Hipertireoidismo Felino

Dr Leandro Haroutune Hassesian Galati

Ultima atualização: 02 MAR DE 2020

Nome em inglês

Feline Hyperthyroidism

Definição

O hipertireoidismo é uma enfermidade resultante da produção excessiva dos hormônios T3 e T4 pela glândula tireóide, geralmente resultado de doença tireoideana crônica em um ou ambos os lobos da tireóide.

É a endocrinopatia mais comum dos felinos.

Fisiopatologia

A fisiopatogênese do hipertireoidismo felino ainda é pouco elucidada, pois, acredita-se que uma confluência de fatores, tais como genéticos, dietéticos, imunológicos e ambientais estejam envolvidos.

São apontadas questões como a deficiência de iodo e selênio, consumo excessivo de isoflavonas da soja, o bisfenol-A presente em embalagens de alimentos enlatados e diversos fatores bociogênicos presentes no ambiente e químicos.

Basicamente uma subpopulação de células foliculares com grande potencial de replicação e crescimento replica-se de forma anômala, com produção hormonal independente da estimulação por TSH.

Etiologia

- Hiperplasia Adenomatosa Multinodular e Adenoma de Células Foliculares: achados histológicos mais comuns no hipertireoidismo felino, sendo ambas formações benignas.

É comum que ambos os achados estejam presentes na mesma glândula tireoide.

Não há diferença clínica relevante entre estes achados.

- Carcinoma Tireoideano: neoplasia maligna, ocorrente em cerca de 1% a 3% dos casos de hipertireoidismo felino, de apresentação múltipla, como tumores encapsulados, móveis e de tamanhos variáveis a tumores com infiltração local, de tamanhos exuberantes e metastáticos.

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

Mais ocorrente em gatos de meia-idade a idosos, com média de 12 anos de idade.

Não há estudos que demonstram predisposição racial, contudo, gatos Siameses e Himalaios parecem ter menor risco de desenvolvimento da doença.

Da mesma forma, não foi demonstrada predisposição sexual.

 

Achados de anamnese

Os achados de anamnese podem ser bastante discrepantes na dependência do momento da progressão da doença em que o proprietário procura o serviço médico-veterinário.

Nos estágios mais iniciais da doença as queixas clássicas incluem: polifagia, vigor e agitação (fato este por vezes elogiado pelos proprietários de felinos idosos), agressividade excessiva, inquietação, vocalização excessiva, perda de peso, poliúria e polidipsia (estes mais dificilmente notados pelo proprietário), grooming excessivo e alterações na qualidade do pelame ou alopecia simétrica bilateral.

Em estágios mais avançados as queixas podem incluir caquexia, prostração, hiporexia ou anorexia, êmese e diarreia, dispneia ou outras manifestações inespecíficas relacionadas ao comprometimento de outros sistemas orgânicos. 

Manifestações clínicas

As manifestações clássicas incluem perda de peso progressiva, polifagia, poliúria, polidipsia, agressividade, taquipneia, taquicardia, hipertensão, êmese, diarreia, alterações dermatológicas (alopecia simétrica bilateral, perda da qualidade do pelame) e hipertensão.

Podem também ser achados a prostração, inapetência, anorexia, manifestações relacionadas à cardiomiopatia hipertrófica (como por exemplo, o tromboembolismo, arritmias, edema e efusão), fraqueza muscular e fadiga, ventroflexão cervical e descolamento de retina (secundário à hipertensão).

A presença de nódulo tireoidiano palpável pode estar presente em até 95% dos gatos, em um ou ambos os lobos da tireoide, sendo avaliação indispensável. 

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico deve consistir da combinação dos achados clínicos e da confirmação laboratorial, sendo esta rotineiramente através da dosagem sérica de T4 total.

Os níveis séricos de T4 total estão aumentados em mais de 90% dos felinos acometidos, quando não, podem estar normais em pacientes em estágios muito avançados da doença ou doença não tireoidiana concomitante, tais como Diabetes Mellitus, nefropatia, quadros hepáticos ou neoplasias.

A mensuração de T4 livre por diálise de equilíbrio também pode ser empregada, contudo, é menos específica, apresentando um número relativamente maior de resultados falso-positivos.

Outras provas diagnósticas não rotineiras podem ser empregadas naqueles pacientes em que as dosagens séricas de T4 são normais, porém há sintomatologia e nódulo tireoidiano palpável, como o teste de supressão do hormônio tireoidiano, teste de estimulação por TRH e teste de resposta ao TSH.

Outros achados inespecíficos, porém sugestivos, podem ser as elevações de FA, ALT e AST.

Diagnósticos diferenciais

Os diagnósticos diferenciais incluem: Diabetes Mellitus, hiperadrenocorticismo, acromegalia, doença renal crônica, insuficiência pancreática exócrina, doença intestinal inflamatória, linfoma alimentar e outras causas de mal absorção intestinal.

Terapia

- Medicamentosa:

O metimazol (Tapazol®) é o fármaco de escolha de escolha na terapia medicamentosa do hipertireoidismo felino.

A eficácia é superior a 90% e os níveis de T4 tendem a normalizar dentro de 2 a 4 semanas, contudo, elevam-se em até 72 horas da descontinuação da terapia.

Recomenda-se o uso de 2,5mg/gato a cada 12 horas, ou ainda, como forma alternativa ou preocupação com efeitos adversos o uso de 2,5mg/gato a cada 24 horas ou 1,25mg/gato a cada 12 horas.

Caso não haja resposta clínica em 2 semanas, aconselha-se o uso 2,5mg/gato a cada 8 horas ou 5mg/gato pela manhã e 2,5mg/gato pela noite (ou vice-versa).

As dosagens séricas de T4 devem ser realizadas após cerca de 4 semanas de terapia para o ajuste adequado de doses (aumento ou redução).

Raramente os gatos necessitam mais de 10mg/gato ao dia, contudo, é uma opção casos os valores de T4 não se normalizem.

Nos primeiros 3 meses de administração do metimazol pode-se observar os efeitos adversos, tais como letargia, prostração, anorexia e prurido facial.

- Tratamento radioativo:

Consiste da administração intravenosa de Iodo 131, sendo esta a modalidade de escolha para a terapia do hipertireoidismo felino.

A captação desta forma de iodo pela glândula tireoide promove destruição local de células hiperplásicas ou neoplásicas através da liberação de radiação gama e partículas beta.

Os pacientes devem realizar a terapia em local com infraestrutura adequada e geralmente devem passar por internação e cuidados adequados por 7 a 10 dias.

- Tratamento cirúrgico:

Podem ser empregadas técnicas como a ablação percutânea com etanol, tireoidectomia extracapsular ou intracapsular, as quais devem ter cuidado com a glândula paratireoide, que por vezes pode ser implantada no músculo esterno-hioideo.

A terapia cirúrgica pode ter como complicações o hipoparatireoidismo, com consequente manifestações relacionadas à hipocalcemia, paralisia de laringe, síndrome de Horner e hipotireoidismo.

- Terapia dietética:

Dietas com restrição de iodo não estão disponíveis no Brasil, contudo, mostrou eficácia no controle das manifestações.

Prognóstico

O prognóstico de pacientes não acometidos por carcinoma de tireoide é bom, desde que as complicações e comorbidades sejam devidamente manejadas.

As terapias cirúrgica e com iodo radioativo têm potencial de cura, com baixo índices de recorrência.

A expectativa de vida de pacientes com doença renal crônica concomitante é menor, bem como daqueles tratados com metimazol a longo prazo quando comparados com aqueles que são submetidos às modalidades cirúrgica e radioativa.

Literatura recomendada

  • Jericó, M. M.; Andrade Neto, J. P.; Kogika M. M. Hipertireoidismo Felino In: Tratado de Medicina Interna de Cães e Gatos. Guanabara Koogan, 1 ed., 2015.
  • Feldman E. C.; Nelson R. W.; Reusch C.; Scott-Moncrieff J. C.; Behrend E. The Thyroid Gland In: Canine & Feline Endocrinology. Elsevier, 4d, 2015.
  • Mooney, C. T.; Peterson M. E. Hipertireoidismo em Gatos In: Manual de Endocrinologia em Cães e Gatos. Roca, 4d., 2015.
  • Nelson, R. W.; Couto C. G. Disorders of the Thyroid Gland In: Small Animal Internal Medicine. Elsevier, 5ed, 2014.
  • Graves, T. K. Canine hypothyroidism In: Ettinger S. J.; Feldman E.C.; Côté E.Textbook of Veterinary Internal Medicine. Elsevier, 8ed, 2017.
  • Carney, H. C.; Ward C. R.; Bailey S. J.; Bruyette D.; Dennis S.; Ferguson D.; Hinc A.; Rucinsky A. R. 2016 AAFP Guidelines for the Management of Feline Hyperthyroidism. Journal of Feline Medicine and Surgery, 18(5):400-16, 2016.
  • Vaske H. H.; Schermerhorn T.; Grauer G. F. Effects of feline hyperthyroidism on kidney function: a review. Journal of Feline Medicine and Surgery, 18(2):55-9, 2016.
  • Loftus J. P.; DeRosa S.; Struble A. M.; Randolph J. F.; Wakshlag J. J. One-year study evaluating efficacy of an iodine-restricted diet for the treatment of moderate-to-severe hyperthyroidism in cats. Veterinary Medicine: Research and Reports, 12;10:9-16, 2019.

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