
  • Tratar primeiro as manifestações clínicas que podem levar a risco de morte.
  • Instituir imediatamente o acesso venoso com fluidoterapia cristaloide (RL ou NaCl a 0,9%)
  • Se animal estiver hipotérmico colocar animal em ambiente aquecido (utilizar com cautela - colchão térmico, ar quente ou bolsas de água quente)
  • Fornecer oxigênio, de preferência via sonda nasal, conforme necessário.
  • No caso de convulsões, administrar imediatamente anticonvulsivantes, como os seguintes:

1) Diazepam 0,25 - 1 mg/kg IV

2) Midazolam 0,25 - 0,5 mg/kg/h IV conforme necessário

3) Propofol 3 - 6 mg / kg IV ou 0,1 mg/kg/min IV como infusão contínua

5) Fenobarbital 4 - 20 mg/kg IV, conforme necessário

6) Anestesia inalatória em baixa % para manter o efeito da sedação

  • Considerar a lavagem gastrointestinal (GI) em casos de ingestão recente
  • Não induzir emese em pacientes com sinais de depressão do SNC, devido ao risco de aspiração do vomito. Além do que, a maconha tem propriedades antieméticas que podem prejudicar as tentativas de induzir a emese.
  • Por outro lado, vômito é frequentemente relatado como manifestação mais tardia na intoxicação por maconha.
  • Se for possível a administração segura, sem o risco de aspiração, administre Carvão ativado de 1 à 5 gr/kg de peso do animal, via oral (PO), principalmente se a ingestão for recente e se foi ingerido a planta e/ou a flor da Cannabis, porque o material vegetal pode permanecer no trato gastrointestinal e continuar a liberar o THC por um tempo bastante longo. Repita o carvão ativado em 12 e 24 horas se os sinais clínicos significativos persistirem.

Terapia de suporte

Pode-se tentar controlar o comportamento agitado do cão com uso de fenotiazinas (por exemplo, acepromazina 0,05 - 0,1 mg / kg IV ou clorpromazina 0,5 mg/kg IV; ou doses maiores, se necessário) ou benzodiazepínicos (diazepam 0,25 - 0,5 mg/kg lentamente IV).

Controlar o vômito com antieméticos (por exemplo, ondansentrona - 0,1 a 0,5 mg/KG, a cada 6 horas.

Promover a termorregulação conforme necessário, se o animal estiver hipotérmico, mantenha-o aquecido em colchonetes térmicos (use-os sempre com cautela para evitar acidentes) ou utilize bolsas de água quente ou circulação de ar quente.  Se estiver com hipertermia tente resfriar o corpo do animal com bolsas de água fria.

Em casos mais graves, a terapia lipídica intravenosa com emulsões lipídicas (1,5 ml/ kg em bolus seguida de 0,25-0,50 ml/kg/hora por até 6 horas) pode ser benéfica.

A fluídoterapia IV com cristalóides (Cloreto de sódio 0,9%, Ringer, Ringer lactato) deve ser instituída precocemente para fornecer suporte cardiovascular, permitir acesso venoso para drogas de emergência e para manter a hidratação adequada.

Manutenção

Monitore constantemente e com cuidado a temperatura corporal, a FC, a FR e a amplitude respiratória, a oxigenação (saturação do O2), a pressão sanguínea e o status neurológico.

Prognóstico

O prognóstico geralmente é muito bom. A recuperação completa pode levar vários dias, dependendo da dose e do tipo de produto ingerido ou inalado. Geralmente o animal se recupera totalmente em 72 horas.

Doses mais altas, tipos mais potentes de maconha ou ingestão de produtos gordurosos feitos a base de maconha (como manteiga de maconha) resultaram em intoxicações mais severas, com recuperação mais demorada e às vezes podem ser fatais para os cães.

Medidas preventivas

Mantenha qualquer produto alimentício ou medicamentoso que contenha Cannabis e/ou a erva in natura da Maconha totalmente fora do alcance de animais de estimação.

Literatura recomendada

  1. Donaldson CW: Marijuana exposure in animals. Vet Med 2002 Vol 97 pp. 437-439.
  2. Campora L, Miragliotta V, Ricci E, et al: Cannabinoid receptor type 1 and 2 expression in the skin of healthy dogs and dogs with atopic dermatitis. Am J Vet Res 2012 Vol 73 (7) pp. 988-95.
  3. Teitler JB: Evaluation of a human on-site urine multidrug test for emergency use with dogs. J Am Anim Hosp Assoc 2009 Vol 45 (2) pp. 59-66.
  4. Janczyk P, Donaldson CW, Gualtney S: Two hundred and thirteen cases of marijuana toxicoses in dogs. Vet Hum Toxicol 2004 Vol 46 (1) pp. 19-21.
  5. Fitzgerald K T, Bronstein A C, Newquist K L: Marijuana poisoning. Top Companion Anim Med 2013 Vol 28 (1) pp. 8-12.
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  9. Pachtinger G: Marijuana Toxicosis in a Labrador Retriever. Clinician's Brief, 2 Refs ed. 2013 Vol 11 (5).
  10. Williams K, Wells R J, McLean M K: Suspected synthetic cannabinoid toxicosis in a dog. J Vet Emerg Crit Care 2015 Vol 25 (6) pp. 739-44.
  11. Nolen R S: Bad medicine natural remedy? States' legalization of marijuana has implications for veterinary medicine. J Am Vet Med Assoc 2014 Vol 245 (7) pp. 726-8.

 

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