Intoxicação Alcoólica

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 26 FEV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Toxicose alcoólica, Toxicose por Etanol, Toxicose por metanol, Intoxicação por ingestão de álcool.

Nome em inglês

Ethanol Poisoning, Alcohol Poisoning, Alcohol Toxicity.

Definição

A intoxicação por álcool se dá após a ingestão acidental ou induzida de álcool etílico (etanol) encontrado em bebidas alcoólicas, em alguns medicamentos líquidos e enxaguatórios bucais, em frutas em decomposição, em produtos fermentados, em massas de pão com levedura (crua) e no combustível para veículos ETANOL.

Embora o etanol também esteja presente em algumas tintas domésticas, limpadores e solventes, os níveis são baixos e não apresentam grande perigo se forem ingeridos em pequena quantidade por animais de estimação.

O Isopropanol (álcool isopropílico) também pode causar intoxicação e é 2 x mais potente que o etanol ou metanol. Ele está presente em álcool isopropílico (70%) usado como antissépticos e desinfetantes, em alguns anticongelantes para radiadores de carros, em alguns detergentes, limpadores de vidros, em perfumes, colônias e sprays tópicos à base de álcool, incluindo alguns produtos para controle de pulgas e produtos para limpeza.

 O Metanol (álcool metílico, álcool de madeira) é mais comumente encontrado em líquidos de lavagem de para-brisa automotivos (20-80%), mas também está presente em alguns aditivos de gasolina e em alguns solventes domésticos (Ex: removedores de tinta)

Embora a potência do etanol, do isopropanol e do metanol variarem, as síndromes clínicas associadas às suas toxicoses em cães e gatos são bastante semelhantes.

Fisiopatologia

Os álcoois são normalmente absorvidos muito rapidamente a partir do trato gastrointestinal (TGI), mas a presença de alimentos pode retardar sua absorção.

Pode ainda ocorrer absorção através da pele ou por inalação.

Os álcoois são absorvidos e amplamente distribuídos por todo o corpo, atravessando rapidamente a barreira hematoencefálica. São metabolizados no trato gastrointestinal e no fígado e seus compostos são eliminados pelos rins. A eliminação de etanol, metanol e seus metabólitos é relativamente rápida. A acetona, um metabólito de isopropanol, pode ter uma meia-vida mais longa (16-20 horas).

Os álcoois são substâncias depressivas do SNC e muitos dos sinais clínicos associados a eles surgem da inibição direta da neurotransmissão e da transdução de sinal entre os neurônios do sistema nervoso central (SNC).

Os álcoois originais e seus metabólitos podem causar acidose metabólica se houver intoxicação moderada a grave.

Também são irritantes do trato grato intestinal e possuem propriedades diuréticas. Podem causar lesão hepática, após uma única exposição, embora seja muito mais comum em exposições repetidas ou crônicas.

Em humanos e em outros primatas, os metabólitos do metanol podem causar acidose metabólica severa e lesão neuronal levando à cegueira e/ou lesão neurológica grave. Este tipo de lesão mais grave não ocorre em não-primatas devido a diferenças no metabolismo do metanol.

Etiologia

Os cães e gatos são altamente suscetíveis aos efeitos dos álcoois e podem ocorrer sinais de embriaguez leve, mesmo com exposição moderada.

As doses potencialmente letais de etanol puro, isopropanol e metanol em cães são:

Dose letal de álcoois para cães
Etanol puro 1,0 ml/Kg PV
Isopropanol 4 a 8 ml/Kg PV
Metanol 4 a 8 ml/kg PV

 

Os sintomas podem começar a aparecer 15 a 30 minutos após a ingestão do álcool, mas se o animal estiver de estomago cheio pode aparecer após 2 horas da ingestão.

Maior ocorrência

Não há predisposição racial, sexual ou por faixa etária. Mas cães menores estão mais sujeitos a apresentarem sintomas de intoxicação alcoólica devido a quantidade de líquido ingerido em relação ao seu peso. Gatos raramente se intoxicam acidentalmente pois possuem um apetite mais seletivo.

 

Achados de anamnese

Geralmente os tutores relatam o aparecimento de sintomas característicos após festas (ingestão de restos de bebidas alcoólicas doces)  ou relatam histórico de intoxicação acidental pelo uso de produtos com alta concentração de álcool - como desinfetantes, metanol, álcool isopropílico, etc.

Manifestações clínicas

Sinais clínicos de intoxicação podem ocorrer dentro de 30 a 60 minutos após a ingestão de álcool.

Sinais mais comuns incluem:

  • Náusea
  • Vômito
  • Polidipsia e poliúria
  • Desidratação
  • Letargia ou depressão
  • Ataxia e/ou incoordenação motora
  • Depressão respiratória
  • Hipotermia
  • Hipotensão
  • Hipoglicemia
  • Halitose alcoólica

Em casos graves, pode evoluir para: cegueira, tremores, tetraplegia, depressão respiratória grave, convulsões, coma e morte.

A morte não é comum em intoxicações acidentais, mas pode ocorrer secundariamente à depressão respiratória e cardiovascular grave, que pode ser exacerbada por grave hipotermia e/ou hipoglicemia.

Procedimentos Diagnóstico

O diagnóstico é baseado no histórico de exposição ao álcool combinado aos sinais clínicos descritos acima e as anormalidades laboratoriais.

Pacientes com toxicose por isopropanol (alcool isopropílico utilizados em solventes) frequentemente têm um odor característico de acetona em seu hálito e em sua ofegação.

Perfil Bioquímico

As alterações laboratoriais incluem acidose metabólica, hiperosmolaridade e anion gap elevado. Essas alterações geralmente estão presentes no início da intoxicação, mas se resolvem à medida em que o álcool é metabolizado.

A hipoglicemia é comum e pode ser grave em casos de intoxicações graves.

Outros testes: Na ausência de histórico de exposição ao álcool, é imperativo considerar a possibilidade de intoxicação por etilenoglicol, uma vez que os sinais clínicos iniciais podem ser indistinguíveis. Em caso de dúvida, teste o etilenoglicol no sangue e/ou mensure o nível de álcool no sangue.

Achados Laboratoriais:

  • Urinálise – presença de corpos cetônicos (cetonúria)
  • Cálculo do aniôn gap do soro: Aniôn gap aumentado
  • PH sanguíneo: O pH e o bicarbonato no sangue diminuídos (acidose metabólica)
  • Hipoglicemia
  • Osmolaridade no soro/urina medida ou calculada: Osmolaridade sérica aumentada

Terapia inicial

Se animal acabou de ingerir álcool – pode-se tentar uma limpeza do TGI – mas esta deve ser feita com cuidado e somente em pacientes totalmente assintomáticos (sem nenhum sinal de depressão do SNC ou depressão respiratória) e nos primeiros 15 minutos após a ingestão. Neste caso pode-se tentar induzir a emese.

Pode-se tentar utilizar a água oxigenada à 3% (peróxido de hidrogênio a 3%) - 2 ml/kg VO até o máximo de 45 ml de volume e logo após ou logo antes oferecer uma peq. refeição úmida, para melhorar a eficácia.

Obs* neste caso não se indica o uso de carvão ativado pois ele não apresenta eficácia para absorver moléculas de álcool.

Importante identificar e tratar os sintomas que trazem algum risco à vida:

1) Se paciente apresentar depressão respiratória – oferecer ventilação (O2) assistida

2) Se estiver com hipoglicemia – administre fluídos com glicose. Calcule a quantidade de glicose usando nossa calculadora “Fármacos de Emergência”

3) Se tiver convulsões – tratar as crises com benzodiazepínicos – neste caso utilizar a menor dose possível Exemplo: Diazepam 0,5 mg/Kg IV,  para evitar a exacerbação da depressão do SNC induzida pelo álcool.

Outras terapias:

Intoxicação por Ingestão de massa de pão FERMENTADA

Se a massa de pão com fermento cru foi ingerida, o fornecimento de gelo ou a lavagem do estômago com água fria ajuda a inibir a produção de etanol e ajuda a quebrar a massa.

A depressão profunda do SNC com depressão respiratória grave pode responder à Ioimbina a 0,1 mg/kg IV. E a hemodiálise pode ajudar a remover os compostos álcoois do sangue, mas raramente está disponível para todos os pacientes.

Suporte hemodinâmico

Os fluidos intravenosos ajudam a aumentar a eliminação de álcoois e metabólitos parentais, corrigem déficits hídricos e fornecem suporte cardiovascular. Usar fluidos isotônicos – NaCl 0,9%, RL, etc.

Corrija as anormalidades relacionadas a glicemia, ao PH do sangue e as alterações eletrolíticas conforme necessário.

 

Terapia de suporte e manutenção

Os pacientes que apresentem estado de embriaguez devem ser internados e/ou confinados, mantidos em fluidoterapia e mantidos sob supervisão para evitar que caiam de escadas, janelas, alpendres, que caiam em piscinas, a fim de se evitar acidentes que podem ocorrer em um animal com incoordenação motora.

Prognóstico

A maioria dos cães com intoxicação alcoólica se recupera com cuidados sintomáticos e de suporte adequados, dentro de 8 a 12 horas. A recuperação é um pouco mais longa quando a intoxicação foi causada por isopropanol ou em casos de intoxicações graves pela grande quantidade de álcool ingerida.

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