Fobias de barulhos altos – fogos de artifício, tempestades, trovões

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 07 FEV DE 2021

Nomenclatura (sinônimos)

  • Fobias de barulhos altos
  •  Astrofobia - medo fóbico de raios e de trovões
  • Medo de barulhos altos
  • Fobia de trovões
  • Fobia de tempestade
  • Fobia de fogos de artifício

Nomes em inglês

noise phobia, noise sensitivity, noise reactivity, noise stress, fireworks fobia, storms fobia, thunder fobia

Definição

Animais que apresentam alterações comportamentais devido ao medo excessivo (fóbico) de barulhos altos  como fogos de artifício, trovões e condições como tempestades, chuvas, etc.

Fisiopatologia

As fobias a tempestades, trovões, fogos de artifício e outra condições podem se manifestar em diferentes alterações de comportamentos em cães e gatos, como por exemplo: tentativas de fugas (às vezes resultando em autolesão), micção e defecação inadequada, vocalização excessiva, comportamentos destrutivos, busca de contato próximo com humanos, tremores, salivação, esconder-se, andar de um lado para o outro, agressividade, brigas entre animais, entre outras.

 

A exposição repetida as tempestades, trovões e fogos de artificio pode levar à sensibilização e possível generalização e exacerbação dos sintomas. Como resultado, depois, o estímulo que desencadeia uma resposta fóbica pode ser mínimo ou inócuo. Por exemplo, o estímulo pode ser uma mudança na pressão barométrica ou uma rajada de vento soprando folhas indicando que a tempestade se aproxima ou pequenas pancadas de chuvas, ou pequenos barulhos de fogos distantes.

Muitos cães com essas fobias também apresentam problemas de ansiedade de separação (alguns pesquisadores estimam que até 90% dos cães com ansiedade de separação têm distúrbios comórbidos). No entanto, fobias a ruídos altos também podem surgir independentemente de outros transtornos de ansiedade.

Assim, devemos sempre avaliar se o animal apresenta outros distúrbios comportamentais ou se este é um caso isolado que requer tratamento isolado.

Maior ocorrência

Não há predisposição racial e sexual.

Achados de anamnese

Os animais podem ser calmos normalmente, mas diante de sons característicos de tempestade, trovoadas e/ou fogos de artifício ficam extremamente agitados, hipervigilantes, lambendo os lábios, vocalizando, apresentam tremores, colocam as orelhas para trás, apresentam semblante de medo e estresse, podem ficar agressivos (cuidado redobrados quando há muitos animais juntos para evitar brigas), podem defecar ou urinar com locais diferentes, podem destruir móveis, objetos, almofadas, podem ficar “pedindo” colo, ficar andando/seguindo o tutor compulsivamente, podem tentar se esconder em tocas (embaixo de sofás, camas, dentro de armários), podem vocalizar excessivamente, tremer e salivar em abundância. Muitos podem tentar fugir da casa, requerendo cuidados redobrados com portas, janelas, grades e cercas.

Geralmente gatos tentam se esconder em tocas, armários, sob camas e sofás e podem ficar agressivos com outros animais ou ao tentarmos segura-los.

Terapia

Existem várias terapias de manejo para prevenir a exacerbação dos sintomas. Não existe uma cura, mas um controle efetivo dos sintomas deletérios.

Em casos de fobias graves, os tutores devem ser encorajados a procurarem um profissional comportamentalista para auxilia-los nas melhores técnicas comportamentais e medicamentosas:

Algumas indicações de terapias comportamentais:

  1. Dessensibilização é uma das técnicas que deve ser realizada como complemento a outras terapias. A dessensibilização nada mais é que a exposição a um estímulo nocivo em uma intensidade baixa, insuficiente para produzir a resposta fóbica, com o aumento gradual de intensidade à medida que o cão exibe uma capacidade de enfrentamento. Por exemplo, muitos cães exibem comportamento fóbico ao som de um trovão ou ao som de fogos de artificio. Nesses casos, uma gravação em CD de ruídos de trovão ou fogos, tocada inicialmente em um nível baixo e aumentada gradualmente com o tempo, pode ajudar. No entanto, muitos cães têm múltiplos estímulos desencadeadores, como vento, odores de chuva e mudanças na pressão barométrica, raios e chuva ou no caso dos fogos de artificio, a luz emitida nas explosões. Nesses casos, a dessensibilização contra muitos estímulos, não só auditivos, não é possível. Em outros casos, o estímulo disparador não é identificável, portanto, uma estratégia de dessensibilização pode não ser efetiva Mas o tutor pode tentar esta estratégia usando gravações caseiras ou ate mesmo gravações comerciais encontradas na internet.
  2. O “contra-condicionamento” clássico pode criar uma associação positiva com fogos de artifício se a ansiedade não for extrema. Dê recompensas de alimentos muito palatáveis (petiscos, ração úmida ou manteiga de amendoim) e os ofereça os brinquedos favoritos e ou brincadeiras prediletas durante eventos mais leves. O objetivo é que ele aprenda que fogos de artifício resultam em recompensas altamente agradáveis. Por exemplo, brincar ou alimentar o cão com guloseimas enquanto o cão está sujeito a baixos níveis de estímulos nocivos (ruído de fogos, trovão, etc.) deve conseguir uma associação positiva entre som e guloseimas. Depois de concluído, o treinamento deve passar para uma intensidade gradualmente maior (dessensibilização). Os cães nunca devem ser punidos quando apresentarem um comportamento de medo, pois isso apenas aumentará o nível de angústia. A intensidade crescente do estímulo deve ser administrada de forma que em nenhum momento induza um comportamento de medo. O objetivo é garantir uma associação positiva com o estímulo em todos os momentos.

O contra-condicionamento é mais eficaz quando combinado com a dessensibilização, ou seja, o estímulo temido é inicialmente apresentado em um nível muito baixo e seguido por um incentivo. Posteriormente, este processo pode ser repetido, podendo a intensidade do estímulo ser aumentada gradualmente.

O uso de registros de ruído para dessensibilização e contracondicionamento sistemáticos (DSCC) é a técnica comportamental mais comumente recomendada no tratamento de medos de ruído e estudos indicam que a maioria dos proprietários percebe uma melhora no medo de fogos de artifício de seus cães após seguir um programa DSCC usando CDs de ruído.

  1. Treinamento de relaxamento. A modificação do comportamento leva tempo, esforço e repetição. Treinar o animal de estimação para se acomodar e relaxar em sua própria cama ou área de conforto (porto seguro) deve ser o foco do treinamento baseado em recompensa, antes dos exercícios de dessensibilização para garantir que o animal possa primeiro ser acalmado e acomodado na ausência de estímulos potencialmente indutores do medo e devem realizar essas atividades várias vezes ao dia. Devem fornecer um ambiente seguro e protegido onde o animal tem um senso de controle e previsibilidade. Isso pode ser feito encorajando respostas positivas antes de fornecer as coisas que o cão valoriza, bem como um comportamento gratificante que seja espontaneamente calmo e relaxado.

É melhor sempre prevenir, portanto indicar começar os treinamentos durante as épocas do ano quando a exposição aos estímulos que induzem  o medo possam ser evitadas. Sempre de forma preventiva, para que o animal possa ser beneficiado antes da próxima temporada de tempestades ou das festas de fim de ano.

4. Uso de coletes e faixas compressivas podem ter benefícios anti-stress se usados de maneira adequada. (Exemplos:  https://thundershirt.com/ https://anxietywrap.com/ )

Terapias medicamentosas:

Algumas vezes o uso de medicamentos ansiolíticos é necessário para ajudar nas fobias mais graves e evitar acidentes durante tempestades, trovões e fogos.

O Alprazolam é um ansiolítico de ação curta, comumente empregado no tratamento destas  fobias. Indicada administração   pelo menos  1 hora antes do surgimento dos eventos sonoros estressantes.

Alprazolam - dose -  0,01 - 0,1 mg/kg PO, quando necessário.

Alprazolam ou outros benzodiazepínicos podem ser combinados a curto prazo com os outros medicamentos de uso diário listados abaixo, conforme necessário, antes dos eventos sonoros que causam fobias. O efeito amnésico do Alprazolam pode ser útil para reduzir o impacto de um evento no comportamento futuro do cão.

Outros medicamentos que podem ser utilizados de forma preventiva e/ou crônica:

  • Fluoxetina 1-2mg / kg PO q12-24hrs
  • Clomipramina 1-3mg / kg PO q12hrs (com alimento)
  • Amitriptilina 1-2mg / kg q12h PO
  • Diazepam 0,5 - 2,2 mg / kg PO

Tomar maior precaução com uso de benzodiazepínicos e sedativos, começar sempre com doses baixas, fazer um teste de dosagem antes de qualquer evento para garantir que não haja efeitos paradoxais e para determinar a dose ideal para acalmar o cão.

Levar em conta que os benzodiazepínicos frequentemente aumentam a fome, então o cão pode ter seu apetite aumentado e pode ter uma agressão temporária em torno de alimentos, especialmente após a dosagem. Portanto tome cuidado se houver outros animais, se houver comida deixe o animal sozinho para comer,  até que o medicamento seja metabolizado.

Trazodona - doses iniciais de 2-5mg /kg, qdo necessário até TID. Começar antes do evento, pelo menos 1 hora antes e repetir se necessário.  Pode ser usado sozinho ou em conjunto com outros ansiolíticos e antidepressivos (fluoxetina, clomipramina) em uma programação de rotina.

SILEOR (gel oromucoso de dexmedetomidina) -   adrenoceptor alfa-2 sintético agonista, indicado para o tratamento da fobia a ruídos em cães, na dose de dose de 125 mcg / m2. (https://www.zoetispetcare.com/products/sileo )

Diante de tantas indicações terapêuticas destacamos que apenas poucas drogas foram testadas utilizando estudos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Nestes estudos o  gel oral mucoso Sileo® Dexmedetomidina demosntrou eficácia apresentando um bom efeito calmante .

Outra droga anticonvulsivante – a Imepitoína, também apresentou resultados positivos.

Um estudo menor comparou a eficácia da Trazodona e da Dexmedetomidina no medo em cães durante fogos de artifício na véspera de Ano Novo. Embora ambos os medicamentos tenham sido eficazes, a redução nos escores de medo foi significativamente maior no grupo da Trazodona, e também a satisfação do proprietário foi maior para a Trazodona (87,5%) em comparação com o Sileo® (61,1%).

Feromônio apaziguador de cães (DAP) - está disponível em diferentes apresentações - spray, difusor ou em coleiras e tem demonstrado ajudar com ansiedade de separação e fobias a ruídos. Não tem efeitos colaterais conhecidos e pode ser usado com segurança sozinho ou em conjunto com outros medicamentos ( https://www.ceva.com.br/Produtos/Lista-de-Produtos/Adaptil-Difusor-e-Refil ) e para gatos o hormônio sintético Felliway ( https://www.feliway.com/br)

Acepromazina induz sedação, mas não é eficaz para reduzir a ansiedade e o medo portanto não é muito vantajoso para estes eventos, então pesquisadores não recomendam o uso isolado de acepromazina.

O uso de melatonina e outras terapias naturais, fitoterápicas e homeopáticas têm sido usadas anedoticamente para tratar transtornos de ansiedade. A maioria pode ser usada simultaneamente com antidepressivos e ansiolíticos, exceto se o seu modo de ação for para aumentar ainda mais a transmissão da serotonina (por exemplo, o triptofano e a erva de São João devem ser evitadas).

Literatura recomendada

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