Gastrite por Helicobacter

Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 08 FEV DE 2020

Nome em Inglês

Gastric helicobacter infections 

Sinônimos

Helicobacteriose 

Definição

É uma doença causada por bactérias do gênero Helicobacter e é caracterizada por gastrite crônica. 

Etiologia e Fisiopatogenia

Helicobacter é um gênero de bactéria gram-negativa, microaerófila, espiralada, móvel, flagela e produtora de urease que coloniza a mucosa do estômago de cães e gatos.

Estas são bactérias de crescimento lento e muito exigentes quanto ao cultivo microbiológico.  

São conhecidas mais de 20 espécies do gênero Helicobacter, sendo as mais frequentes descritas na colonização da mucosa gástrica de cães e gatos as espécies: H. felis, H. bizzozeronii, H. salomonis H. heilmannii.

E com menor frequência ainda o H. pylori e o H. canis nos gatos.

É possível que mais de uma espécie seja encontrada colonizando o estômago destes animais. 

A produção de urease torna estas bactérias resistentes ao pH ácido do estômago, deixando-as viáveis para colonizar a mucosa gástrica.

As helicobactérias são consideradas de grande interesse devido ao seu papel na causa da doença estomacal. 

Devido ao local de colonização destas bactérias a infecção ocorre por via oral.

Sendo por ingestão de alimentos e água contaminadas, ou ainda por saliva, fezes ou vômito. 

Os cães e gatos podem se contaminar quando ainda estão sendo amamentados por suas mães durante o hábito de lamber seus filhotes.

Podem ainda, transmitir para outros animais no convívio com a ninhada, em aglomerações, em precárias condições de higiene e sanitárias.

Em países mais desenvolvidos há uma menor taxa de infecção descrita em seres humanos mas os dados apresentam similaridade nos cães e gatos independente do país de origem e desenvolvimento. 

H. pylori, está aparentemente disseminado nos humanos de diversos países, inclusive no Brasil.

E nos animais domésticos as outras espécies são encontradas com maior frequência. 

Devido as características deste gênero de bactérias, estas se adaptam às condições do estômago e produzem colonização no local. Por serem microaerófilas, elas tem a capacidade de sobreviver no suco gástrico, protegidas das enzimas proteolíticas e do ácido clorídrico.

Sendo a urease responsável por alcalinizar o meio e deixá-las protegidas.

Nos cães e nos gatos a colonização ocorre por toda da cavidade estomacal, da superfície da mucosa até as glândulas gástricas profundas e podem chegar até o interior das células da mucosa. 

Diferentemente do potencial patogênico que é conhecido nas infecções por H. pylori em humanos, nos animais domésticos ainda não se tem claros resultados.

Correlaciona-se diferentes espécies de Helicobacter diante das doenças clínicas apresentadas. H. felis foi associado com gastrite aguda, enquanto o H. heilmannii na ocorrência de ulceração gastroduodenal, gastrite, carcinona e linfoma do tipo MALT.

Algumas pesquisas foram realizadas a fim de investigar a correspondência entre as manifestações clínicas e a infecção.

Levou-se em conta, a presença da bactéria interferindo na função secretória das células, o infiltrado inflamatório na mucosa do estômago e os mediadores inflamatórios mas estes ainda não foram suficientes para estabelecer esta relação.

Contudo, alterações na proliferação celular no epitélio gástrico e desenvolvimento de linfoma em gatos infectados com H. heilmanni foram associados a presença deste agente.

Segundo os estudos isso deve ocorrer devido a inflamação crônica causada, podendo levar a alterações no DNA celular e contribuir para o desenvolvimento da neoplasia.  

Existem ainda relatos onde os animais obtiveram resolução dos sinais clínicos e da gastrite após a eliminação da bactéria, o que reforça que não se conhece claramente os mecanismos patogênicos deste gênero, supostamente estão relacionados a espécie bacteriana envolvida e as condições do hospedeiro. 

Acredita-se que a maior parte dos cães e gatos abrigue a bactéria na mucosa gástrica e apesar de generalizada a doença clínica é incomum.

A gastrite observada por não H. pylori geralmente é leve.

Os eosinófilos observados na mucosa gástrica indicam inflamação principalmente na fase aguda da infecção.

Outros infiltrados como de neutrófilos e interlucinas foram encontradas em gatos com H. pylori.

 

Maior ocorrência

Não há predileção por sexo, raça ou idade. 

Achados de anamnese

Se houver doença clínica os animais podem apresentar sinais de náuseas e êmese sem alimentação prévia.

Perda de peso, emagrecimento e em alguns casos diarreia. 

Apetite mais seletivo, consumo de gramas ou outras plantas e aumento na ingestão de água.

Geralmente a evolução é crônica, com sintomas intermitentes e em alguns casos podem haver manifestações agudas. 

Manifestações clínicas

Apesar dos helicobacteres produzirem gastrite tanto em pessoas como em animais, geralmente não há manifestações clínicas frente a infecção por Helicobacter spp. ou seja, os animais são assintomáticos.

Quando ocorre doença os sinais são inespecíficos e podem ser encontrados assim como em gastrites por outras etiologias.  

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico de helicobacteriose pode ser feito por métodos invasivos e não invasivos. 

A endoscopia apesar de invasiva, é a melhor técnica empregada para o diagnóstico da doença.

É possível através dela avaliar diretamente a cavidade gástrica, além de realizar coleta de amostras para diagnóstico da infecção e para o exame histológico.

Nas amostras obtidas pode-se realizar provas simples como o teste de urease ou ainda colorações histológicas específicas.

As colorações podem ser realizadas tanto com o fragmento do tecido, sua impressão em lâmina de vidro ou com materiais colhidos através da escovação da mucosa. 

Os outros métodos considerados não invasivos são menos sensíveis no diagnóstico da helicobacteriose mas são descritos na literatura como ferramentas possíveis a serem utilizadas.

São eles testes sorológicos, teste respiratório de atividade da urease, cultivo microbiológico ou ainda outros testes que utilizem amostras de fezes, vômito, saliva ou suco gástrico. 

O teste de urease, é um teste de fácil realização e de baixo custo que visa em detectar a presença de urease produzida pela bactéria.

Por alteração de pH ocorre mudança da coloração do reagente de amarela para púrpura, indicando positividade no teste.

É um método bastante sensível e específico muito utilizado na medicina humana.

As provas como a urease e o teste respiratório não detectam a espécie envolvida do agente.

O PCR (reação em cadeia de polimerase), é um teste bastante sensível e específico podendo ser realizado com as amostras e também com os isolados do cultivo microbiológico.

Porém, ainda são empregados apenas para pesquisas. 

Após o diagnóstico devidamente realizado, deve-se ressaltar que os cães e gatos geralmente são portadores de Helicobacter spp. e estes podem ser assintomáticos ou sintomáticos.

Sendo importante descartar outras causas de gastrite gástricas e extra-gástricas, como neoplasias, doença renal, alergias alimentares, gastrite idiopática, doença hepática e alterações metabólicas. 

Diagnósticos diferenciais

Adenocarcinoa ou gastrinoma

Campilobacteriose

Doença renal

Doença hepática

Alergia alimentare

Gastrite inflamatória idiopática (eosinofílica ou linfocítica plasmocitária

Alterações metabólicas

Terapia Inicial

Primeiramente deve-se investigar as prováveis causadas de gastrite no paciente.

Com o diagnóstico de helicobacteriose deve-se instituir o tratamento com base em antibióticos e antiácidos.  

Terapia de suporte e manutenção

Deve-se instituir tratamento com antibióticos e antiácidos por via oral. 

  • Amoxicilina + Metronidazol ambos (20mg/kg, a cada 12 horas) durante 14 dias. E famotidina (0,5mg/kg a cada 12 horas), por via oral durante 14 dias.  
  • Amoxicilina (20mg/kg, por via oral a cada 8 horas) ou azitromicina (5mg/kg para gatos e cães 10mg/kg a cada 24 horas), associados ao omeprazol (7mg/kg, por via oral a cada 24 horas) durante 14 dias. 
  • Metronidazol (10mg/kg, por via oral, a cada 8 horas) e pode ser associado aos antibióticos acima citados com duração de 7 a 14 dias. 

 

Prognóstico

O prognóstico de cães e gatos é bom, uma vez que os animais podem ser assintomáticos e não desenvolver manifestações clínicas especificas.

Ademais, os animais que apresentem sinais de gastrite devem ser investigados e tratados com antibioticoterapia quando diagnosticados com a presença da bactéria. 

É de conhecimento que as bactérias desenvolvem rápida resistência quando são utilizados fármacos em monoterapia e que a completa eliminação do microrganismo nos cães e gatos é difícil, podendo haver com frequência reinfecção e recrudescimento da doença. 

 

Literatura recomendada

DE CAMARGO, Pedro Luiz et al. Helicobacteriose em cães e gatos. In: MEGID, Jane et al.  Doenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 32, p. 340-346. ISBN 978-85-277-2789-1. 

 

NEIGER, Reto et al. Helicobacter Infection in Dogs and Cats: Facts and Fiction. J Vet Intern Med, UK, p. 125-133, 2000. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/j.1939-1676.2000.tb02225.x. Acesso em: 22 nov. 2019.

Informações para tutores

A helicobacteriose, é uma doença causada por ingestão de uma bactéria através do contato entre animais, água ou alimentos contaminados. Esta bactéria esta presente na mucosa do estômago de muitos cães e gatos mas as manifestações clínicas como a gastrite ainda são pouco frequentes. Diferentemente do H.pylori nos humanos, outras espécies deste gênero de bactérias estão envolvidas na colonização gástrica destes animais. 

Quando os pacientes apresentam sintomas de gastrite, como náuseas, vômito, seletividade por alimento, aumento na ingestão de água e hábito de comer graminhas.

O método mais indicado para o diagnóstico é a biópsia através de endoscopia.

Após isso os animais devem ser tratados com associações de antibióticos e antiácidos, visando eliminar o microrganismo e a recuperação tende a ser satisfatória quando isso ocorre.

Ademais, os animais que não possuam sintomatologia clínica outras causas devem ser investigadas.  

 

Referências

DOS SANTOS, Maria Carolina Farah Pappalardo et al. Doenças Gástricas: Gastrite associada a Helicobacter spp.. In: JERICÓ, Marcia Marques et alTratado de Medicina Interna de Cães e Gatos. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015. cap. 115, p. 2943-2970. ISBN 978-85-277-2666-5. 

 

FOX, James G. Enteric Bacterial Infections: GASTRIC HELICOBACTER INFECTIONS. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: ELSEVIER, 2006. cap. 39, p. 340-369. ISBN 978-1-4160-3600-5. 

 

DE CAMARGO, Pedro Luiz et al. Helicobacteriose em cães e gatos. In: MEGID, Jane et al.  Doenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 32, p. 340-346. ISBN 978-85-277-2789-1. 

 

   

 

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