Instabilidade/Subluxação/Luxação Atlantoaxial

Claudia Inglez

Ultima atualização: 26 FEV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Instabilidade atlantoaxial, subluxação atlantoaxial, luxação atlantoaxial, malformação atlantoaxial

Nome em inglês

Atlantoaxial subluxation/luxation

Atlantoaxial instability

Definição

Perda da estabilidade entre o atlas e o axis (C1-2), resultando em perda da articulação normal e consequente subluxação ou luxação.

Fisiopatologia

A instabilidade atlantoaxial pode gerar movimentação excessiva entre as duas primeiras vértebras cervicais (atlas e axis), especialmente durante o movimento de flexão, podendo ocasionar subluxação/luxação atlantoaxial, que pode ocorrer de forma espontânea ou após traumas leves. Consequentemente, a medula espinhal é comprimida devido ao deslocamento dorsal da porção cranial do corpo do axis para o canal vertebral.

Etiologia

A subluxação/luxação atlantoaxial pode ser decorrente de traumas aos ossos, articulações e/ou ligamentos associados, particularmente fratura do processo odontóide.

Anormalidades congênitas do processo odontóide do axis (agenesia, hipoplasia, não união, desvio dorsal) e de suas inserções ligamentares.

As duas condições anteriores podem estar combinadas, ou seja, um trauma leve ou moderado a estruturas malformadas ou mal desenvolvidas

 

 

Maior ocorrência

Espécie: canina e raramente felina.

Raças e idade:  a forma congênita é vista em raças toys (yorkshires, poodles, chiuaua, pequinês, pomerânia), geralmente antes de 1 ano de idade. Incomum em raças maiores (Doberman e Rottweiller) geralmente após 1 ano de idade.

Não há predileção por gênero

 

Anamnese

Dor cervical e dificuldade de locomoção, ataxia, tetraparesia/plegia, geralmente início agudo (após pequenos traumas como quedas, atividade física vigorosa), mas os sinais podem ser lentamente progressivos ou intermitentes.

Manifestações clínicas

Variam de dor cervical leve a tetraparesia/plegia e morte por paralisia respiratória, dependendo do grau de compressão da medula espinhal. Reações posturais (propriocepção e saltitamento) podem estar diminuídas ou ausentes em todos os membros. Reflexos espinhais estão normais a exagerados em todos os membros.

Procedimentos diagnósticos

  • Baseia-se no histórico, raça, idade, exame neurológico e achados de imagens.
  • Radiografia simples: Um exame radiográfico da coluna vertebral cervical em projeção lateral pode ser feito em posição neutra, e revelam o deslocamento dorsal de C2 em relação a C1, e a distância aumentada entre o arco dorsal do atlas e o processo espinhoso do áxis. As projeções ventrodorsal e/ou oblíqua são úteis para avaliação do processo odontóide que pode estar normal, hipoplásico, ausente, separado de C2 ou dorsalmente angulado. A flexão cervical ventral deve ser evitada por poder agravar a subluxação/luxação e assim os sinais clínicos. Sedação ou anestesia podem ser necessários  para obter um posicionamento adequado. Em alguns casos, a instabilidade atlantoaxial não é detectável apenas com radiografias simples, portanto, outras modalidades de imagem devem ser usadas.
  • Tomografia computadorizada: útil principalmente para avaliação do processo odontóide e demais estruturas ósseas.
  • Ressonância magnética: permite a visualização de compressão da medula espinhal, mielopatia e inflamação.

Diagnósticos diferenciais

  • Sobreposição atlantociptal
  • Discoespondilite
  • Trauma
  • Mielite
  • Meningite
  • Outras malformações da medula espinhal cervical
  • Embolia fibrocartilaginosa
  • Hérnia de disco intervertebral cervical
  • Neoplasia

 

Terapia inicial

  • Conservativo: para pacientes com dor cervical ou sinais neurológicos leves, ou se esqueleto demasiadamente imaturo e diminuto inviabilize a intervenção, ou ainda por questões financeiras. Recidiva é comum. Consiste em repouso restrito, imobilização com colete rígido por um período mínimo de 6 semanas, fazendo com que a formação de tecido fibroso estabilize a articulação. O colete deve estender-se desde a cabeça até a coluna torácica cranial, sendo confeccionado com o paciente em posição neutra ou com a coluna cervical levemente estendida para reduzir a subluxação.
  • Cirúrgico: indicado para pacientes com dor cervical refratária e/ou sinais neurológicos importantes, bem como quando não respondem à terapia conservadora.

Estabilizações dorsais utilizam fios de aço ou suturas sintéticas para fixar o processo espinhoso do axis ao arco dorsal do atlas, com alta taxa de falha (fraturas do atlas e axis, ruptura dos implantes).

Fusão Ventral:  Fixação transarticular com pinos, parafusos, com ou sem cimento ósseo, placas e enxertia. Permite a fusão articular e são técnicas preferidas para estabilizar a articulação atlantoaxial

Analgésicos e antiinflamatórios podem ser empregados em conjunto com ambas as modalidades terapêuticas

Terapia de manutenção

Avaliação neurológica sequencial deve ser feita após o tratamento conservativo ou cirúrgico para verificar a evolução do quadro. Analgésicos e antiinflamatórios podem ser utilizados conforme a necessidade.

 

Prognóstico

Variável com manejo conservador e cirúrgico, dependendo do grau de instabilidade e compressão da medula espinhal, bem como da experiência do cirurgião com a técnica cirúrgica empregada.

Complicações associadas ao tratamento conservativo e imobilização externa  incluem otite externa por diminuição da ventilação para as orelhas, dermatites, e deterioração do quadro neurológico. As complicações associadas ao procedimento cirúrgico incluem piora dos déficits neurológicos; falhas do implante; parada respiratória e morte.

 

(Título vazio)

  • Aikawa T, Shibata M, Fujita H: Modified ventral stabilization using positively threaded profile pins and polymethylmethacrylate for atlantoaxial instability in 49 dogs. Vet Surg 2013 Vol 42 (6) pp. 683-92.
  • Beaver DP, Ellison GW, Lewis DD, et al: Risk factors affecting the outcome of surgery for atlantoaxial subluxation in dogs - 46 cases (1978-1998). Surgery 2000 Vol 216 (7) pp. 1104-1109.
  • Cerda-Gonzalez S, Dewey CW, Scrivani PV, et al: Imaging features of atlanto-occipital overlapping in dogs. Vet Radiol Ultrasound 2009 Vol 50 (3) pp. 264-8.
  • Coates JR: Pitfalls of Atlanto-Axial Stabilization. ACVIM Proceedings 2007.
  • Denny HR, Gibbs C, Waterman A: Atlanto-axial subluxation in the dog : A review of thirty cases and an evaluation of treatment by lag screw fixation. J Small Anim Pract 1988 Vol 29 (1) pp. 37-47.
  • Dickomeit M, Alves L, Pekarkova M, et al: Use of a 1.5 mm butterfly locking plate for stabilization of atlantoaxial pathology in three toy breed dogs. Vet Comp Orthop Traumatol 2011 Vol 24 (3) pp. 246-51.
  •  Forterre F, Precht C, Riedinger B, Bürki A. Biomechanical properties of the atlantoaxial joint with naturally-occurring instability in a toy breed dog. A comparative descriptive cadaveric study. Vet Comp Orthop Traumatol. 2015;28(5) pp. 355-8.
  • Gibson KL, Ihle SL, Hogan PM: Severe spinal cord compression caused by a dorsally angulated dens. Prog Vet Neurol 1995 Vol 6 (2) pp. 55-57.
  • Havig ME, Cornell KK, Hawthorne J, et al: Evaluation of nonsurgical treatment of atlantoaxial subluxation in dogs: 19 cases (1992-2001). 2005 Vol 227 (2) pp. 257-62.
  • Jeffery ND: Dorsal cross pinning of the atlantoaxial joint - New surgical technique for atlantoaxial subluxation. J Sm An Prac 1996 Vol 37 (1) pp. 26-29.
  • Jeserevics J, Srenk P, Beranekl J, Jaggy A, et al: Stabilisation of atlantoaxial subluxation in the dog through ventral arthrodesis. Schweiz Arch Tierheilkd 2008 Vol 150 (2) pp. 69-76.
  • Kent M, Eagleson JS, Neravanda D, et al: Intraaxial spinal cord hemorrhage secondary to atlantoaxial subluxation in a dog. J Am Anim Hosp Assoc 2010 Vol 46 (2) pp. 132-7.
  • Lorinson D, et al: Atlanto-axial subluxation in dogs - the results of conservative and surgical therapy. Can Practice 1998 Vol 23 (3) pp. 16-18.
  • McCarthy RJ, et al: Atlantoaxial luxation in dogs. Compend Contin Educ Pract Vet 1995 Vol 17 (2) pp. 215-226.
  • Parry AT, Upjohn MM, Schlegl K, et al: Computed tomography variations in morphology of the canine atlas in dogs with and without atlantoaxial subluxation. Vet Radiol Ultrasound 2010 Vol 51 (6) pp. 596-600.
  • Patton KM, Almes KM, de Lahunta A: Absence of the dens in a 9.5-year-old rottweiler with non-progressive clinical signs. Can J Vet Res 2010 Vol 51 (9) pp. 1007-10.
  • Pendris J: Management of Congenital Spinal Disorders. British Small Animal Veterinary Congress 2010.
  • Platt SR, Chambers JN, Cross A: A modified ventral fixation for surgical management of atlantoaxial subluxation in 19 dogs . 2004 Vol 33 (4) pp. 349-54.
  • Pujol E, Bouvy B, Omana M, et al: Use of the Kishigami Atlantoaxial Tension Band in eight toy breed dogs with atlantoaxial subluxation. Vet Surg 2010 Vol 39 (1) pp. 35-42.
  • Revés N V, Stahl C, Stoffel C, et al: CT scan based determination of optimal bone corridor for atlantoaxial ventral screw fixation in miniature breed dogs. Vet Surg 2013 Vol 42 (7) pp. 819-24.
  • Sanders S G, Bagley R S, Silver G M, et al: Outcomes and complications associated with ventral screws, pins, and polymethyl methacrylate for atlantoaxial instability in 12 dogs. J Am Anim Hosp Assoc 2004 Vol 40 (3) pp. 204-10.
  • Schultz KS, et al: Application of ventral pins and polymethylmethacrylate for the management of atlantoaxial instability - results in nine dogs. Vet Surg 1997 Vol 26 (4) pp. 317-325.
  • Shores A, Tepper LC: A modified ventral approach to the atlantoaxial junction in the dog . Vet Surg 2007 Vol 36 (8) pp. 765-70.
  • Slanina MC. Atlantoaxial Instability. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2016 Vol 46(2) pp. 265-75.
  • Sorjonen DC, Shires PK: Atlantoaxial instability: A ventral surgical technique for decompression, fixation, and fusion. Vet Surg 1981 Vol 10 pp. 22-29.
  • Stalin C, Gutierrez-Quintana R, Faller K, Guevar J, Yeamans C, Penderis J: A review of canine atlantoaxial joint Vet Comp Orthop Traumatol. 2015 Vol 28(1) pp. 1-8.
  • Stigen Ø, Aleksandersen M, Sørby R, Jørgensen HJ. Acute non-ambulatory tetraparesis with absence of the dens in two large breed dogs: case reports with a radiographic study of relatives. Acta Vet Scand. 2013 Apr 17;55:31.
  • Takahashi F, Hakozaki T, Kouno S, Suzuki S, Sato A, Kanno N, Harada Y, Yamaguchi S, Hara Y. Epidemiological and morphological characteristics of incomplete ossification of the dorsal neural arch of the atlas in dogs with atlantoaxial instability. Am J Vet Res. 2018 Vol 79(10) pp. 1079-1086.
  • Thomas WB, Sorjonen DC, Simpson ST: Surgical management of atlantoaxial subluxation in 23 dogs. Vet Surg 1991 Vol 20 (6) pp. 409-412.
  • Wheeler SJ: Atlantoaxial subluxation with absence of the dens in a rottweiler. J Small Anim Pract 1992 Vol 33 pp. 90-93.

 

Anexos referente a esta consulta rápida

O conteúdo deste site é para uso exclusivo e restrito dos associados. Apenas Médicos Veterinários graduados e estudantes de Medicina Veterinária são autorizados a acessar este site.

Não está permitida a divulgação de qualquer conteúdo sem a prévia autorização do Vetsapiens, por escrito. Os Médicos Veterinários são os únicos responsáveis pelo tratamento e cuidado de seus pacientes.

Quaisquer recomendações de colegas ou especialistas recebidas através deste site são meras opiniões individuais, e cada clínico é o exclusivo responsável pelo manejo de seus pacientes. Os fármacos e doses recomendadas ou calculadas no Vetsapiens devem ser sempre conferidos antes de sua aplicação.

Veterinários não devem utilizar medicações e ou protocolos com os quais não estejam familiarizados e confortáveis. O Vetsapiens preconiza que o encaminhamento para especialistas seja sempre a primeira recomendação dos clínicos gerais ao se depararem com casos clínicos além do seu conhecimento.

As imagens e informações trocadas neste site não substituem o exame físico do paciente, e a relação exclusiva entre veterinário-paciente-cliente. As imagens aqui postadas não podem ser consideradas de qualidade diagnóstica.

Toda e qualquer informação obtida neste site deve ser considerada apenas como uma sugestão individual e não tem qualquer valor diagnóstico.

Desenvolvido por logo-crowd