Intoxicação por ingestão de Chocolate e/ou Café

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 01 ABR DE 2021

Sinônimos

Intoxicação por chocolate; Toxicose por ingestão de chocolate, Intoxicação por teobromina, Intoxicação por metilxantina, Intoxicação por cafeína.

Descrição da doença

A cafeína e a teobromina são alcalóides xantinas metilados de origem vegetal. A cafeína está presente no café (Coffea arabica) e no chá (Thea simensis) e também é usada como aditivo de muitas bebidas, como refrigerantes e bebidas energéticas.

A cafeína também está presente na maioria dos chocolates, em concentrações de aproximadamente 10% do teor de teobromina. Outras fontes de cafeína incluem medicamentos para humanos (por exemplo, medicamentos para resfriado, analgésicos, pílulas dietéticas), estimulantes de venda livre e medicamentos fitoterápicos (por exemplo, pó de guaraná).

A teobromina é encontrada nos grãos de cacau (Theobroma cacao) e está presente em todos os produtos à base de cacau. A quantidade de teobromina nos grãos de cacau varia naturalmente com as condições de cultivo e a cepa varietal de T. cacao

O conteúdo final de metilxantina (cafeína mais teobromina) de produtos derivados do cacau também varia com o tipo de processamento do produto.

Aqui alguns exemplos de concentração de teobromina em derivados de chocolate e produtos com cafeína:

  • Cacau em pó (10g): 189 mg de teobromina
  • Chocolate de leite (50g): 95 mg de teobromina
  • Chocolate negro (50g): 378 mg de teobromina
  • Pudim de chocolate (108g): 75.6 mg de teobromina
  • Cookies/Brownies (56g): 43.7 mg de teobromina
  • Chá (230 ml): 3.1 mg de teobromina
  • Café para filtrar (7.6g/200ml): 0.3 mg de teobromina

Ambas quando ingeridas em grande quantidade podem causar intoxicação em cães.

Fisiopatologia da intoxicação por metilxantina

As metilxantinas são rapidamente absorvidas pelo trato gastrointestinal (GI), embora a gordura presente em alguns produtos de chocolate possa retardar a absorção.

Quando grandes quantidades de chocolate são ingeridas, a formação de um bezoar (massa mais solida) de chocolate no estômago também pode retardar a absorção.

Em cães, a recirculação entero-hepática de teobromina prolonga sua meia-vida (17,5 horas). A meia-vida da cafeína em cães é de cerca de 4,5 horas.

As metilxantinas atravessam a placenta e são excretadas no leite, portanto, os filhotes em gestação ou amamentando podem ser afetados pela intoxicação por chocolate na cadela.

As metilxantinas atuam por meio da inibição das fosfodiesterases de nucleotídeos cíclicos e do antagonismo das ações mediadas por receptores da adenosina, além de estimular a síntese e liberação de catecolaminas.

Os efeitos principais incluem:

  • estimulação do sistema nervoso central (SNC)
  • aumento da força e taxa de contração miocárdica
  • aumento da secreção gástrica
  • relaxamento do músculo liso
  • diurese

 

Diagnóstico

O diagnóstico na maioria das vezes se dá pela informação coletada durante a anamnese, associado aos sinais clínicos característicos

Exames subsidiário são importantes como hemograma completo e painel bioquímico.

Nenhuma anormalidade hematológica ou bioquímica específica é esperada em curto prazo, embora a hipocalemia e/ou hipoglicemia possam ocorrer mais tardiamente no caso de uma intoxicação moderada a grave.

A densidade urinaria pode ficar diminuída, devido à natureza diurética das metilxantinas.

Concentrações elevadas de metilxantinas podem ser detectadas no conteúdo estomacal, soro, plasma, urina e fígado. No entanto, esses testes raramente são necessários, pois a maioria dos casos de intoxicação por metilxantina são prontamente diagnosticados com base na história e nos sinais clínicos.

 

Sinais clínicos da Intoxicação

A intoxicação por metilxantina em cães ocorre mais comumente pela ingestão de produtos de chocolate em casa, embora possa ocorrer envenenamento criminoso de cães com chocolate ou cafeína.

Existe uma variação individual considerável na suscetibilidade dos cães às metilxantinas, com alguns cães tolerando doses mais altas do que outros.

Recentemente, polimorfismos nas enzimas do citocromo P450 canino (CYP1A2) mostraram estar associados à capacidade reduzida de metabolizar e eliminar a teobromina, o que pode ser responsável (em parte) por diferenças individuais na sensibilidade entre diferentes cães.

Geralmente ingestão de menos de 20 mg/kg de metilxantina não causam sinais clínicos significativos. Doses entre 20-40 mg/kg podem causar sinais leves a moderados, como vômitos, poliúria, diarréia e inquietação.

Doses entre 40-50 mg/kg podem resultar em agitação, hiperatividade, ataxia, poliúria, taquicardia, taquipnéia, hipertensão e hipertermia. Doses mais altas podem ocasionar tremores, convulsões, arritmias cardíacas graves, coma e até morte. Doses maiores que 60-80 mg kg foram associadas a convulsões.

A teobromina e a cafeína têm, cada uma, um DL oral de 100-200 mg/kg no cão.

Para saber a quantidade aproximada de teobromina que o animal ingeriu, use a nossa calculadora:

https://vetsapiens.com/calculadoras/intoxicacao-por-chocolate-e-cafe

Os sinais clínicos iniciais incluem vômitos, inquietação, distensão abdominal e polidipsia. Ainda podem ocorrer hiperexcitabilidade, agitação e/ou tremores.

À medida que a toxicose progride, podem ocorrer poliuria, ataxia, tremores, taquicardia ou outras taquiarritmias, hiperreflexia, hipertermia, hipertensão, taquipnéia, rigidez e convulsões.

Doses muito altas podem causar hipotensão, bradicardia e coma.

Pancreatite foi relatada em alguns cães após 24hr – 72hr após a ingestão de chocolate, pela alta concentração de gordura.

 

 

 

 

Predisposição racial, sexual, etária

Não existe nenhuma predisposição de raça, idade ou gênero associada a intoxicação de metilxantinas. Mas cães com alguma cardiopatia pré-existente podem apresentar risco aumentado de efeitos colaterais cardiovasculares graves, enquanto aqueles com distúrbios convulsivos podem apresentar risco maior de efeitos no SNC. Cães menores podem ingerir uma concentração maior de teobromina, devido ao seu peso.

 

Achados diagnósticos

  • Hemoconcentração ou policitemia
  • Densidade urinaria diminuida
  • Hipercapnia, CO2 aumentado
  • Hipertensão (> 160/100 mmHg)
  • Hipotensão, pressão arterial diminuída
  • Eletrocardiografia (ECG) – ARRITMIA - Complexos / batimentos ventriculares prematuros
  • Hipoglicemia
  • Hipocalemia

 

Terapia inicial

Considere a descontaminação do trato gastrointestinal. Se o cão estiver ainda assintomático e ainda não tiver vomitado, considere a indução de vômito.

A emese pode ser eficaz até 4 a 6 horas após a ingestão, devido à baixa absorção do chocolate pelo estômago.

Considere induzir o vomito com uma das seguintes drogas:

1) A apomorfina pode ser administrada 0.02 mg/kg, IV; 0.3 mg/kg, SC; 0.25 mg no saco conjuntival. A apomorfina pode causar depressão do SNC, portanto, use-a com cautela se houver sinais neurológicos.

2) Peróxido de hidrogênio 3% pode ser administrado na dose de 2 mL / kg PO, com dose máxima de 45 mL. Alimentar uma refeição pequena e úmida pode melhorar a eficácia.

Se o vômito for contraindicado ou não produzir resultados, considere a lavagem gástrica. Mantenha uma via aérea patente por meio de intubação e controle da respiração. O carvão ativado pode ser administrado em 1-3 g/kg VO.

O carvão ativado pode ser repetido em intervalos de 8-12 horas, desde que o paciente permaneça sintomático.

 

 

Se o animal apresentar sinais clínicos:

 Trate primeiro os sinais clínicos que trazem risco à vida.

Considere uma das seguintes drogas para controlar as convulsões, os tremores, a agitação e/ou hiperatividade:

1) Diazepam 0,13-1 mg/kg IV ou 0,5 mg/kg retal

2) Midazolam 0,05-0,3 mg/kg/h IV em infusão continua (IF)

3) Propofol 3-6 mg/ kg IV ou 0,1 mg/kg/min IV (IF)

4) Fenobarbital 2-8 mg/kg IV até efeito – se necessário

5) Anestesia inalatória até efeito – se necessário

6) Metocarbamol 50-220 m /kg IV

Controle taquicardia ventricular com lidocaína (sem epinefrina). A dosagem inicial é de 1-2 mg/kg IV, seguida por 0,03-0,05 mg/kg/min IV de taxa de infusão continua.

Arritmias refratárias podem requerer propranolol (0,04-0,06 mg / kg IV) e terapia oral (0,2-1,0 mg / kg VO a cada 8 horas) pode ser instituída assim que o paciente estiver estável. Outra opção é metoprolol a 0,04-0,06 mg/kg IV. A dosagem oral é 0,2-1,0 mg/kg VO a cada 12 horas. Ao usar betabloqueadores, sempre monitore a hipotensão.

 

Terapia de apoio

A fluidoterapia IV é importante para manter o acesso venoso para administração de medicamentos, fornecer suporte cardiovascular e promover diurese para aumentar a excreção de metilxantina.

Antiemético e/ou protetores gastrointestinais podem ser administrados conforme necessário.

A cafeína pode ser reabsorvida pela parede da bexiga, o que pode prolongar a duração dos sinais clínicos. Cateterismo urinário ou caminhadas frequentes para estimular a micção são recomendados para manter a bexiga do cão o mais vazia possível.

 

Monitoramento e Prognóstico

Para pacientes assintomáticos que ingerem grandes doses de chocolate, monitore-os na clínica pelas próximas 4-6 horas para acompanhar o desenvolvimento de sinais clínicos.

Para pacientes sintomáticos, minimize a estimulação sensorial para evitar a exacerbação da estimulação do SNC. Deixe o animal em um local tranquilo, sem estímulos sonoros e/ou visuais. Monitore de perto a pressão arterial, FC, arritmias, tremores, convulsões, etc.

O prognóstico varia de acordo com o tipo de chocolate, a quantidade ingerida, o peso corporal do cão e o tempo entre a ingestão e a instituição de tratamento. Para avaliar o prognostico, guiar sua terapêutica e informar o tutor, utilize a nossa calculadora de intoxicação por chocolate e café:

https://vetsapiens.com/calculadoras/intoxicacao-por-chocolate-e-cafe

 

 

Diagnóstico diferencial

Outros estimulantes do sistema cardiovasculares ou do SNC: estricnina, nicotina, anfetamina, 4-aminopiridina, inseticidas anticolinesterásicos (organofosforados/carbamatos), inseticidas organoclorados, metaldeído, micotoxicose tremorgênica, cocaína, ecstasy,   fenilpropanolamina, pseudoefedrina entte outras.

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