Infecção por Yersínia

Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 07 FEV DE 2020

Nome em Inglês

Plague

Sinônimos

Peste bubônica

Peste septicêmica

Peste pneumônica

Definição

A peste é uma doença causada pela infecção de Yersinia pestis. Esta é uma infecção zoonótica e é transmitida entre reservatórios animais. O ciclo é obrigatório de pulga – roedor – pulga. Os humanos e os animais funcionam como hospedeiros acidentais para o agente bacteriano.

Etiologia e Fisiopatogenia

A Yersinia pestis, pertence a família Enterobacteriaceae, é um cocobacilo, gram-negativo, anaeróbica facultativa, não produtora de esporos e não móvel.

Este microrganismo pode sobreviver  por bastante tempo em material orgânico, como por exemplo em carcaças infectadas.

As temperaturas frias ou congelamentos também prolongam a viabilidade da bactéria. Porém, é sensível a dessecação acima dos 40°C. 

Este agente produz uma endotoxina lipolissacarídica e um envelope capsular que contém antígeno contra a fagocitose da fração principal I.

A diferença de temperatura e o ambiente influenciam na expressão da bactéria quanto a virulência e os fatores de transmissão.

Desta forma é facilmente transmitida para outros hospedeiros mamíferos, se multiplicando rapidamente, o que nos leva a entender como ocorreu a disseminação na maioria dos continentes.

As pulgas que residem nos cães e gatos (espécies de Ctenocephalides) não são considerados vetores ideais para o ciclo da doença. 

A doença geralmente esta localizada em locais de clima semiárido e frios, frequentemente próximo a desertos.

Nas áreas endêmicas as características que favorecem a disseminação da doença, são a quantidade de hospedeiros roedores com baixa expectativa de vida, alto potencial de multiplicação e a presença de pulgas durante o ano todo.

Os cães e os gatos se contaminam através da ingestão de pulgas quando mordem suas presas infectadas.

De modo geral, após 10 dias de ingestão do agente, os microrganismos podem ser isolados de orofaringe e da corrente sanguínea.

Os gatos são mais suscetíveis a doença do que os cães e outros carnívoros.

Estes animais são semelhantes as pessoas, tornando-se uma fonte de infecção aos humanos.

Já os cães quando infectados apresentam apenas sintomas leves, como febre, linfadenomegalia e há produção de anticorpos. São considerados mais resistentes a doença mas podem transportar a bactéria através de suas pulgas ou carcaça de roedores infectados.

Um dos fatores de virulência encontrado em pulgas infectadas é o bloqueio do proventrículo através da colonização das bactérias no local.

Isso deixa as pulgas com mais fome, aumentando a frequência com que elas queiram se alimentar.

Durante estes momentos elas transferem o patógeno para o o hospedeiro não infectado. Apenas as pulgas bloqueadas que transmitem a doença e elas podem morrer de desidratação e fome. 

Geralmente a transmissão ocorre pela picada da pulgas mas também pode haver contato do microrganismo com as mucosas, ferida na pele ou inalação de aerossóis de animais com peste pneumônica.

Dependendo da forma de contagio, a doença se apresentará de forma distinta. 

Quando ocorre a picada, a Yersinia pestis é fagocitada por células mononucleadas e polimorfonucleadas.

Nas células mononucleadas a bactéria tem o poder de se multiplicar, formar cápsulas tornando a bactéria ainda mais resistente e estas células migram até os linfonodos regionais.

Neles, conforme a multiplicação do agente ocorre aumento de volume da região e formações de nódulos chamados de bubo.

Nos gatos, geralmente acomete com maior frequência os linfonodos submandibulares e sublinguais.

Pode ocorrer necrose tecidual e formação de abscessos (2 a 6 dias), levando a disseminação através da corrente sanguínea e linfático para os demais órgaos, incluindo os pulmões. 

Quando a infecção ocorrer pelas outras formas, o agente já possui a cápsula que foi formada nas células do hospedeiro anterior, a doença então se manifesta mais rapidamente, em cerca de 1 a 3 dias. 

Na bacteremia outros órgãos podem ser atingidos, como fígado, baço, rins, coração, olhos, cérebro, além dos pulmões.

A produção de endotoxinas pela Y. pestis pode levar o animal a choque séptico, edema e coagulação intravascular disseminada.

A evolução clínica pode ter duração de 6 a 20 dias.

Maior ocorrência

Não há predileção por raça, idade ou sexo.

Gatos são mais suscetíveis ao desenvolvimento da doença do que os cães.

Achados de anamnese

Nos gatos com peste bubônica pode ocorrer febre (40,6°C a 41.2°C), desidratação, hiperestesia e linfadenomegalia.

Os linfonodos aumentados que podem ser palpáveis são os submandibulares, retrofaríngeo e cervicais. Pode ocorrer abscesso e drenagem de material purulento.

Na forma séptica pode ocorrer manifestações compatíveis com choque séptico.

O que inclui febre, anorexia, êmese, diarreia, taquicardia, hipotensão, pulso fraco, CIVD, extremidades frias e leucocitose acentuada. 

Outros sinais podem ser encontrados de maneira menos comum, como secreção ocular, êmese, diarreia, perda de peso, desidratação, pêlo fraco, edema de língua, estomatite necrótica, ulceração facial, distensão abdominal e celulite.

Os cães naturalmente infectados quando apresentam doença clínica geralmente apresentam febre, linfadenomegalia cervical, abscessos mandibulares e tosse.

Manifestações clínicas

Nos gatos a doença pode se apresentar de três maneiras, a peste bubônica, septicêmica e pneumônica.

A forma mais comum e mais fatal é a peste bubônica. Esta é adquirida através da ingestão de roedores infectados.

Se ocorrer drenagem dos abscessos a probabilidade do animal sobreviver é maior.

Se houver evolução deste quadro pode ocorrer disseminação por via hematógena ou linfática e se tornar a forma séptica. 

Nesta forma pode haver ou não formações dos bubos, podendo atingir diversos órgãos mas no gatos é mais comuns o acometimento dos pulmões.

Os sinais de choque séptico são evidentes e a morte ocorre geralmente de 1 a 2 dias após a bacteremia.

A forma pneumônica pode ser secundária à disseminação hematógena ou linfática.

A forma primária geralmente é contraída através da ingestão dos aerossóis contaminados, porém esta forma é menos comum de acontecer.

A forma pneumônica tem o pior prognóstico e a febre alta agrava mais o quadro clínico do animal.  

Já os cães são mais resistentes a doença e podem apresentar febre, linfadenomegalia cervical, abscessos mandibulares e tosse, quando são naturalmente infectados.

Procedimentos diagnóstico

Ao suspeitar da doença o médico veterinário além de coletar as informações epidemiológicas e clínicas do animal, deve solicitar testes paro diagnóstico definitivo.

A coleta de materiais deve ser feita e a terapia já deve ser iniciada antes mesmos dos resultados conclusivos.

Nos gatos que apresentem a forma pneumônica, radiografia do tórax pode ajudar na investigação da doença.

A colheita através de aspirado de linfonodos, sangue ou do tecido infectado pode ser corada por gram, onde diversas bactérias gram negativas serão observadas.

Outro método disponível pode ser realizado por testes diretos de anticorpos fluorescentes em lâminas fixadas com fluidos colhidos. 

Teste sorológico também pode ser feito com intervalo de 10 a 14 dias.

Em regiões endêmicas os altos títulos para Yersinia pestis podem estar presentes nos cães e gatos.

Para o diagnóstico nestas áreas os títulos devem ser feitos pareadas e o aumento deve ser de 4 vezes para distinguir de infecção ativa ou exposição anterior. O início da doença pode haver resultados falso negativos.

O cultivo microbiológico pode ser realizado em laboratórios de saúde publica, o risco de contaminação não permite que centros diagnóstico comuns realizem tal procedimento.

As amostras colhidas devem ser enviadas muito bem protegidas de risco de extravasamento das mesmas.

O PCR (reação em cadeia de polimerase), pode ser realizado para identificar a bactéria no sangue, tecidos e nas pulgas.

Diagnóstico diferencial

Abscesso cutâneo ou subcutâneo por outras bactérias

Toxoplasmose na forma pulmonar

Antraz

Actinomicose

Blastomicose

Nocardiose

Outras causas de febre de origem desconhecida

Terapia inicial

A antibioticoterapia deve ser empregada quando há suspeita mesmo sem o diagnóstico definitivo da doença.

A Y. pestis é resistente aos antibióticos β-lactâmicos.

O uso de aminoglicosídeos como a estreptomicina e a gentamicina são os medicamentos considerados mais eficazes no combate a infecção.

O cloranfenicol pode ser usado em paciente que apresentem alterações neurológicas.

A doxiciclina é usada na peste bubônica ou como profilaxia, porém pode haver resistência associada as tetraciclinas por má absorção intestinal ao medicamento.

As flourquinolonas não são recomendadas para o tratamento de cães e gatos pois sua eficácia não foi comprovada. 

Os gatos infectados com a bactéria devem ser tratados por 21 dias, devem ser isolados nas primeiras 48 a 72 horas de antibioticoterapia.

Os protocolos devem ser mantidos mesmo que os sinais se resolvam.

Os animais com a forma pneumônica devem ficar por mais tempo hospitalizado, a fim não ocorrer o risco de contaminação dos seus tutores. 

Nos casos de animais assintomáticos mas expostos à doença, pode-se empregar terapia antimicrobiana com tetraciclinas por 7 dias. 

Terapia de suporte e manutenção

Todos os animais suspeitos devem ser manuseados por pessoas usando equipamentos de proteção individual incluindo luvas, aventais, máscaras e óculos. 

Deve-se examinar os animais a fim de encontrar pulgas, se identificadas as gaiolas e as salas devem ser desinfectadas com carbamatos ou piretrinas.

A Y. pestis é sensível aos desinfetantes usados rotineiramente na clínica. 

Os abscessos devem ser lancetados, drenados e o local deve ser lavados com clorexidina.

Os materiais que contenham pus desta drenagem devem ser descartados e incinerados. 

 

Prognóstico

O prognóstico é variável dependendo da forma clínica apresentada e da espécies envolvida.

Em gatos a peste pneumônica tem pior prognóstico, principalmente nos animais com febre superior a 40°C.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o último caso registrado em humanos no Brasil foi no ano de 2005 no estado do Ceará, desde então não há registro da ocorrência da doença em território nacional.

Entre os anos de 1997 e 2006 foi realizado inquérito sorológico em cães e gatos em regiões pestosas do Nordeste brasileiro que identificou uma soroprevalência de 76% em gatos e 49,1% em cães, domiciliados em residências de pacientes confirmados positivos para peste.

No entanto os animais não apresentaram nenhum sinal clínico, sendo de grande importância no monitoramento da doença, fornecendo importantes dados epidemiológicos para o rastreamento e prevenção em humanos.

Literatura recomendada

MACY, Dennis. Plague. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: ELSEVIER, 2006, cap. 47, p. 439-446. 

 

WILDER, Aryn P. et al. Oropsylla hirsuta (Siphonaptera: Ceratophyllidae) Can Support Plague Epizootics in Black-Tailed Prairie Dogs (Cynomys ludovicianus) by Early-Phase Transmission of Yersinia pestis. VECTOR-BORNE AND ZOONOTIC DISEASES, Colorado, ano 2008, v. 8, n. 3, 2008. Bacterial Diseases Branch, p. 359-367. Disponível em: https://www.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/vbz.2007.0181. Acesso em: 19 nov. 2019. 

Informações para tutores

A peste é uma doença causada por uma bactéria que esta presente nas pulgas que parasitam os roedores.

Elas podem contaminar os cães e gatos se forem ingeridas ou ainda por picada. Existem três formas de apresentação da doença e ela depende do tipo de contato com o microrganismo.

Os gatos em geral apresentam mais sintomas e os cães tendem a não apresentar sinais da doença. 

Quando há manifestações clínicas elas são frequentemente febre, desidratação, sensibilidade exacerbada e aumento dos gânglios principalmente na região do pescoço. Pode ocorrer abscesso e drenagem de material purulento.

Na forma séptica pode ocorrer manifestações compatíveis com choque. O que inclui febre, flata de apetite, vômito, diarreia, aumento da frequência cardíaca, pressão baixa, pulso fraco e extremidades frias. 

Quando os cães apresentam sintomas geralmente é de febre, aumento dos gânglios, abscessos mandibulares e tosse.

O tratamento quando suspeitado de infecção por esta bactéria deve ser estabelecido o quanto antes e os animais devem ser isolados de pessoas e outros animais.

Geralmente, o tratamento é a base de antibióticos por um período de 21 dias.

No Brasil não há ocorrência de casos humanos desde 2005 e nos animais estudos mostram que a infecção tende a não apresentar sintomas da doença.

Referências Bibliográficas

MACY, Dennis. Plague. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: ELSEVIER, 2006, cap. 47, p. 439-446. 

 

DE ALMEIDA, Alzira Maria et al. Importância dos Carnívoros Domésticos (Cães e Gatos) na Epidemiologia da Peste nos Focos do Nordeste do Brasil. Caderno de Saúde Pública , Rio de Janeiro, ano 1988, v. 4, n. 1, p. 49-55, jan/mar. 1988. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v4n1/04.pdf. Acesso em: 15 nov. 2019 

 

SAAVEDRA, Ramon da Costa et al. Infecção por Yersinia pestis, no Estado da Bahia: controle efetivo ou silêncio epidemiológico?. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical , Salvador/BA, ano 2010, 20 ago. 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsbmt/2011nahead/aop06-11.pdf. Acesso em: 15 nov. 2019. 

 

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