Histoplasmose

Dr Maurício Piovesan Henrique

Ultima atualização: 30 DEZ DE 2019

Sinônimos

  • Histoplasmose clássica
  • Histoplasmose americana

Nome em inglês

Histoplasmosis

Definição

A histoplasmose trata-se de uma micose sistêmica causada por fungos do gênero Histoplasma.

Etiologia

A histoplasmose é uma afecção sistêmica causada pelo Histoplasma capsulatum, um fungo dimórfico de ocorrência especialmente em regiões de clima temperado e sub-tropical, saprófita do solo, endêmico em áreas úmidas e presente em fezes de aves e morcegos.

Dentro destas condições, ambientes como construções abandonadas, galinheiros e cavernas podem albergar o agente.

Aspectos epidemiológicos

A histoplasmose tem sua prevalência ainda desconhecida, porém já foi relatada no Brasil nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Distrito Federal, Ceará, Paraíba, Amazonas, Bahia, São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, sendo que este último apresenta o mais alto índice de prevalência, de acordo com a positividade do teste de reação dérmica com histoplasmina.

Acomete cães e gatos, sem predisposição sexual, racial ou etária, especialmente os imunocomprometidos.

No entanto, ressalta-se uma maior importância em cães jovens de raças caçadoras, como Weimaraners, Terriers,  Pointers e Spaniels. 

 

Fisiopatogenia

O contato inicial com o fungo se dá por inalação dos microconídeos dispersos no ar. Uma vez no pulmão, sofrem fagocitose por macrófagos, onde, intracelularmente, ocorre conversão para a fase leveduriforme e multiplicação por brotamento.

Em seguida, ocorre disseminação linfática e hematógena, podendo acarretar em infecção em diversos órgãos.

Após cerca de três semanas, a resposta inflamatória levará à formação de focos de necrose caseosa com posterior calcificação e granulomas, que podem levar à cura clínica, mas também podem permitir a reativação da doença em momentos de imunossupressão.

A infecção por via oral também pode ocorrer.

Assim, nos animais sintomáticos, as principais alterações clínicas são observadas em sistema respiratório e digestório. 

Achados de anamnese

Na identificação do paciente, considerar relevante aquele indivíduo jovem ou adulto e, no caso de cães, as raças esportivas/de caça/de trabalho.

No histórico, atentar-se a relatos de viagens ou residência em locais endêmicos ou de risco; assim, contato com áreas rurais, galinheiros, casas antigas/abandonadas, estruturas de madeira e cavernas são informações importantes.

Na queixa principal, sinais inespecíficos como letargia, inapetência e perda de peso são os mais comumente referidos, para ambas as espécies.

Podem haver sinais respiratórios como tosse, dispneia e taquipneia, bem como sinais gastrintestinais relacionados a intestino grosso, especialmente hematoquezia, muco fecal e tenesmo; êmese também pode ser referida.

Mais raramente, manifestações neurológicas, cutâneas e oculares podem ser relatadas. 

 

Manifestações clínicas

Os achados de exame físico podem variar de acordo com a espécie e com a competência imunológica do indivíduo.

Cães e gatos hígidos podem muitas vezes apresentar a forma assintomática da doença. Porém, quando na forma sintomática, gatos normalmente apresentam a doença crônica disseminada, na qual ao exame físico é possível observar febre, palidez de mucosas, desidratação, dispneia, taquipneia, efusão pleural, sons pulmonares anormais, linfadenopatia, esplenomegalia e hepatomegalia.

Eventualmente, conjuntivite, coriorretinite, blefarite granulomatosa, uveíte anterior, descolamento de retina, neurite óptica e lesões tegumentares ulcerativas, nodulares e fistulosas, bem como pólipos nasais e úlceras orais.

Cães, quando sintomáticos, apresentam com maior frequência a forma disseminada ou gastrintestinal.

Como já referido, os sinais gastrintestinais relacionam-se tipicamente a quadros diarreicos de intestino grosso (diarreia mucossanguinolenta com tenesmo e frequência aumentada).

Sinais respiratórios estão presentes em metade dos casos; eventualmente, ascite, icterícia, hepatomegalia, esplenomegalia e linfadenopatia podem ocorrer.

E, de forma ainda mais rara do que nos felinos, alterações oculares e tegumentares podem ser observadas. 

Diagnóstico

  1. Presuntivo: através de histórico, anamnese e exame físico. No hemograma, anemia arregenerativa, normocítica e normocrômica, além de leucocitose  com neutrofilia e monocitose; porém, a depender do momento, e especialmente em gatos, leucopenia também pode ser observada. No perfil hepático,  hipoproteinemia, hipoproteinemia e alteração das enzimas hepáticas podem estar presentes. Quanto aos exames de imagem, infiltrados intersticiais nodulares ou lineares difusos em parênquima pulmonar e efusão pleural podem ser evidenciados na radiografia torácica; à ultrassonografia abdominal, hepatomegalia, esplenomegalia e presença de líquido livre podem ser sugestivos do quadro, 
  2. Cultivo micológico: padrão ouro. A partir de amostras de material biológico (sangue - quando na fase aguda -, punção de medula, linfonodos, lavado brônquio-alveolar, fragmentos cutâneos ou swabs de secreções) cultivadas em ágar Sabouraud, ágar-batata ou Mycosel ®, em temperatura ambiente por 6 a 12 semanas. 
  3. Exame histopatológico ou citológico: observação de parasitismo intracelular (interior de macrófagos). A coloração com a prata-metenamina de Gacott, Giemsa ou Wright auxilia na diferenciação deste agente para outros, como Leishmania e Toxoplasma.
  4. Testes sorológicos: não são métodos confiáveis para o diagnóstico em cães e gatos, pela elevada frequência de falsos positivos e negativos. 

 

Diagnósticos diferenciais

Os principais diferenciais são outras micoses sistêmicas (aspergilose, blastomicose, coccidioidomicose, criptococose), pneumonia bacteriana, doenças crônicas neoplásicas/degenerativas (pelo padrão de anemia), doenças que cursam com perda proteica/síndrome da má absorção (colite, linfoma alimentar, doença inflamatória intestinal). 

Tratamento

A terapia de eleição para a histoplasmose em cães é o itraconazol na dose de 10mg/kg, a cada 24 horas, pela via oral; em gatos, a mesma dose é válida, porém a cada 12 horas, por um período longo, que varia de 4 a 6 meses, em razão do risco de recidiva.

Cetoconazol, na dose de 10 a 20 mg/kg para cães e 10 a 15 mg/kg em gatos, ambos a cada 12 horas, pode ser utilizado pelo custo mais baixo; porém, a eficácia é menor e causa mais efeitos colaterais quando comparado ao itraconazol. 

Nos casos mais graves, a anfotericina B (na dose 0,25-0,5 mg/kg IV a cada 48 horas até uma dose cumulativa de 5-10 mg/kg em cães e 4-8 mg/kg em gatos) pode ser associada ao itraconazol ou cetoconazol.

Terapia de suporte

Fluidoterapia, para correção da desidratação e dos desequilíbrios eletrolíticos; suporte nutricional através de sonda esofágica ou sonda gástrica, para aqueles pacientes anoréticos e/ou severamente desnutridos; antibioticoterapia, no caso de infecções bacterianas secundárias/oportunistas (pneumonias, por exemplo).

Quanto à monitoração, é prudente acompanhar seriadamente o hemograma (avaliação do quadro anêmico e leucocitário) e o perfil renal (especialmente pelo risco de hepatopatia induzida pela terapia antifúngica). 

Prognóstico

Bom para os pacientes assintomáticos ou com alterações unicamente respiratórias; reservado a mal para cães e gatos com a forma disseminada e/ou com comprometimento de sistema nervoso.

 

Literatura recomendada

BRÖMEL, Catharina; SYKES, Jane E. Histoplasmosis in dogs and cats. Clinical Techniques in Small Animal Practice, v. 20, n. 4, p. 227–232, 2005.

 

FERREIRA, Rafael Rodrigues et al. Infecções fúngicas do trato respiratório de cães e gatos Fungal infections of the respiratory tract of dogs and cats. Acta Scientiae Veterinariae, v. 35, n. 2, p. 285–288, 2007.

 

TELES, Alessandra Jacomelli et al. Histoplasmose Em Cães E Gatos No Brasil. Science And Animal Health, v. 2, n. 1, p. 50, 2014.

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