Hipotireoidismo Canino

Dr Leandro Haroutune Hassesian Galati

Ultima atualização: 02 MAR DE 2020

Nome em Inglês

Hypothyroidism

Definição

O Hipotireoidismo é uma condição de etiologia múltipla, que resulta em insuficiente ou ausente produção dos hormônios tireoidianos T4 (tiroxina ou tetraiodotironina) e T3 (triidodotiroxina).

Qualquer perturbação do eixo hipotalâmico-pituitário-tireoidiano pode resultar esta condição.

Fisiopatologia e Etiologia

- Hipotireoidismo Primário: resultado da perda de massa funcional tireoidiana, que no cão é predominantemente resultado da tireoidite linfocítica e da atrofia folicular idiopática.

A forma primária é a mais frequente no cão, contemplando cerca de 95% dos casos.

Outras etiologias primarias no cão são a hiperplasia de células foliculares, iatrogenia (tireoidectomia, terapia com iodo radioativo, radioterapia e uso de fármacos antitireóideos), destruição glandular neoplásica e causas congênitas.

- Hipotireoidismo Secundário: resultado da diminuição da produção do TSH que pode ser de causa farmacológica (glicocorticoides), malformação congênita, que resulta em cretinismo, ou outras causas que levam a danos pituitários.

- Hipotireoidismo Terciário: forma não descrita no cão, é resultado da insuficiente produção de TRH.

No homem existem formas congênitas, mutações da molécula de TRH, alterações em seus receptores e destruição do tecido responsável por sua produção.

- Hipotireoidismo Congênito: inclui todas as alterações congênitas das formas primária, secundária ou terciária. 

 

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

O hipotireoidismo em cães é mais ocorrente em animais de meia idade (entre 2 e 6 anos) e não há comprovação de predisposição sexual.

As raças que se mostram predispostas são: Doberman, Pinscher, Golden Retriever, Labrador, Cocker Spaniel, Schnauzer miniatura, Teckel, Setter Irlandês, Boxer, Beagle, Borzói e Dogue-alemão.

Achados de anamnese

Existe uma grande lista de achados de anamnese, sendo os mais característicos e corriqueiros a letargia, o ganho de peso, a intolerância ao frio, ou ainda, a heliofilia (preferência por locais onde haja incidência solar), intolerância ao exercício e queixas dermatológicas, que geralmente envolvem queda do pelame e perda da sua coloração característica ou brilho.

Outros achados bem menos específicos podem envolver confusão mental, head-tilt, ataxia e convulsões, anestro persistente, diarreia, constipação e síncope.

Manifestações clínicas

As manifestações clínicas do hipotireoidismo envolvem os mais variados sistemas:

- Metabólicas: Letargia, Confusão Mental, Ganho de Peso, Intolerância ao Frio.

- Dermatológicas: Alopecia Bilateral e Simétrica, Sinal da Cauda de Rato, Pelame seco e sem brilho, Hiperpigmentação, Disqueratinização, Seborreia, Piodermite Recidivante, Otite Externa Recorrente e Mixedema.

- Reprodutivas: Anestro persistente, Estro Silencioso, Sangramento estral prolongado, Natimortalidade e Aborto.

- Neuromuscular: Fraqueza muscular, Intolerância ao exercício, Atrofia muscular, Ataxia, Andar em círculos, Head-tilt, Andar em círculos, Paralisia do nervo facial, Convulsões e Paralisia de laringe.

- Oftálmicas: Depósito corneano (gorduroso), Uveíte e Úlcera de córnea.

- Cardiovascular: Bradicardia e Arritmias cardíacas

- Gastrointestinal: Hipomotilidade, Diarreia e Constipação.

Procedimentos diagnósticos

Os testes de maior acurácia e atualmente mais indicados no diagnóstico do hipotireoidismo canino são a dosagem sérica de T4 livre, pelo método de diálise de equilíbrio, e do TSH canino.

Classicamente os valores de T4 livre abaixo dos valores de referência, enquanto do TSH estão acima.

- T4 Livre (T4L): corresponde à porção de T4 não ligado às proteínas plasmáticas. Reflete uma melhor função da glândula tireoide, pois, este é quem irá atuar diretamente sobre as células. Acurácia maior que 90%.

- T4 Total (T4T): é somação das porções livre e ligadas às proteínas plasmáticas. A técnica de radioimunoensaio é a mais acurada. É um teste de rotina utilizado como triagem. Acurácia de cerca de 75%.

- T3 Total e T3 Livre: da mesma forma, são correspondentes às porções livre e ligada às proteínas plasmáticas, ou somente aquela livre ou não ligada, respectivamente. Ambas as mensurações não têm valor diagnóstico para o hipotireoidismo canino, pois, mais de 90% dos pacientes podem apresentar T3 total ou livre em níveis normais.

- T3 Reverso (T3R): sem padronização e valor diagnóstico em cães.

- TSH Canino: sua mensuração deve sempre estar associada à dosagem sérica de T4L ou T4T, nunca como único método diagnóstico.

Cerca de 20 a 40% dos cães hipotireoideos podem apresentar mensurações de TSH normais, fato este relacionado ao hipotireoidismo secundário, ação de fármacos e decréscimo em sua produção no hipotireoidismo crônico.

- Interferentes das dosagens hormonais: Idade avançada, medicamentos (glicocorticoides, fenobarbital, AINEs e sulfonamidas), exercício, caquexia e comorbidades graves podem diminuir as mensurações de T4 e T3 totais ou livres. Já o estro e a obesidade podem aumentar estas mensurações.

- Outros testes não rotineiros: Estimulação por TSH, estimulação por TRH, anticorpos anti-tireoglobulina, anti-T3 e anti-T4, biópsia de tireóide e ultrassonografia de tireóide. 

- Testes não específicos: são comuns achados como anemia normocítica normocrômica e hiperlipidemia (aumento mais evidente de colesterol em relação ao triglicérides).

Terapia

A terapia do hipotireoidismo canino deve consistir do uso de Levotiroxina Sódica (L-tiroxina), em doses que podem variar de 20 a 40 µg/kg a cada 12 ou 24 horas.

Alguns tratadistas recomendam a que ao início da terapia seja feita introdução gradual de 25% da dose total, com avaliação clínica e laboratorial guiando os ajustes.

A administração a cada 12 horas é a mais recomendada, uma vez que mantém as concentrações de T4T mais próximas dos níveis fisiológicos, contudo, alguns pacientes apresentam bom controle com o uso a cada 24 horas, assim como demonstram alguns trabalhos.

Recomenda-se que a administração da levotiroxina seja sempre em jejum, e que este se mantenha por pelo menos mais 1 hora após a administração. 

Manutenção

É importante que o controle seja feito com as dosagens de T4 total pré e pós-pill, pelo menos 30 dias após o inicio da terapia e a cada 6 a 12 meses.

As mensurações em jejum (pré-pill) devem estar entre 1,5 e 3,5µg/dL e 4 a 6 horas após a administração do medicamento (pós-pill) entre 2,5 e 4,5µg/dL.

É importante que as doses de levotiroxina sejam reajustadas com base nos resultados, seja quanto à necessidade de aumento (resultados de T4 abaixo do intervalo) ou diminuição (resultados de T4 acima do intervalo) desta.

A atenção deve ser redobrada com valores de T4 total acima de 6 µg/dL, pois o risco de tireotoxicose neste caso é aumentada.

 

Prognóstico

O prognóstico para os animais com terapia adequada é excelente, quando se refere aos casos de hipotireoidismo adquirido primário (>95% dos casos).

Contudo, aqueles animais com formas congênitas, ou ainda, formas secundárias relacionadas às neoplasias intracranianas o prognóstico é reservado a mal, na dependência do comprometimento das funções vitais e retardo no desenvolvimento dos filhotes.

Literatura recomendada

  • Jericó, M. M.; Andrade Neto, J. P.; Kogika M. M. Hipotireoidismo Canino In: Tratado de Medicina Interna de Cães e Gatos. Guanabara Koogan, 1 ed., 2015.
  • Feldman E. C.; Nelson R. W.; Reusch C.; Scott-Moncrieff J. C.; Behrend E. The Thyroid Gland In: Canine & Feline Endocrinology. Elsevier, 4d, 2015.
  • Mooney, C. T.; Peterson M. E. Hipotireoidismo em Cães In: Manual de Endocrinologia em Cães e Gatos. Roca, 4d., 2015.
  • Nelson, R. W.; Couto C. G. Disorders of the Thyroid Gland In: Small Animal Internal Medicine. Elsevier, 5ed, 2014.
  • Mooney, C.T. Canine hypothyroidism: a review of aetiology and diagnosis. New Zealand Veterinary Journal. 59(3):105-14, 2011.
  • Mooney, C.T. Canine hypothyroidism In: Ettinger S. J.; Feldman E.C.; Côté E.Textbook of Veterinary Internal Medicine. Elsevier, 8ed, 2017.
  • Amores-Fuster I.; Cripps P.; Blackwood L. Post-radiotherapy hypothyroidism in dogs treated for thyroid carcinomas. Veterinary and Comparative Oncology. 15(1):247-251, 2017.

 

Informação ao Tutor

Nenhum anexo disponível

O conteúdo deste site é para uso exclusivo e restrito dos associados. Apenas Médicos Veterinários graduados e estudantes de Medicina Veterinária são autorizados a acessar este site.

Não está permitida a divulgação de qualquer conteúdo sem a prévia autorização do Vetsapiens, por escrito. Os Médicos Veterinários são os únicos responsáveis pelo tratamento e cuidado de seus pacientes.

Quaisquer recomendações de colegas ou especialistas recebidas através deste site são meras opiniões individuais, e cada clínico é o exclusivo responsável pelo manejo de seus pacientes. Os fármacos e doses recomendadas ou calculadas no Vetsapiens devem ser sempre conferidos antes de sua aplicação.

Veterinários não devem utilizar medicações e ou protocolos com os quais não estejam familiarizados e confortáveis. O Vetsapiens preconiza que o encaminhamento para especialistas seja sempre a primeira recomendação dos clínicos gerais ao se depararem com casos clínicos além do seu conhecimento.

As imagens e informações trocadas neste site não substituem o exame físico do paciente, e a relação exclusiva entre veterinário-paciente-cliente. As imagens aqui postadas não podem ser consideradas de qualidade diagnóstica.

Toda e qualquer informação obtida neste site deve ser considerada apenas como uma sugestão individual e não tem qualquer valor diagnóstico.

Desenvolvido por logo-crowd