Insuficiência Pancreática Exócrina (IPE)

Dra. Marcela Valle Caetano Albino

Ultima atualização: 28 ABR DE 2020

Nome em inglês

Exocrine pancreatic insufficiency

Definição

Doença caracterizada pela inadequada produção e secreção pelo pâncreas de enzimas digestivas no intestino delgado.

Fisiopatologia

As manifestações clínicas da IPE surgem após perda extensa (aproximadamente 90%) de massa pancreática, seja por atrofia ou por inflamação crônica. Tais manifestações são consequência da redução da concentração duodenal de enzimas pancreáticas, bicarbonato e outros fatores produzidos pelo pâncreas, que resultam na má-digestão de gorduras, carboidratos e proteínas. Os animais afetados podem apresentar redução nos níveis de vitaminas lipossolúveis e cobalamina, maior suscetibilidade dos enterócitos a lesão por bactérias e seus produtos e aumento da flora do intestino delgado.

Etiologia

 

A causa mais comum de IPE é atrofia acinar pancreática, mas a IPE também pode ser consequência de uma pancreatite crônica. Isso porque a inflamação crônica pode levar a atrofia e fibrose, que, se afetarem tecido pancreático suficiente, podem causar manifestações clínicas de IPE.

Obstrução do ducto pancreático também pode levar a atrofia do pâncreas, mas são poucos os relatos em cães. 

Maior ocorrência

A atrofia acinar pancreática, vista principalmente em cães da raça Pastor Alemão, mas também em Collies e Setters Inglês, afeta animais mais jovens. Já os pacientes em que a IPE é consequência de uma pancreatite crônica costumam ser de meia idade a idosos. 

Não existe predisposição sexual.

Achados de anamnese

O histórico mais comum de cães com IPE é perda de peso, com apetite normal a aumentado e diarreia de intestino delgado, com fezes volumosas, semiformadas, amareladas a acinzentadas.

Manifestações clínicas

As principais manifestações são perda de peso, acompanhada de normorexia a polifagia, fezes pastosas, aumento do volume fecal e/ou da frequência de defecação. Outras manifestações possíveis são coprofagia, borborigmas, flatulência e pelame opaco.

Apesar de incomum, alguns casos podem apresentar êmese ou diarreia líquida, enquanto outros podem não apresentar alteração na consistência das fezes. 

Procedimentos diagnósticos

A dosagem de tripsinogênio (TLI) é o exame de escolha para o diagnóstico da IPE. O teste é altamente sensível e específico e geralmente resultados abaixo de 2,5ug/L, em jejum, são considerados positivos. Um resultado dentro do valor de referência é suficiente para excluir a possibilidade de IPE.

A dosagem de cobalamina é indicada para avaliação da necessidade de reposição e a dosagem de folato para pesquisa de uma possível disbiose. O folato, apesar de bem específico, pode estar normal em 50% dos animais com disbiose.  

Dosagens de amilase, lipase e lipase específica canina não são uteis para o diagnóstico de IPE.   

Coprológico funcional é uma forma indireta de avaliação da função pancreática exócrina, já que estima a capacidade de digestão do todo o trato gastrointestinal e não somente do pâncreas. Assim, trata-se de teste com possíveis falsos negativos e positivos e não é recomendado para o diagnóstico de IPE. 

Diagnósticos diferenciais

Os diagnósticos diferenciais incluem doenças do intestino delgado que causem má absorção ou má digestão, como parasitismo intestinal, doença inflamatória intestinal, linfangiectasia e neoplasias.

Terapia

O tratamento da IPE é baseado na reposição de enzimas digestivas, sendo as formulações em pó preferíveis às em cápsulas. A terapia é iniciada com uma colher de chá de pancreatina em pó, por refeição, para cada 10 quilos de peso. Após a resposta completa do paciente, a dose de pancreatina pode ser reduzida até a menor dose eficaz.

Estudos não demonstraram um efeito relevante da dieta no sucesso do tratamento. Assim, apenas dietas de manutenção de alta qualidade são indicadas para esses pacientes. Dietas com alto teor de fibra devem ser evitadas, já que podem interferir com a absorção de gorduras.

Naqueles pacientes com deficiência de cobalamina, a reposição deve ser realizada. A reposição costuma ser feita através de 6 aplicações subcutâneas semanais, seguidas de uma última aplicação um mês após a sexta. Estudos já demonstraram também a eficácia da suplementação de cobalamina por via oral. 

Uma pequena parcela dos pacientes não responde adequadamente ao     tratamento e os motivos do insucesso devem ser pesquisados. Dentre eles devem ser avaliados o tipo, formulação e dose da pancreatina e a possibilidade de doença concomitante, como doença inflamatória intestinal, diabetes mellitus e disbiose intestinal. Se nenhuma doença for identificada, uma triagem terapêutica com antibiótico deve ser realizada, já que pacientes com IPE comumente tem disbiose. O tratamento de escolha é tilosina por seis semanas, mas outros antibióticos como metronidazol podem ser realizados. 

Prognóstico

O tratamento com reposição enzimática é quase sempre necessário por toda a vida. A maioria dos animais com IPE são manejados com sucesso e apresentam qualidade e expectativa de vida normais.

Literatura recomendada

Westermarck,E.; Wiberg, M. Exocrine pancreatic insufficiency in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 33, p. 1165-1179, 2003.

Steiner, J.M. Exocrine Pancreas In: Small Animal Gastroenterology, Schlutersche, 1 ed, 2006.

Washabau, R.J.; Day, M.J. Pancreas In: Canine & Feline Gastroenterology. Elsevier Saunders, 1 ed., 2012. 

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